Ohvarios

Pra mim, basta um dia.

25/04/2009 · 1 Comentário

Tudo bem. Tenho consciência que nem conhecemos. Que nunca ouvi da tua boca mais de duas dúzias de palavras. Não do modo convencional da coisa, estar um de frente pro outro, conversar, ver a maneira que tu te gesticulas, tuas gírias, risada, trejeitos durante um diálogo. Não, não tenho nada disso. Mas uma coisa eu tenho e é bem maior do que isso. Uma vontade desconcertante de te ter. Desde o momento que bati os olhos em ti. Aquela coisa patética, platônica e utópica. Olhar pra todos ao redor e não conseguir a soma que só de olhar pra ti, eu conseguira.

Se vivêssemos em um momento de pouca facilidade à informação, talvez essa sede de te ter não demorasse mais de algumas horas. O problema é que não funciona mais assim. E ter me interessado por ti, ultrapassou o limite de um flerte ou algo do tipo. Mergulhei de cabeça e tentei descobrir o máximo que podia. E curiosamente, quanto mais descobria, mais tinha certeza do quanto te queria pra mim.

Não, não desse jeito esteriotipado e convencional. Poderia ser do jeito que quiséssemos que fosse. Sem padrões, rótulos, limites, nada. Te queria. E muito. O que fazer se nem sabes quem eu sou? Como te convencer de que não seria favor nenhum da tua parte? Como te explicar que se tiveres a chance de saber o que eu sou, a recíproca será perfeitamente igual? Como conseguir dissertar o que eu senti, quando te vi expressando todas as tuas emoções possíveis? Que entre gritos irracionais ao meu redor, eu estava bem ali, dividindo contigo, a tua dor, paixão e tudo mais que coubesse naquele momento?

Não consegui até agora, achar uma maneira de dizer isso pra ti. Só me cabe esperar e tentar encontrar uma forma de fazer isso acontecer. Enquanto isso, me sustento com migalhas que são incompreendidas por outrem. E eu nem me importo com isso, só o que eu queria era uma maneira de te tocar. Não só o toque físico, o que eu obviamente, também imagino de várias maneiras. Porém, agora me refiro ao toque abstrato. Dividir contigo as minhas loucuras, que não são poucas e as tuas, que pelo pouco que posso dizer, já percebi que também são diversas.

Apesar de parecer uma coisa de adolescente, um dia, vou te contar como tudo começou, o que eu fiz por conta e até mesmo esse texto. Nem que seja durante um dia. Quero conhecer o que há de mais íntimo, louco, forte, dócil. Posso ter que atravessar meio país pra isso. E por um único dia.

Pra mim
Basta um dia
Não mais que um dia
Um meio dia
Me dá
Só um dia
E eu faço desatar
A minha fantasia
Só um
Belo dia
Pois se jura, se esconjura
Se ama e se tortura
Se tritura, se atura e se cura
A dor
Na orgia
Da luz do dia
É só
O que eu pedia
Um dia pra aplacar
Minha agonia
Toda a sangria
Todo o veneno
De um pequeno dia

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A Bahia, o sertanejo e o medo.

06/04/2009 · 1 Comentário

Sempre tive muito medo de sertanejo, dessas duplas que usam calça apertada, estourando os pobres bagos e têm letras terrivelmente ruins e detentoras de chifres por todos os lados.
Para quem não sabe, agora moro na Bahia e, ou eu tenho me relacionado muito mal, ou as pessoas realmente gostam desse tipo de música(?) pelas bandas de cá.
Moro com duas sertanejas da cidade, somos muito unidas e gostamos de farras. Sendo assim, as cervejadas e faxinas-amigas são regadas a música(?). Eu, democrática como sempre fui, passei a ser obrigada a ouvir e entender até mesmo que o antes: “ JorgeMateus,” na verdade se tratava de Jorge e Mateus. Sim! São duas pessoas e pasme: diferentes.
Dia desses elas fizeram alguma coisa sobrenatural comigo e , quando dei por mim, já possuía um ingresso para o show de Aviões do Forró e Vitor e Léo + dez bandas com nomes como: “cavalo chucro”, “rasta a pereba no asfalto“ e afins. Graças a Nossa Senhora do Ouvindo Limpo eu despertei deste sono profundo e consegui, no último momento, me desvencilhar de tão temido pedaço de papel metálico e minha força pôde prevalecer.
Este texto meio sem pé nem cabeça na verdade é um pedido de socorro, um apelo a meus amigos e leitores deste blog. Sinto medo de dormir e acordar com alguma espécie de Tratamento Ludovico da Música Ruim feito em mim: fios por todos os lados, olhos esbugalhados, cantando que a vida é boa porque algum sapo caiu na lagoa e achando isso super legal.
Alguém me salva, alguém educa as meninas, alguém me apresenta pessoas que gostem de músicas legais ou se preferir envie CDS decentes para minha residência, serão extremamente bem-vindos.
Sinto muito medo.

