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Posts Tagged ‘mudanças’

Hoje eu levantei e a deixei lá, sentada no canto do quarto, como tem sido regularmente. Ela acorda comigo e me olha de soslaio, como quem pedisse para me fazer companhia no resto do meu dia. Mas atualmente, finjo que não a vejo.

0a4d6d7c72dd9fdc525cfacde8252ccecd874a64_mTomo meu banho ouvindo música alta. Saio sempre com pressa e nem sempre com um sorriso nos lábios. Enquanto ela acorda mal humorada e permanece assim o resto do dia, distribuindo coices e patadas a todos, sem muito critério. Mas eu tenho feito questão de deixá-la lá, bem trancada no quarto.

Ela buzina no meu ouvido dizendo que não é para eu comer muito porque o crescimento do meu manequim semi-obeso é tão proporcional quanto ao da inflação no Brasil. Aí eu dou a ela um foda-se bem alto, assim como o Banco Central dá aos brasileiros desesperados com medo de surtos econômicos. Ah, eu quero mais é me esbaldar em bife, arroz, feijão, bata frita e coca-cola. Peço para ela me deixar ser uma gordinha feliz.

Acho que ela se incomoda com o meu bem estar num modelito 42 ou com a minha falta de organização com a minha bolsa. Na verdade, ela se incomoda com todas as coisas pequenas e isso a cega para coisas grandiosas, entende? Ela fica de nhem-nhem-nhem atrás de mim dizendo: cuidado com a balança, com a moda, com a chuva, com o cabelo desgrenhado, com as sardas, com o palavreado, com a aparência. Pois ela me enche tanto, mas tanto, que simplesmente tenho que ceder.

Entro em paranóia e fico me analisando em frente ao espelho: a pele não é como eu queria, mas dá pro gasto. Nada que um corretivo não resolva. A silhueta não é mais a mesma? Negativo! As roupas é que ficaram pequenas. Nada que roupas novas não resolvam. Então, repito o ritual matutino: vou tomar O Banho escutando música mais alta ainda e grito, berro e desespero a pobre menina paranóica no canto do meu quarto.

Aí, ela se arrepende amargamente porque saio mais revigorada do que nunca, a fim de pegar um cinema, uma chuva, ver um arco-íris, tomar água de coco. Sei lá, saio com todo gás e ela continua andando atrás de mim, sem saber o que falar, me lembrando que o ex-namorado me traiu com uma “amiga”, que tem muito mês para pouco salário, que eu preciso fazer uma hidratação nos cabelos, que já estou mais para os 30 anos do que para os 20, que fumar mata e por aí em diante…

Então, ela apela, com os olhos amargurados e cheios de lágrimas que não mais vai me avisar. Mas não consegue calar a boca. Ela pede para eu ficar em casa vendo e revendo fotos de outros tempos com ela, porque é só aquilo que ela gosta de fazer, remoer o passado. Deve ser por isso que ela sempre, mas sempre mesmo, tem dores de estômago, enxaquecas, crises de choro ou de consumismo. Acho que essa carência absurda a deixa sempre dodói e ela até gosta porque é um jeitinho que tem de conseguir mais atenção.

A insistência dela me dá um nó na garganta e eu cedo, não tem jeito. Eu sento e fico lá, remoendo cada lembrança que ela puxa do fundo do baú. Mas sabe qual é o problema? Eu, aos poucos, estou conseguindo enterrar meus fantasmas. Enquanto ela os desencava de túmulos profundos e quase os torna múmias vivas. Coitadinha… ela faz isso pensando que eu vou leva-las para passear junto comigo. No way, baby!

O que essa menina tola e mimada, com medo de tentar, de arriscar, não percebe é que eu mudei. Tive que mudar. Eu precisei enfiar o dedo na tomada uma, duas, dez vezes e tomar choques terapêuticos deveras chocantes para saber que precisava me mudar de mim. E me mudei. Deixei essa minha parte no canto, junto com as roupas que não me cabem mais, com os amores que não deram frutos, com as falsas amizades, com a velha vida.

Eu troquei de pele nessa nova estação, me adaptei ao meio assim como um réptil. Minha energia que antes era alimentada a pilhas, agora é abastecida pela energia solar. Saio de manhã respirando fundo e soltando o ar devagar. E vejo as coisas darem certo para mim mesmo quando tudo tende a piorar.

Precisei ouvir que tenho medo de ser feliz, quer dizer, tinha. Por isso que hoje, ao sair, deixo essa minha parte amargurada das antigas relações trancada no quarto, de castigo, ajoelhada no milho. Não tenho mais paciência para a tristeza, não tenho vaga para depressão. A solidão não me anima mais.

Enterrei meu passado e só volto a vê-lo no dia de finados. Levo a menina tola para passear nesse dia, devidamente munida com um bouquet de flores do campo. Rezo para que ela fique lá, com meus demônios e assombrações. Um dia ela me deixa de vez e enxerga o quanto eu sou feliz.

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Ela andava afoita pelo futuro. O presente não oferecia novidades, não a estimulava, nem com todas as mudanças dos últimos tempos: mudou do Sul para o Norte, mudou de faculdade, mudou o número do celular e naquele ímpeto de quem quer dar grandes reviravoltas, disse a si mesma que mudaria mais um pouco. Começou uma dieta, deixou o namorado e se jogou na vida bandida, decidiu a felicidade.

