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Archive for outubro \22\UTC 2008

…Amores impossíveis…

 

Por Pagu

Naquele dia, na sala 204, quando te vi eu sabia que nós iríamos muito além do que imaginávamos, mesmo sabendo que tu és quarenta anos mais velho. Eu tenho vinte, e pensei que nunca me interessaria por alguém da sua idade.

Só de te ouvir meu corpo todo treme, é teu olhar que já conhece a vida empiricamente e meninas do meu caráter. És homem, daqueles que só precisam estalar os dedos para levar qualquer mulher ao prazer absoluto. Encantei-me com a tua paixão pela arte, foi isso.

Eu adentrei no seu mundo, porque sempre te quis nos meus sonhos mais platônicos que apenas meus diários conheciam. Perguntei ao destino “Por que te conheci em tempos tão distantes?”, um desencontro amaldiçoado pelas nossas idades.

No entanto eu sou apenas a sua amante, e nada mais que isso. Um prazer de uma new generation que não tens com a tua mulher, sou a menina novinha em folha que te sacia. Sou a tua sorte, a tua garotinha.

-Fique comigo, para sempre.

-Não, nunca ficarei contigo para sempre.

-Mas você é a mulher que eu amo.

-Tu não me amas, tu me desejas. É diferente.

-Como sabes? Não sabes o que passa nesse coração de velho.

É por ser um coração de velho que eu sei muito bem o que se passa. E sei o que se passa no meu coração de garota também. Eu te desejo, mas não é eterno. Ele morrerá com o tempo. O desejo atingirá os orgasmos que eu desconhecia, mas assim como a tua pele vai ficando enrugada e desinteressante, meu desejo por ti vai a óbito.

Amarei apenas a tua alma, como amo o meu pai. E tu te culparás por algo que não tens culpa. Teus pensamentos ficarão mais teimosos, e teu olhar eternamente viciado. És um velho que me dá prazer, porém tens uma esposa que realmente te ama (lembre-se disso). Ela te conheceu jovem e te aceitará para sempre, como um fardo, com toda essa tua personalidade orgulhosa de si. Não serei eu a escolhida para  interromper a sua vida, trazer mais lágrimas que já derramei, porque eu não quero isso.

Sou uma canalha, libidinosa, e te seduzi como uma meretriz. Tudo o que eu queria: teus dedos de experiência e tua boca cortês. Agora eu me despeço de ti, sem um  sinal de culpa, e podes me amaldiçoar para o resto da sua vida, porque eu nunca mais voltarei para o senhor.

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“E deve-se também pensar que os filhos podem morrer. É preciso se preparar para isso, tentando deixar o mais claro possível o diálogo que temos com eles. A perda de um ser amado é tanto mais irreparável quanto menos fomos longe no diálogo com ele. Isso não se trata de preceitos ou valores morais, de ética. A lógica do amor não é lógica da moral. Trata-se de uma sabedoria do amor, e não de uma ética moralizadora ou de direitos humanos.” LUC  FERRY

Perdi um amigo, e ver o corpo dele no caixão não foi uma imagem que eu gostaria de ter visto. Mas quando olhei para o rosto dele, eu sorri, e lembrei que o Dan me fez gargalhar a maioria das vezes que eu estive ao lado dele. Quando eu estava triste, chorando pelo irmão do Dan, o qual foi meu primeiro namorado, o Dan falava “Deixa disso, sorria”, e contava uma piada para me alegrar.

Mas a realidade é que ele estava morto, e tive um pouco de raiva do destino. Um rapaz tão jovem, cheio de sonhos para realizar, simplesmente morreu porque o coração dele não agüentava mais a vida. A vida que o fez ser pai tão cedo, que o levou a trabalhar para dar comida ao filho. Mas o coração dele era jovem, ele sonhava como todo o jovem, e isso eu não consigo aceitar.

Há 10 anos, quando conheci o Dan,  ele representava para mim a formação da minha juventude, quando eu queria sonhar e não querer saber de coisas chatas de adulto. Eu, o irmão dele, o Dan e os nossos amigos. A maioria meninos, todos se reuniam depois do colégio lá na pracinha da Pedro Miranda.  A gente não gostava de internet, nem coisas de ir para encontros de internautas em shoppings, gostávamos era da rua e de reunir com os amigos. Jogávamos RPG na casa do Drezinho, e praticávamos esporte. O Dan não gostava de esporte, mas ele gostava de estar com a gente. É tão viva a memória dessa minha época, de quando a gente se metia na praça da república, cada um com a camisa de sua banda predileta, e íamos fazer roda de violão, o Dan tocava para gente. Todos querendo ser rebeldes e roqueiros.