P.S.: Bregoso, aparelhagens, saudade de vocês.

Dedicado à Marília e Luana, as duas pessoas de mau gosto mais legais para se morar junto (L).

Lora Cirino

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No mínimo dois palmos, por favor!

06/04/2009 · Deixe um comentário

Por Lora Cirino

O que mais me dá raiva não é nada não, é esse cantinho da tua boca que teima em subir com esse charme terrível toda vez que tu falas. Me deu uma raiva tão grande na primeira vez que eu percebi que eu não estava conseguindo escutar nada ao meu redor, porque os teus olhos meio caídos, desviando o olhar a toda hora me davam tanta fraqueza nas pernas, que abalavam minha audição. Me deu tanto ódio perceber que eu tava totalmente perdida, que eu não queria querer mas que muito menos conseguia evitar que todo mundo percebesse. E aí as coisas começaram a sair da minha boca, eu tentava parar, não conseguia. Como se não fosse suficiente, veio um sorriso terrível entre um gole e outro, esfriou minha espinha, eu sabia que meus cílios tremiam de tanta vergonha e pior, de tanta vontade de entrar em ti e, como diria uma amiga minha, te comer com colherzinha.
Eu desviava o olhar pra toda aquela multidão, pra toda aquela festa e música, alguma coisa tinha que me chamar mais atenção que tu, até que, de novo: o olhar, o canto da boca, o jeito de falar, os olhos caídos e não tive outra escolha a não ser entrar em ti e me enroscar com toda a força possível, morrendo de raiva daquela situação. Aquela vontade de não sair nunca mais dali e principalmente aquela maldita fraqueza nas pernas.
Só estando ali, dentro de mim pra entender o que estava havendo, entende? Lógico que entende! Não tinha como! Não dá pra evitar o inevitável, porque é feitiço sabe? É isso, seu bruxo maldito! Bruxaria, coisa ruim, hipnose.
É por isso que me sinto quase a Luana Piovanni e te digo: mantenha distância.

 

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Vida louca, vida imensa.

03/04/2009 · 1 Comentário

Já que eu não posso te levar, quero que você me leve.

Leve.

Leve…

Por Moara Brasil

Estou dentro de um túnel, e não enxergo o fim. É difícil, dói na alma. Mas a minha única força para seguir esse caminho é acreditar em algo que é abstrato, que não existe, que é fruto das minhas esperanças.

Será algo esquizofrênico? Será apenas uma imaginação louca de que um dia poderei sorrir para as paredes sem me preocupar com as rachaduras?Não sei, às vezes o chão me puxa com tanta força que eu chego a me bater e ficar cheia de hematomas.

É uma inconstante, às vezes estou em êxtase, às vezes estou na lama. É bipolar, dá medo. Estou vulnerável até com o vento da garoa.

Penso que doer faz parte, é mais uma daquelas crises que qualquer ser humano tem que passar para conseguir se entender um dia.

Quero ficar desnuda, saciar minha libido toda vez que chega o fim de semana. Para estranhos? Para aqueles que não me conhecem, que não sabem quando eu entro em êxtase com o toque naquele lugar que poucos, bem poucos, conhecem. Só quem sabe da minha intimidade entende. Dá abuso, dá preguiça conhecer os outros e ter que se apresentar com respostas de questionário. Não quero isso, prefiro caminhar só. E acho que o melhor ainda é tentar viver só por um tempo, conviver consigo mesmo.

Preciso de doses de felicidades, preciso de doses de alegria. Agora só tenho doses de melancolia, mas eu resisto. Quando sinto que meu corpo está caindo, que meu coração aperta e que tenho aquelas sensações femininas com doses intuitivas. Dá um desespero.

Não quero chorar, não quero isso para mim. Chorar sempre cansa. Se amar de menos destrói, mata.