Mas aquela vontade de saber mais sobre o futuro a corroia. Porque era presa de alma. Não conseguia dar um passo a frente sem perguntar a dez mil pessoas antes o que deveria fazer e era inexoravelmente maniqueísta. Traçava seu plano maior se baseando no que os outros pensavam e no que era “certo”. E pelo andar da carruagem – porque naquela cabecinha de merda ainda existiam contos de fada com princesas da Disney, carruagens que chegavam à meia noite e amor eterno – tudo daria certo enquanto ela focasse seu viver na pseudo-certeza dos padrões pré-fabricados por outras pessoas.

Foi aí que decidiu cair no conto do vigário. Para saber algo (leia-se mentira ou sinônimos) sobre o futuro, pagava qualquer coisa. Foi num cara que jogava búzios e pagou R$50. E claro, de nada adiantou. Ela logo percebeu que uma criança de quatro anos de idade faria aquela leitura: quando os búzios caiam com a cavidade para cima, era “sim”. Quando era o inverso, a resposta era “não”. Ou seja, porra nenhuma sobre nada da merda de futuro que a aguardava. Depois de uma espera de horas a fio, saber que tudo que o cara mais fodasso no ramo da vidência em búzios conseguia ler sobre a sua vida era aquilo, deu mais raiva ainda.

Aí num impulso de extrema “inteligência”, daquelas inteligências de macaco amestrado para freak show, foi que chegou a Tia Maroca. Ah, que mal faria ir a ela? É apenas uma vidente-benzedeira. Nada demais por apenas R$25 a mais. Agora ia dar tudo certo.

Pensou várias vezes em ir embora, mas como esperar que alguém extremamente desesperado por saber se seu futuro será composto por uma grande paixão, um emprego multimilionário juntamente com um príncipe encantado que chegue num cavalo branco, seja sensato? Não há como.

Por isso, continuou remoendo seus sonhos impossíveis de hight society e esperou. Meia hora, uma hora inteira, uma hora e meia, duas horas … e finalmente, o fim da espera chegou depois de duas horas e meia de espera. Não tendo aproveitado nada de sua experiência anterior com o cara dos búzios, acreditou que aquela espera toda era um sinal de que a tal da Maroca era fogo na roupa, acertava tudo sobre tudo. Sentiu-se aliviada e pensou: “ – Agora vai.”

E foi. Só não sabia exatamente o que tinha sido. Ficou em dúvida se aquilo era piada ou pegadinha. Ela lavou a cara na pinga assim como a senhora carinhosamente ordenava – enquanto a chamava de “fia”. É tão mais aconchegante quando numa situação difícil, as mulheres deixam aflorar seu espírito maternal, não é mesmo?! – e ficou parada, tensa, enquanto a Tia Maroca baforava com vontade na sua cara e ao seu redor uma fétida fumaça de charuto de septuagésima categoria. A garota só pensava que logo, logo acabaria e brevemente aquela humilhação toda se pagaria. Ela saberia até quantos milhões teria na sua conta bancária conjunta com seu marido velho e multimilionário. Foi quando ouviu:

– Pronto, “fia”. Pode ir.
– Ir para onde?
– Ir… pode ir. Você já tá benzida e protegida, “fia”. São “vinte e cinco real” pra benzer, certo?
– Certo…

E para quem gostava sempre do certo, teve o que merecia. Pagou a grana e saiu de lá atrasada para a faculdade. No caminho, duas motos a perseguem e depois desse sarro que os orixás e oxalás tiraram com ela – ou ela mesma tirou consigo indo atrás do que vem a nós por seus próprios meios -, pensou que só podia ser assalto. Pisou fundo no acelerador e foi embora, furando o sinal que estava tão ou menos vermelho que sua cara de ódio da vidência e de si mesma.

Ela só não contava com que as motos fossem dois guardinhas de trânsito que a pediam para parar o carro. Foi nesse momento de “grande percepção” que resolveu fazer o que os ditos cujos pediam e pensou em rezar para alguém que inspirasse maior confiança do que búzios ou cachaça , mas não teve coragem.

Seria demais pedir a Nossa Senhora ou para alguma santa que a protegesse enquanto ainda estava impregnada com aquele odor de terreiro de macumba. Mesmo assim rezou: pediu com bastante veemência e resignação que, de alguma forma, os guardas de trânsito tivessem problemas de olfato e não sentissem a extravagante essência de caninha barata. Funcionou e bem melhor que seus neurônios, pelo jeito.

A partir daí, ela nunca mais procurou saber o que vai ter para o jantar ainda na hora do almoço. Decidiu pintar seu cabelo de outra cor e o cortou, temendo algum dia na vida ser reconhecida por qualquer pessoa que a tivesse encontrado no dia das tais missões adivinhatórias. Jogou fora as roupas que usou no fatídico dia e comprou um banho de ervas o qual disseram que é ótimo para tirar urucubaca de olho gordo. Como se pode ver, a menina operou grandessíssimas mudanças em sua vida.

Só não muda uma coisa: todo final de tarde, a bela garotinha de mais de vinte anos de idade se senta à janela na esperança de que apareça uma fada madrinha e a leve para fazer compras no shopping center mais “bombado” da cidade. Assim ela poderá jogar suas tranças e esperar seu príncipe encantado de idade avançada e um dote bem dotado resgata-la do caritó.

Ela senta à janela e espera… e continua esperando… pelo futuro.

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