Então escrevo para ti, se tivesses vivo, gostaria que tivesses lido esse meu texto. Mas acredito que a vida é muito mais, e que sentias isso. Então lembrei dos momentos especiais que tive quando convivi contigo. Da primeira vez que a gente se conheceu, foi naquela festa na tua casa que só tinha homem, o dia em que eu resolvi te admirar. Nós éramos bem mais jovens, e gostávamos de Nirvana. Você e seus amigos faziam a barulheira que irritava a mãe dos irmãos Alcântara, a tua mãe que te achava um rebelde sem causa, lembra? Ela é mãe, eu dizia. Eu lembro muito bem, parece que estou vendo você falar comigo. Então escolhi namorar o teu irmão, e você ser o meu cunhado. O único cunhado de verdade que eu tive.

Lembrei que eu odiava ouvir Gun´s Roses, e ainda mais quando tu resolvestes montar uma banda com o meu irmão para ensaiar no porão da Bernal do Couto, na minha casa. Mas eu ria toda vez que o Junior cantava e meu gato siames miava com ele. É, meu caro, o Axl devia ter treinado miados com gatos quando ele resolveu sair cantando por aí…Eu não gostava da voz do Axl, e ainda mais da voz do Junior. Tudo bem, era uma banda cover perfeita do Gun´s. E tudo isso veio na minha memória como um filme, ao ouvir “patience” no seu velório, com o Junior chorando no caixão. E com o forte abraço da sua mãe.

Eu sempre acreditei em ti, Daniel Jam. Acho que comecei a ouvir Pearl Jam por tua causa, tu eras um viciado no Veder, era  a tua droga. Quando foi isso? 1998? Minha memória para anos é péssima.  Vi um rapaz cabeludo, alto e sorridente, com uma camisa do Pearl Jam e uma guitarra, um rapaz cheio de sonhos, ali no corredor do colégio. Às vezes também usavas, mesmo com o calor dessa cidade, uma camisa de manga comprida preta por dentro e por fora uma camisa xadrez, como um grunge. Eu achava legal, e entrei também na tua onda de sonhar com a música, fui tua tiete até quando eu não gostava do Gun´s. Frequentei alguns shows só para apoiar você, ainda bem que era rock meu amigo!

Era tão bom ser da tua família, o outro irmão que eu amava. O Dudu com veia jornalística e você com o talento para a música e a vontade de ser uma estrela do rock. Os dois se completavam, a dupla que entrava em conflito, mas que era perfeita: cada um com um gênio forte.

Eu falava “Toca aí Dan”, e tu tocavas qualquer rock, fazia uma piada no meio, sorria para mim. Parece que estou ouvindo a sua voz e seu sorriso, é o que vai ficar pra sempre nas minhas boas lembranças. Os teus abraços de conselho quando eu chorava. Eu ainda não consegui cair na realidade, parece que estou sonhando, ou que estão contando uma piada sem graça. Queria ter vivido mais tempo ao seu lado, e tu estavas tão bonito e adulto desde a última vez que eu te vi. Mas tu morrestes, e bem ali vi teu corpo sendo velado pelos que te amam. Pensei que eu nunca ia chorar por alguém que só me fazia rir. Mas você pode ir em paz, pois todos os seus gestos vão ser lembrados pelos os que acreditavam nos seus sonhos, e sempre lembraremos que  davas valor a vida e a todos que tu amavas.

 

Os jovens nunca deviam morrer, Deus errou nisso quando criou a vida. Ainda mais se os filhos morrerem antes dos pais, isso dói demais. Porque a lógica seria os filhos enterrarem os pais. Mas a vida não tem muita lógica. Eu ainda não consegui aceitar com a minha razão essa realidade. Porém, penso que o sentido da vida é sempre amarmos os nossos amados, e sempre resolvermos nossos conflitos com os familiares. Penso que o pai que não perdoa o filho irá conviver com uma dor intensa para o resto da sua vida, se caso a prole venha a falecer antes dele, o mesmo acontece se for o contrário. É uma sabedoria para aqueles que não acreditam em algum preceito divino, penso que o rancor, orgulho, raiva, são sentimentos baixos e que devem ser eliminados enquanto se tem vida. Os nossos amados sempre devem ser homenageados vivos, com um gesto de carinho, com um gesto de respeito. Com uma demonstração de amor. Só assim talvez conseguiremos dar sentido às nossas vidas. E viver sem temores.