Eu choro para não gritar, para não bater na parede, para não ficar repetindo para mim mesma que eu posso estar errada, que eu posso ter me enganado com essas decisões de adulta. Futuros opostos, amores com direções contrárias.

O pior de tudo é o ócio, esse sim é droga para o vazio se explodir e sair voando. Cabeça ocupada é o que procuro. Cabeça com outros problemas, problemas dos outros. Os meus, pouco importa.

Posso estar me alienando, pode ser uma fuga, válvula de escape. Fico o dia inteiro não pensando em mim, e sim tentando crescer para os outros serem maiores, mas quando chega à noite, ela me carrega, eu flutuo na almofada… E as lágrimas inundam meus lençóis. Preciso viver, preciso de histórias. Preciso de sexo com intimidades e brincadeiras de casal. Preciso sorrir de novo. Eu vou conseguir.


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Daquelas rapidinhas boas.

01/04/2009 · 1 Comentário

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Diálogos ordinários (nos sentidos mais variados da palavra).

“Eu gosto de homem fiel.”
“Eu gosto é de homem viril.”
“Eu gosto de homem, não importa como, se é fiel, viril.”

Morar numa república com tanto gay não me faz bem, definitivamente.

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éguas de março em São Paulo

20/03/2009 · 5 Comentários

São Paulo, assusta e atrai com a mesma intensidade. Quando pisei nessa cidade, senti um calafrio. Me levaram logo na rua Augusta, lembrei daquela musica dos mutantes “Subi a Rua Augusta a 120 por hora/Botei a turma toda do passeio pra fora/Hi hi Jonhy, Hi hi Alfredo, quem é da nossa gang não tem medo..”

Nossa!!Muitas pessoas diferentes, pessoas estranhas e bonitas exageradamente. Gostei. Gostei de pisar assim neste lugar, mesmo vindo de uma cidade tão diferente, que eu sou apaixonada: Belém.

Chorei, derramei lágrimas em São Paulo pois senti um medo, mas me apaixonei pela avenida Paulista inteira, amei cada olhar de pessoas estranhas que me olhavam, dos paulistas curiosos, das meninas estilosas. São Paulo encanta.

O metrô, talvez ele represente o que é morar aqui, é ser rápido, é não ver o tempo passar e nem ver a luz do sol se pôr. Mas São Paulo nada tem de cinza, tem de contrastes. Quem perde o tempo perde o metrô, ou ainda pode ficar engatado na porta e se dar mal. É assim, faça logo ou você se lasca. Seja esperto, menino!

Parece uma obra barroca, um jogo de claro e escuro. Ou os caminhos da Pop Art. São Paulo tem grafites nos seus túneos, nas suas lojas, nas suas paredes que eram cinzentas. São Paulo é outro mundo, é tudo o contrário do estereótipo que sabemos pela TV pública. Ah! São Paulo…

Quero te sugar até não poder mais, todas as tuas novidades, todas as tuas culturas misturadas numa grande metrópole. Quem vem para cá consegue entender melhor o Brasil, e toda essa mistureba.

Vim com o coração em Belém, ainda pendurado nas mangueiras, prestes a cair. Vim pensando nas praias, nas ilhas do norte, no que eu não vou poder mais tocar, sentir e amar. Vim carente de meus grandes amigos, meus companheiros. Vim amando uma pessoa, troquei-a por São Paulo. Mas não porque eu quis, troquei por um sonho maior, um sonho desde criança. Uma vontade de crescer, de ser reconhecida e ter mais felicidade.

Vim amando alguém, aquele barbudo, aquele paraense que me entende no silêncio, me entende no olhar. Ao som de “Não se apresse não, que nada é pra já, amores são sempre amáveis. Futuros amantes”. Faz tempo que eu não sentia algo tão puro, tão belo. Mas tudo o que eu quero é ser melhor, acreditando que terei dias muitos maiores e eternos ao lado do meu amado. Terei, eu sinto isso. Mas não será agora, e fico desesperada. Gritei, chorei, bati a mão na parede, pensei também em me arrepender. Mas não, a vida tem suas explicações absurdas, e Deus escreve certo com linhas um pouco tortinhas.

Agora a minha vida é São Paulo e a minha crença no agora, que em breve será ao lado dele, do vermelhinho, e bem perto de meus queridos amigos. Uma dia quem sabe será mais feliz. Eu recomendo.