Moara Brasil

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….é uma merda, ainda mais quando tu nascestes com alma de rico e bolso de pobre.

1. O que é a queda da Bolsa de valores? Você não consegue compreender muito bem quando tem queda na Bolsa de Valores, afinal, seu bolso vive em queda, então essa crise não faz diferença na sua vida. Ora, sua crise é ad eternum. Conclusão: você sempre está preparado para qualquer crise. Crise amorosa, crise financeira, crise familiar. Pobre não tem psicólogo e nem faz psicanálise, isso é coisa de gente rica. Sofrer é de menos, sofrer faz parte.

2. Classe média tem que entender de moda. Você tem que ter paciência para se vestir, como griffe é coisa de rico, então optas por escolher roupa sem marca, entre milhões de roupas horrorosas de uma loja desconhecida do comércio. E se não achares uma roupa decente tens que compreender muito bem de moda econômica.  Seja o seu personal stylist! Faça milagres sem cair no ridículo, olhe para aquela saia abandonada e transforme-a num vestido com um cinto barato de 10 reais. Ou pegue a calça jeans velha e meta a tesoura, pronto, temos um short. Olhe para aquela camisa estampada e grande de Brechó e meta a tesoura. Pinte aquele scarpin abandonado para mostrar que é coisa nova, e dê uma olhada nas revistas Vogue algumas vezes. Tudo é moda hoje em dia meu caro, só não seja cafona. É nessa hora que você percebe que pode ter ou não um futuro com estilismo.

3. Tem que denunciar! Classe média (marromenos) sofre, ainda mais quando vem aquela empregadazinha de merda e te rouba aqueles 300 reais que foi economizado para pagar uma dívida da C&A, você começa a pensar em ser amigo do Serasa. Mas você também fode com a vida da ladrazinha, então a denuncia para a polícia. Pobre fudido que rouba de outro pobre fudido, é inadimissível meu caro! Não tem perdão.

4. Quem fode com a tua vida tem que se fuder também. E falando em C&A, ser pobre é se individar com a mesma, não caia nessa! Mas como você não tem grana, você pode reclamar. Claro, porque C&A foi feita para fuder com a vida de quem é pobre, com aqueles juros cara de pau de abusivos. Então você pensa “vou ser amigo é do Procon antes de ser do Serasa”, e você fode a vida da C&A. Para ser pobre tem que ter esperteza no sangue.

5. Tem que entender um pouco de culinária e ser saudável. Ser de classe média é não ser nem pobre e nem rico, é meio termo fudido, é aquele que tem que pagar os malditos impostos, pagar aluguel e conviver com parcelas infinitas. Então você economiza, classe média não pode comprar produtos sofisticados, semi-prontos, como lasanhas de microondas, hamburgues, etc, porque são caros. Então para ser feliz vá no google, é ótima ferramenta para o Classe média, lá ele acha de tudo, inclusive receitas culinárias fáceis. O Segredo é comprar o essencial de comida, lá no meio-a-meio, inventar, e ser bom de tempero. Pronto, você pode ser feliz. E deixar aquelas comidas cheias de gorduras trans, e apreciar uma ótima salada verdinha bem temperada.

6. Ser pobre não significa ser burro. Você sonha em viajar para Europa e não tem grana? Você não pode assistir peças teatrais, não pode ir para exposições artísticas, não pode pagar aquele curso sonhado, e quase não pode ter muitos livros, né? Procure então conhecer as coisas que você aprecia, vá no google e leia até blog, é bom, mas escolha bem. Youtube foi feito para salvar a vida do pobre, e para ele ter um gostinho em conhecer diversas coisas de vários países, mesmo que em vídeos amadores. Se informe de cursos gratuitos. Leia revistas e fique por dentro das atualidades, pelo menos você leu aquela resenha ou crítica de algum filme ou livro, e pode conversar em paz na mesa de um bar sem passar vergonha, com aqueles cults chatos e ricos.