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Até que a amnésia nos separe.

12/03/2009 · 1 Comentário

…Aí começo a lembrar de ti. Basta eu ter qualquer tipo de crise dessas pós-modernidade, dessas que oscilam entre depressão, tpm, crise existencial, bipolaridade, tanto faz. O que eu quero mesmo é um pretexto pra lembrar de ti. Quando encontro um, puxo todos os gigabytes de memória, passo a mão num cigarro e pego um licor. Lembra do meu favorito? Licor de amaretto, que você insistia em dizer que parece com algum adstringente bucal. Ligo o som. Melhor que isso, escuto um vinil. Vale ouvir aquele disco da Elis que sempre ouvíamos, fazendo uma massa. Qual é mesmo a sua favorita? Acho que é raviolli. Tanto faz. Essa parte da lembrança fica distorcida. Já que era na hora de cozinhar que nós mais liberávamos a nossa louca libido na cozinha. Lembra quando a gente deixou queimar um spaghetti ao pesto, por que esquecemos dele no fogo? Lembro da nossa gargalhada. Nus e com fome. Saciamos outra que pra nós sempre foi mais importante. Gargalhadas… não consigo ter nenhuma gargalhada sem lembrar de ti. Você dizia que minha gargalhada oscilava entre uma psicótica e uma menina do interior. Nunca entendi essa tua metáfora. Eu sempre fui tão boa em entender meus amores, mas você?! Tem horas que acho que ninguém no mundo te lê como eu. Eu te leio. Uma leitura daquelas a lá Hilda Hilst ou Florbela Espanca. Um misto de dor, sexualidade, desequilíbrio, sei não. Paixão desvairada. Falta de ar. Sal de lágrima e suor. Acabou o cigarro. Termino aqui. “Existem mais mundos. Ou altos ou fundos. Entre eu e você”

→ 1 ComentárioCategorias: Gina

Das grandes coisas pequenas

11/03/2009 · 2 Comentários

Eu te peço, mesmo sem dizer nada, te peço. Não deixa. Por favor, não deixa. É sempre assim.

Depois de um tempo vira comodidade. O encanto vira cotidiano. As palavras bonitas, banais. As rosas, murchas. O humor, alterado. O cuidado, de lado. Nunca apontamos o dedo um para o outro, nem pelos piores motivos. Nem por eles. Agora, sim. Por toda a nossa infantilidade, orgulho e exagero. Mas eu peço, não deixa, é grande demais, é bonito demais, cuida, por favor, do nosso jardim.

Você diz que eu me importo com coisas pequenas, mas talvez não saiba que certas coisas morrem devagar. Por uma falta de afago, por um dia sozinho na chuva, pela ida solitária à oficina. E até mesmo nas coisas mais banais, sabe? Como disse Cazuza. Quem não gosta de um bilhetinho apaixonado grudado no box? Uma mensagem na madrugada de segunda-feira? Você gosta, eu sei. Mas morre de preguiça de escrever no celular e esquece de me fazer aquela surpresa de aniversário porque amanhã é dia de jogo. E depois de amanhã precisará estudar. E amanhã? Ah, sim, é nosso aniversário de namoro, né? É… Ah, foi ontem, né? Desculpa, amor…

Eu bem sei que tenho uma sensibilidade que de tão grande é chata. Mas mais uma vez alguém consegue usufruir o lado bom disso e apontar o dedo pro lado ruim. “Amor, faz isso por mim?”, faço. “Amor, faz AQUELA missão impossível comigo?”, faço. “Amor, gostei tanto desse quadro!”, e eu já tenho um presentinho pra você. Porque eu SOU assim, gosto de agradar até demais, e tudo o que eu quero é que não me olhem como uma besta. E não tirem proveito desse sentimento pra não ter mais “dedos” com as palavras. E não se acomode, por favor, eu imploro, rolo no chão, puxo a sua bermuda, POR FAVOR, não se acomode.

Só pelo fato de querer conquistar todos os dias não significa que eu já to conquistada. Por que será que sempre a interpretação é essa?! Será que não é bom agradar demais que aí a figura se acha o mais novo rei da cocada preta e pronto, acha que pisar amacia. Não é assim. Isso me murcha como poucas coisas nessa vida. Isso me faz fechar o coração. Não é por nada, não. Não é vingança, raiva ou vontade de matar. É pior. Decepção. Vontade de ficar longe e falta de vontade de agradar. Chegou a hora de me recolher. E ir dormir sem sonhar com nós dois.

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Operário

17/02/2009 · 2 Comentários

Do lado de cá, da janela em que encostada estou, acendo um cigarro e dou um gole no café. Do outro lado – da rua, da realidade, do mundo – um operário ou O operário, pois eis que o imagino clássico em sua função: macacão azul, capacete amarelo, botas negras e luvas brancas. 2ae6b3628aa4430d808df727625d7dbd587121f3_m

Permaneço entre um cigarro e um gole de café (quente, quente) a olhar o carinha lá do alto de uma parafernália que não sei o nome. Uma cabine alta, cheia de braços e garras mecânicas, que o fazem mais parecer o próprio Doctor Octopus a favor da construção civil.

Ele lá tão alto e tão só. Eu aqui tão cheia de si e igualmente só. Não consigo parar de pensar que tipo de solidão se sente lá do alto que ele está. A minha é rasa, é mais cobra do que pássaro. É rente ao chão, é próxima a terra úmida. Ele sobe no vazio, o operário.

Eu mergulho nele, no vazio e no operário.

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Imperturbável

17/02/2009 · Deixe um comentário

impertubavel5

Estranhamente vazia, complacente com o oco.

Não incomodada com um rascunho de texto ou esboço de sentimento.

Inabalável solidão.

ao som de [ You - Radiohead ]

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O amor nos tempos de crise

13/02/2009 · 1 Comentário

Ele a via chegar sempre como quem está atrasada. Ella. Esse nome era assim tão simples e categórico para o que Ella era. Ah, que mulher, ele suspirava. E chegava sem olhar para nada ou olhando tudo como se nada fosse interessante. E nada era depois que ela entrava. Muitos também deviam suspirar como ele “Ah, que mulher Ella…”.

byro_02Ele olhava do outro lado da sala ela adentrar, atento, com o coração quase na boca, pronto para dizer qualquer coisa como “vamos dar um passeio ou um chopp depois do expediente, quem sabe”, mas permanecia inerte. Ella pouco se interessaria no que ele diria porque gaguejaria e lhe suariam as mãos. Talvez a pressão baixasse, a asma surgisse e de supetão, ele puxaria a bombinha do bolso da camisa antes mesmo de dizer “oi”.

Ella usava sempre roupas pretas e entre um cafezinho e outro, na copa da empresa, ele já ouvira os outros dizerem que tinha um ar sinistro, que fumava e era monossilábica. Mas ah, que mulher misteriosa… Fazia surgir ciúme das outras funcionárias, tinha uma postura que era só sua. O jeito que abaixava para pegar um memorando que caia, a forma como apontava o lápis e divagava olhando para tela do computador. Ah, se ele pudesse…

Foi numa segunda-feira que se armou de coragem e decidiu: passaria e ultrapassaria o limite de Ella. Não poderia ser pior do que já era viver de vontade, imaginá-la fazendo coisas simples, como arrumar a casa ou prostrada por uma gripe. Enfim, coisas de gente apaixonada imaginar situações assim.

Enamorado pelo dia seguinte, dormiu agarrado no despertador e com o livro de Neruda longe da cama. O livro era velho e poderia lhe causar espirros por conta de uma alergia que bem conhecia desde a infância. Mulheres gostavam de poesia, de flores, de romantismo. Então, a conquistaria assim: com uma rosa a mão e um verso no ato. A Dança, de Pablo Neruda.

Adormeceu decorando a tal Dança:

- Te amo como a planta que não floresce e leva, leva… hum… dentro de mim. Não, droga. É dentro de si, dentro de si, seu estúpido, estúpido – repetia como autoflagelação.

E então respirava fundo, limpava a testa com um lencinho que estava sempre a tiracolo no bolso e retomava a sabatina de si mesmo:

- Te amo como a planta que não floresce e leva
dentro de si, oculta, a luz daquelas flores,
e graças a teu amor vive escuro em meu corpo
o apertado aroma que ascender da terra.

Foi então que ficou aliviado.

No dia seguinte, não conseguiu nem tomar café. Acordou com o estômago em brasa e um riso solto sem motivo. Até esqueceu-se da bombinha, do agasalho para caso o tempo esfriasse, da sua caneta da sorte que poderia ser tão importante naquele momento. O melhor momento de sua vida.