7. Seja Saúde.Você é daquele tipo que paga uma academia e para de malhar justamente porque não consegue mais pagar as outras mensalidades? Então procure a academia mais barata perto da sua casa e convide um amigo para dar aquela força. Se a situação tá pegando, então vai correr na cidade e subir escada, compre uns pesinhos e pronto. Já pode ficar sarada e de repente sair na coluna society da sua cidade, ao lado de algum figura society gostoso, e quem sabe ele se apaixone por você e consigas ser rica e feliz para sempre.

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Ah, então escuta!

Por Selene Rilke

O filho da mãe me disse uma vez que eu não amo ninguém, só a mim mesma. Quem ele pensa que é para traçar a minha personalidade em tão poucos meses de convivência comigo? Ele não sabe de nada, porque eu nunca quis que ele soubesse, e ele não sabe que apesar desse meu jeito grosseiro de ser eu gosto muito dele. Tudo bem que ultimamente os meu sonhos estão muito sexuais, e que eu só penso em sexo quando penso nele. Mas porra, eu sou mulher e penso em sexo como qualquer pessoa normal e contemporânea.

Ele me disse que os papéis inverteram hoje em dia, que eu sou o homem e ele a mulher. Um gay mesmo! Eu ainda sou mulher, meu querido, mas a mulher precavida de tudo o que os homens já fizeram comigo.

Então vou te contar que eu já gostei de muitos caras e já deixei de ter amor próprio, isso mesmo! Escuta. Já chorei no banheiro, e queria morrer no chuveiro, e parecia que o mundo ia acabar, por que? Porque eu tinha levado o maior fora do universo que eu não queria ter levado, do cara que simplesmente disse que não ia conseguir me amar.

Escuta! Já tive um namorado que queria casar comigo e ter filhos, o problema que ele foi um desencontro na minha vida. Eu não queria isso! Eu amei esse cara, mas não aguentei o ciúme doentil que ele tinha por mim. E eu já amei um puto, isso mesmo! Amei um puto que tinha transado com metade da cidade, e eu amava-o assim mesmo, por ele ser canalha. Já me apaixonei por um adolescente que só sabia fazer sexo, e não conversava nada sobre arte, literatura e coisas afins.

Já gostei de cabeludos, daqueles nojentos que se acham um Jim Morrison e gostam de Poe e Nietszche, que tem transtorno bipolar e que amam o filme “A felicidade não se compra”, apesar de que  o filme é uma boa sim, só eles que eram problemáticos demais para mim!

Tentei amar os velhos, mas eles eram cheios de vícios. Me chamavam de pequena e que eu tinha que viver muita coisa na vida, eu não sabia de nada. E eu pensava “porra eles nunca tiveram a minha idade?”, e chutei os velhos, eles me cansavam. Quem sabe agora queira um.

Eu já amei muita gente, meu querido. Mais que você mesmo! E não me orgulho pela quantidade, mas pela patada que eu levei da maioria, que me fez tornar o que eu sou hoje: precavida meu bem! Você pediu para ouvir, e eu não queria contar.

Então pára de ciúme besta e deixa eu dançar com meus amigos, chega de paranóia e deixa eu ser livre como eu sempre fui, e não vai ser agora que eu vou largar tudo o que eu já sou acostumada a fazer há mais de dez anos por um amor que pode chutar a minha bunda na hora em que ele bem imaginar. Quer sair? Saia comigo, não quer? Então esfrie a cabeça e vá dormir meu querido. Eu tenho mais o que fazer.

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Por Moara Brasil

Eu tinha 84 anos, a minha vida havia se tornado a rotina mais repugnante que eu não tinha planejado. Todos os dias, sempre a mesma rotina. Acordava seis horas da manhã, mas não porque eu queria acordar, era porque não conseguia mais dormir como dormia antes, na época em que tinha vinte e pouco anos. Tomava meu café  com algumas bolachas de água e sal. E lia as notícias principais do jornal local, mas eu não tinha mais a vontade de saber de notícias da minha cidade. Assistia diariamente as mesmas novelas com os mesmos roteiros, depois de um tempo comecei a achar que a Globo havia caducado, tudo era sempre um dejavu. Eu poderia mudar aquela rotina, eu poderia ainda ter sonhos e ter projetos, mas eu morri sem saber que já estava morta.