As tarefas mais corriqueiras pareciam ter um brilho diferente, pois ao final do dia ele teria sua recompensa. Todos os memorandos saíram com um ar de carta de amor e a Dança de Neruda bailava em sua cabeça. Ele permaneceu o dia todo rabiscando palavras soltas – flores, dentro de si, alma – nos cantos das folhas de papel.

Mais precisamente ás 17:25 h foi chamado para uma reunião. Um medo monstruoso o invadiu e fez com que sua úlcera mostrasse a seu corpo para que veio ao mundo. A dor era horrenda, mas pior ainda era a possibilidade de Ella sair da empresa antes que o tormento corporativo acabasse.

Não queria saber da crise que o país enfrentava – que vá para o inferno a crise – e que bla bla bla mais chato era ouvir tanto papo furado sobre contenção de despesas, corte na equipe por motivos maiores e que sentiam muito. Ah, martírio era amar tanto aquela mulher. Ah, que mulher… Saiu da sala sem entender nada sobre o que se passava e pouco se apercebeu quando a gerente do RH disse a ele para comparecer em sua sala para “acertar as contas”.

Saiu esbaforido da sala, suando feito um porco, óculos embaçado e a tal Dança sendo repetida bem baixinho:

- “Graças a teu amor vive escuro em meu corpo o apertado aroma que ascender da terra…”

Chegando a sala, nada de Ella. Ela havia ido embora, levado sua graça para outro lugar e ele, ali, perdido, com cólica, falta de ar, suadeira, pressão baixa e o tique nervoso, que tanto o atormentava, mais acentuado do que nunca. Até seus pensamentos gaguejavam. Tomado por uma fúria nunca antes conhecida pelo seu corpo e por sua alma, saiu da sala correndo.

Desceu pelas escadas para ser mais rápido e a cada lance, sentia-se irremediavelmente mais perto de sua amada. Ah, que mulher eu terei, pensava o apaixonado. Ah, que lindo será o destino que nos aguarda, Ella; dizia ele mentalmente.

Chegando ao hall do prédio, nenhum sinal dela. Avançou para a calçada e a avistou ao longe, de seu lado direito. Ella andando leve e displicente. Teve que parar durante cinco segundos para arrumar o rosto e recolocar os óculos no alto do nariz, empurrando com o dedo indicador. O cabelo também merecia um grau: cada uma das mãos era responsável por deslizar, da raiz até as pontas, sobre o penteado meticulosamente feito com gel e repartido para o lado esquerdo.

Andava apressadamente por entre as pessoas que não entendiam nada. Ainda assim, com toda pressa, ele muito educado, pedia licença e perdão a cada esbarrada que dava. Viu-a atravessar a rua e gritou desesperado:

- Eeeeeeeeellaaaaaaaaaaaa…

Num ímpeto de momento, enquanto ela já atingia a outra calçada, ele arvorou-se em direção ao asfalto. Um Corsa ano 2007, de cor preta, placa JT3852, com uma mulher ao volante, atropelou o pobre nerd que só então percebeu que a vagabunda gótica estava com fones de ouvido. Que caralho de puta autista era aquela que conseguia nem olhar pro lado enquanto andava? Merda. E ainda estava desempregado. Puta-que pariu. Essa vida é uma merda mesmo!

Fim.

Moral da história: o amor é uma piada onde quem ama, sempre se fode no final.

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Sobre a falta de escrita

03/02/2009 · 4 Comentários

Ando sem a menor das inspirações pra escrever. Até que tento, no cantinho, depois de ler um conto fantástico de outrem, me forço, reforço e nada. Engraçado como nada flui, não do jeito que eu acho que deva ser. A culpa – quem diria? – tem um culpado. Meu pacto de não escrever nada negativo. Firmei comigo mesma, sei lá, um modo de exercer a positividade e mudar o foco dos meus textos.

A partir daí, o fim se deu. Quer dizer, não se deu. Toda e qualquer história criada por mim ficou pela metade. Nasceu, cresceu e ficou por ali mesmo em menos de mil toques. É difícil ser autora de uma obra nada venenosa, sem sequer um pingo de melancolia ou, sei lá, aborrecimentos diários e ironias cotidianas.

Fiquei pensando no meu papel de quem escreve, mesmo que asneiras e coisas minhas e apenas pra mim. Sou egoísta, não consigo pensar nos meus leitores e sequer me preocupar com o que eles vão achar. Crio um espaço que querendo ou não é público, apenas para de alguma forma deixar as minhas frustrações e críticas percorrerem horizontes que vão além dessa minha cuca loira.

Agora eu vivo uma fase de pouca profundidade, sabe? Nada de mergulhar fundo na maré das inquietudes humanas. Ando sem saco pra ter reflexões de qualquer tipo. Tudo anda tão bem de um jeito tão simples que isso simplesmente repercutiu em tudo o que toco: lápis, papel, amigos, família, dinheiro, cama, panela, cachorro. Tudo. Gosto mais de ver seriado até dormir ou comer um miojo no jantar [voltei a achar macarrão instantâneo comida de gente fora de situações de risco].

Será que a felicidade me tira toda a vontade de contar a minha história pro mundo? Será que eu só sei escrever quando o coração aperta e o mundo explode?

Eu não quero, cara, parar de escrever. Por isso pensei em escrever justamente sobre essa questão. É negativo? Nem sei dosar.

→ 4 ComentáriosCategorias: Anna Carla

Série “Oi, você vem sempre aqui?”

26/01/2009 · 7 Comentários

Tem gente que coleciona selos, dos mais raros até os mais chinfrins. Ou obras de arte, johnnybravo3tampinhas de refrigerante, corujas, bruxas, inimigos, livros. Enfim, o hall de coleções são os mais diversos nesse mundo. Ôooo se são…

Bem, eu e a Lora podemos temos como hobby colecionar cantadas. Não, pessoas. Não quero dizer que somos as musas dos pedreiros ou que arrematamos olhares por onde passamos. Nada disso.

A verdade é que existem caras com dom pra coisa, sabe? Ou pelo menos acham que tem. Eles realmente investem no “oi, posso te conhecer?” e inventam mil formas de tornar nossos dias mais alegres ou nossas noites e chances de desencalhar deprimentes.

Vale ressaltar que nós mesmas nunca caímos em nenhuma dessas, até porque minha veia sociopata  é latente demais ( eu temo estranhos)  para sucumbir aos chamados dos estranhos-engraçadinhos, estilo Jhonny Bravo, que se espalham pelas ruas e baladas.

Mas as colecionamos. Sim, desde as mais toscas até as mais criativas. E vale a pena. Criatividade bizarra mode on. Start!

- Oi, tudo bom?

- Tudo…

- Tu conheces o Alex?

- Alex? Não… acho que não.

- Mas agora conhece. Prazer, meu nome é Alex.


- Hoje é teu aniversário?

- Não, não…

- Pô, mas você tá de parabéns, hein?


- Doeu a queda?

- O que?

- A queda… doeu?

- hãn?

- Porque um anjo assim, só pode ter caído do céu.


- Passei por aqui pra ver se tu pisavas no meu pé de novo, só pra eu poder ficar um pouquinho mais perto de você. (em meio à balada super lotada)


- Eu tô bem? Meus amigos disseram que eu tô bem hoje.

- Tá, tá bem sim…

- Obrigada! Você também tá maravilhosa, sabia?


- Nossa, você tem cara de professorinha de Português. Uau! (bem fantasiando com óculos de grau)

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Não sou tanto

23/01/2009 · 1 Comentário

“Quem lhe disse que eu era
Riso sempre e nunca pranto?
Como se fosse a primavera
Não sou tanto
(…)

De que calada maneira
Você chega assim sorrindo
Como se fosse a primavera
Eu morrendo
Eu morrendo”

[  como se fosse a primavera - Pablo Milanés/Nicolas Guillén/Chico Buarque ]

É fácil colocar a culpa em você. Todos os meus amores mal resolvidos, todas as vezes que amei demais, as vezes que amei de menos, as crises de ciúme, os ímpetos de arrogância, os momentos que sobrepus minha opinião. É tudo culpa sua. Quem puxa aos seus não degenera. Entretanto eu teria que dizer que também és culpado por eu ter lido Feliz Ano Velho e até por eu gostar de ler. Eu ser é culpa sua, integralmente.1a5774b4ecf5127f27f15002ea085c7ec97e3c5e_m

Eu queria falar bonito e com classe, pois eu te via sempre tão desenvolto e cavalheiro, fumando um cigarro forte, tua postura me parecia tão bonita e transparecia uma segurança que poucas vezes na vida eu sentiria novamente. Era por isso que eu segurava tua mão forte e sentia medo de te perder.