Eu andava muito cansada, exausta, velha, irreconhecível. Um dia eu chorei como uma menina na frente do espelho, eu não me reconhecia naquele rosto cheio de rugas e tão diferente daquele de vinte e poucos anos. Eu não gostava de envelhecer,  era uma tortura! Se eu pudesse nem viveria aquela minha velhice medíocre.

Tudo o que eu tinha na vida era uma diabete e a solidão. Mas eu odiava a diabete e para me vingar comia chocolate escondido da minha filha, todas as noites, quando ela ia dormir.

A minha filha tentava cuidar de mim para eu não morrer, para eu viver mais um pouco ao lado dela. Eu tomava remédio controlado por ela. Mas eu estava amarga, eu não queria mais aquela vida, e nem queria dar trabalho para ela, então acelerava a chegada da minha morte física, porque a mental já estava sepultada.

O que uma velha como eu havia conseguido todos esses 84 anos? Nada. Nada de digno, nem para dar a filha que mais amo. A minha filha que pagava o aluguel da casa. Os livros, a estante, tudo era da minha filha.

Naquele domingo eu acordei, coloquei meu vestido e passei batom na minha boca. Me senti nova, tão nova que ao olhar no espelho do banheiro sorri como nunca mais havia sorrido. Meu coração palpitou. Lembrei do meu velho, quando a gente se conheceu no sítio do meu pai. Eu, com o vestido pink e ele com aquela calça xadrez, nós dançamos a noite toda e ficamos embriagados, e muito felizes. Mais uma vez meu coração palpitou. Eu chorava como uma moça boba.

Meu corpo todo doía, mas eu consegui andar até o sofá. De repente a minha filha apareceu e perguntou se eu estava bem. “Não, meu corpo todo dói”. Senti um formigamento estranho e um enjôo que me deixava fria. Doía muito e vomitei. Tudo ficou embaçado, a minha filha me sacodia desesperada e eu ouvia a voz dela bem longe, como eco, como um sonho, a dor já não mais existia. Eu me despedia daquela vida, bem ali, naquele sofá, num verão qualquer daquele domingo apático e chuvoso de julho.

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Por Anna Carla Ribeiro*

Ele tem o dom de passar a ponta o lápis na minha nuca esbranquiçada. Sempre percorre pouco menos de cinco centímetros, da esquerda para a direita. Passa por todos os fios do meu cabelo e depois volta pelo mesmo caminho, como quem faz caligrafia. Eu automaticamente paraliso. E me arrepio. E viro um gato domado. Mansa, mansa.
Vou começar do começo.
Foi a primeira vez que eu vi alguém de calça marrom fora do ensino médio. Ele se aproximou, disse que me amava com os olhos, e eu respondi com a sobrancelha direita levantada “Porque diabos tu tens uma calça marrom?”. Ele deve ter se achado bem interpretado, pois quase fez minha cintura perder dez centímetros com aquele abraço. Nenhuma palavra. Só o barulho dos estalos da minha coluna.
Durou pouco mais de dois minutos, tempo suficiente para tocar a saideira. Não pude ouvir. Minhas mãos o levaram para longe, meio metro, e meu rosto enrugado berrou incontrolavelmente.
_ Eu to cansada, sabia?! Você, sua calça marrom, chegam aqui do nada e acham o quê? Que vão conseguir algo mais do que beijinhos? Escute aqui, ô chocolate ambulante, não vou mais ser subestimada. Eu sou perita em práticas canalhas e ainda faço dependência em “Fuja dos Conquistadores Gratuitos”, sempre mais em conta do que os baratos.
Sorriu. Me mostrou toda a sua arcada dentária como se eu estivesse à procura de um canal. Tive vontade de depilar todos os pêlos do seu corpo com cera fria, incluindo aquele cabelo fininho e caído na testa. Foi quando ele tocou na minha franja. E eu virei estátua. Parei de pensar, de ouvir, de ter qualquer expressão. Minha sensibilidade se resumia aos leves toques do seu indicador, revezados com o polegar, da esquerda para a direita.
Foi aí que tudo se perdeu e se achou, simultaneamente. Achei a cura dos meus berros, das minhas dívidas, das minhas dúvidas. Que se dane o banco, o trânsito, a dor no peito, os conselheiros, as éticas, as experiências alheias e as minhas convivências frustradas. Que se foda os hinos, as cartomantes, as esmeraldas, os signos, os astros, a praia, a lua, os maias, incas e tupiniquins. Que se exploda até mesmo aquela calça marrom. Perdi a sanidade, a vontade própria, o controle. Vai, agora pode me levar. Para minha casa, para tua casa, para tua vida. Ou para marte, para o carro, para a padaria. Que diferença faz?
Ele me levou para casa, a minha. Sua pupila esquerda me contou que viajou recentemente para Budapeste e que estava à procura de novas melodias de blues. Nenhuma palavra. Minha pálpebra tentou, sem sucesso, me fazer ficar invisível. E ele ria. E eu tinha medo de chorar.
E entrou na minha vida como a bailarina entra no palco, tomando conta de todo o espetáculo. E me fez assistir de camarote a minha própria adestração. E mudou os meus assuntos, minhas pautas, meu jeito de andar pelas ruas. E não importa mais nem mesmo o inferno enquanto eu puder, no fim do dia, esquecer até mesmo de mim ao debruçar a minha cabeça nos seus joelhos. E então finalmente ele irá tocar levemente na minha nuca, da esquerda para a direita. E no final de cada show, eu levanto e bato palma.

* Texto publicado em janeiro de 2008

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Das pontas

Por Alice

“E se eu cortar o cabelo, talvez seja a solução do conflito
– cortar o cabelo é muito bom, pq a tristeza fica nas pontas”

Não sei de quem é a frase ou se é trecho de letra de alguma música de banda de rock alternativo que tem nome sem nexo, tipo “sapatos bicolores” ou “chove e não molha”. Não sei e nem quero saber. Mas vou tentar tirar das pontas dos cabelos a metade da tristeza que não estou sabendo exprimir. Vou passar um dia inteiro num salão folheando revistas que falam coisas fúteis sobre a vidas das celebridades somente para que a minha pareça um pouco mais ridícula e sem glamour.

Vou fazer planos no salão de beleza, mas não planos de verdade e mais coisas do tipo “farei 10 zilhões de hidratações de chocolate-açúcar-morango”. Vou tentar tirar a palidez da cara e as pontas “mortas” (como o cabelereiro fresco fala) para que a minha cara pareça só um poquinho mais viva que a  minha alma.

A dieta eu vou planejar para segunda-feira (sempre a próxima), a malhação ficará (sempre) para o mês que vem. Daí me organizarei para ler todos os livros que quero e ver todos os filmes da locadora que eu puder e isso eu farei, tenho certeza.

Vou polir o visual e o intelecto para que assim que as pontas se forem, nas primeiras tesouradas, eu sinta um poquinho de passado indo embora de mim e que as pessoas me olhem não como um ET que acho que sou e sim com um super-mega “puxa, como você está diferente”.

Eles não verão as mudanças que se passaram aqui dentro do meu peito, mas é… eu mudei tanto: de cabelo, de roupas, de amigos, de endereço, de cidade e foram tantas mudanças que fica até difícil reconectar. Entre idas e vindas de duas realidades disttintas mas tão interligadas entre si, eu me pergunto  se realmente estive nesses lugares … ou flutuei … terei eu passado em branco? Eu passei, fui e vim. Fui e voltei.

Agora é mais um recomeço. Cheguei com um mala apenas. Vou-me embora com uma mala e mais oito caixas. Cheguei com tantas dores mais e tão poucas viagens de barco. Vou-me embora um pouco curada e um pouco ferida dos cacos que sobraram de grandes brigas internas. Vou-me embora com muito mais fotografias na mente, imagens de vagalumes, “gringas’ sunday morning”, a chuva de folhas amarelas na ventania e a temporada da queda das flores amarelas do ipê em setembro. Sempre setembro. 

Eu vou recomeçar de novo, só que agora muito mais slow motion. Começando tudo com a paicência e a sapiência necessária para que assim perdure. Vou começar pelas pontas soltas que deixei.

Viver ainda é amar (ou não é?) e se o “love is a loosing game”, bem vou-me perdendo por aí. Amando mais a qualquer coisa que me traga a felicidade simples que ganhei aqui. “Um dia eu volto quem sabe…”

PS: Não tente fazer disso aqui uma forma de me conhecer. Eu te desconheço tanto quanto você não me conhece. Let it be, ok?

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