Via em nós uma cumplicidade sem igual, definida a outros olhos como inabalável. Parecia que me entendias sem que eu precisasse falar e por isso, calei muito. Permaneci muda uma vida toda acreditando que há o que não precisa ser dito. Eu não verbalizava que te amava para que soubesses. Não, no meu mundo perfeito, não era necessário. Contudo, era.

Discutimos tão poucas vezes e até que houvesse de fato um desentendimento, tudo parecia sereno e compreensível. Até o dia que explodi, causei um caos e um abismo que outrora, veríamos que era irreparável já que era fruto de sementes tuas. Antes disso, houve noites em que dormi com teu cafuné, sentindo mansamente em mim tua mão de dedos longos e magros subindo e descendo meu pescoço.

Existiu também teu apartamento abarrotado de livros, de muitos livros e muita poeira. Teu cantinho era fascinação para todos os meus sentidos. O barulho da porta do banheiro emperrada me lembrava que tu estavas ali, ao meu redor, bem perto de onde eu estivesse. Porque zeloso era teu nome e eu acreditava que minha presença era tua alma. Minha existência era afirmação de tua continuidade, eu te afirmava.

Foram precisos muitos anos para que eu percebesse que não era nada disso e sentisse pena de ti sem que nascesse nenhum sentimento de compaixão. Já então eu me desgastava com o som da tua voz sempre tão gaguejada e pausada e complacente com uma vida triste, cheia de livros e com muita poeira.

Até hoje preciso resgatar qualquer coisa, em qualquer homem, como aquele amor que eu acreditava que me dedicavas. Eu não traio as expectativas de Freud. Jogo-me nos braços de pessoas erradas já que elas repetem elogios parecidos com os que me fazias e eu preciso deles (dos elogios). Enxovalhaste a mim e ao amor que eu tinha por ti, classificaste-me como escumalha e então eu soube, por meio das tuas letras e frases e rancor que eu nunca fui como querias que eu fosse ou como deveria ser.

Eu preciso que cuidem de mim sem que me sufoquem. Eu preciso também que digam que me amam e se eu ando numa de carência e ansiedade demasiada é porque não sabes avaliar que há amor acima de tudo. Eu sei. Eu que sou mais nova, que passei por cima do teu gênio difícil e dos maus humores, sei. Eu – a complicada, a adicta, a orgulhosa, a (sempre) errada – sei.

Ainda vou entender que é essa tua natureza. Mas enquanto não resolver isso comigo, tua ausência durante toda a minha vida e a parte de mim que é tua e tu desconheces, dói, pai.

Dói não ter um pai. Deveria doer mais em ti ser não ser esse pai.

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Voyeurismo social

21/01/2009 · 8 Comentários

Eu juro que ouvi.

5 neurônios

Avenida José Malcher, 8:30 h. Parada de ônibus. Duas senhoras conversam.

- Ela tem aquela coisa que dá depressão, convulsão, sabe?

- É mesmo? Ah, coitada…

- É. O “célebro” tem os cinco neurônio. Quando um dá defeito todos os outros falha.

Yakissoba

Avenida Visconde de Souza Franco, 13 h, Líder da Doca. Uma família prostrada, literalmente com cara de quem comeu e não gostou diante de uma bandeja vazia de sushi e uma garrafa de caldo de cana. O pai, a mãe e duas filhas.

Pai: – Tu e a tua mãe inventam de comer essas coisas…

Filha 1: – Eeeeeu? Não fui eu que escolhi. Foi ela, diz a menina apontando com a boca (coisas de paraense) para a mãe.

Filha 2: – Foi tu, sim.

Mãe: – Nãaaao. Ah, vocês me mandaram escolher. Eu não sabia qual era pra pegar.

Pai: – Já disse para vocês. Sushi bom mesmo é geralmente Califórnia ou Yakissoba. É um desses dois.

3D

Agência de publicidade, 11 h. Em Belém ( ! ).

Cliente: – Que programa é esse aí que tu usas?

Diretor de arte: – É Corel Draw.

Cliente: – É Corel, né? Eu sabia.

Diretor de arte: – É.

Cliente: – E vem cá, me diz uma coisa. Esse teu Corel aí faz 3 D?

Diretor de arte: – Não, amigo. Não faz.

→ 8 ComentáriosCategorias: Carol Barata
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