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Posts Tagged ‘Anna Carla’

Vida aos ex-namorados

Por Anna Carla Ribeiro

Tem certas coincidências que de tão fora da probabilidade parece que estavam no roteiro da história da minha vida, bem naquela parte que o filme precisa de um “up” pra chocar o espectador. De tão fora do lugar-comum, também parecem coisas do divino, dos cosmos, de todo o universo conspirando para fatos que não irão mudar em nada os rumos da história. Mas sem dúvida tornaram esta semana mais feliz.

Existem ainda certos momentos que combinam perfeitamente com esses fatos. Talvez pelos ventos de uma nova crise de TPM se aproximando, esta semana eu me senti sem a menor das graças. Estava naquela situação em que não me sentia tão bem assim, me olhava no espelho e constatava mais defeitos que qualidades, um pouco cansada, um pouco de saco cheio, um pouco me achando menos.

Isso é engraçado. Tem horas que estou nas nuvens e penso: “Caralho, eu sou fodassa! Tenho amigos fodassos, família fodassa, emprego fodasso. Vou almoçar naquele restaurante fodasso, com a minha calça preta nova fodassa, brindar à minha vida fodassa com meus primos fodassos”. Aí, de repente, a coisa inverte. “Lá vou eu com este cabelo de merda, ouvindo música nesta caixa de som estourada de merda, praquela entrevista chata de merda. Que merda! Pisei na merda”. Mais ou menos assim.

Vamos aos fatos. Estava eu, sem o menor sal, tentando dormir numa triste tarde de segunda-feira. Toca o celular. Número confidencial. “Deve ser do trabalho, alguma bronca de merda, porcaria”. Até tentaria explicar a minha reação se eu tivesse tido alguma. Era meu ex-namorado, o primeiro, o cara que me ensinou a namorar, que me aturou por dois longos anos e meio, quando eu ainda achava que namorar dois anos era tempo pra caramba. Eu era novinha, tinha acabado de fazer 17 anos. Fazia convênio e usava múltiplas pulseiras coloridas no braço. Fazia três anos que eu nem sequer tinha notícias dele.

Tem certas considerações que as pessoas nos dão que de tanta proporção duvidamos se merecemos. Disse que eu fui a primeira pessoa que ele ligou neste momento, um dos mais importantes da vida dele. Sabia o meu número celular de cor, depois de tanto tempo, e eu nem sequer lembrava que esse número era tão antigo assim. Terminamos brigados, passei um bom tempo querendo matar ele enforcado. Mas passou. Ele ligou pra saber de mim, se eu já tinha me formado, se estava trabalhando, feliz, como é que tava a minha mãe e o irmão. Riu das minhas respostas, agradeceu as minhas preocupações e disse que torcia muito por mim. Me deu vontade de chorar e de contar a ele que estava me sentindo tão mal. Fiquei calada. Ele disse novamente que torcia por mim, que eu era especial, um beijo e tchau.

Passaram-se alguns dias e eis que outro ex-namorado, também de longa data, só que bem mais recente, resolve me ligar. Não fiquei tão espantada assim porque temos uma relação amigável, nos falamos numa boa, nos emprestamos livros e de vez em quando eu preciso ligar pra ele pra perguntar qual é a senha do meu cartão de crédito. Ligou porque lembrou de uma antiga piada minha. Também queria me fazer inveja porque estava vendo o pôr-do-sol, que eu tanto gosto de apreciar, na beira do rio. Falou que tinham fatos que sempre faziam ele se lembrar de mim, coisas boas. Aproveitei para fazer uma nova roupagem da velha piada e então desligamos.

Agora estou aqui, com os pensamentos soltos, refletindo em como as coisas são. Ex-namorados sempre assustam. Eu sempre os preferi aleijados, mortos ou, no mínimo, plantando batatas no interior do Acre. Na época eles me pareciam enormes, monstros soltos pelas cidades que de tão perversos conseguiam me assassinar de mágoas só com um olhar. Eles me fizeram morrer várias vezes. Algumas de ódio, outras de lágrimas. Os dois já me afogaram em minhas próprias lágrimas. Já tive vontade de depilar todos os pêlos de ambos com cera fria – até mesmo os cabelos.

O que me deixou feliz foi saber que mesmo depois de tanta decepção, mágoa, brigas, e todas aquelas coisas angustiantes de um término de relacionamento longo, só ficaram as coisas boas. Eles, mesmo sem terem a menor idéia do que se passa no meu dia-a-dia, me deram a prova de que eu não sou tão mal assim. Posso ter errado, ter feito barraco, chorado demais, enchido o saco além do limite, mas eles me enxergam como algo positivo. Torcem por mim e me lembram com os dentes à mostra.

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Por Anna Carla Ribeiro

Geni não prestava. De jeito nenhum, maneira alguma, puta, ploc, vagabunda. Teve alguns longos namoros durante a vida. Entregou-se a todos. Doou casa, comida, dinheiro, preocupação, afeto, e por fim, ela mesma, e todas as suas qualidades. Mas ela nunca teve nada de bom, porque não prestava. Se os traiu? Não, foi o contrário, ganhou variadas espécies de palmeiras na cabeça. Mas ela merecia. Era muito doida, imagine só! Tinha dois empregos, sete freelas, uma pós, uma avó doente e ainda customizava umas roupinhas nas horas vagas. Inventava a desculpa esfarrapada de estar sobrecarregada para sair com seu grupo de amigos que igualmente não prestavam, falar besteiras, beber cerveja, dançar freneticamente e soltar umas gargalhadas. Vivia na rua, a sem vergonha!

É bem verdade que Geni não fazia mal a ninguém. Nunca enganou ou faltou o seu dever com qualquer coisa que fosse. Mas ela era metida a moderninha demais, quando ficava solteira achava que não devia nada a ninguém, era cheia de idéias próprias. Diz que era personalidade esse papo de seguir as suas vontades e o seu coração. Papo furado! Dá pra confiar em alguém assim? Que faz o que dá na telha? Que não liga pro que os outros falam? Que é capaz de mandar toda uma sociedade à merda só porque acredita fielmente nos seus ideais?! O que são as ideologias de uma pobre Geni perto de uma vasta sociedade?! Nada, veja bem. Não presta, essa guria.

Algumas vezes se apaixonou. Quando estava assim fingia virar santa, santa de merda! Deixava tudo o que estava fazendo para ver o ser amado. Parava de olhar pros lados, provavelmente pra fazer aquela capa, tenho certeza. E quando sofria uma desilusão, já que como ela não prestava, não era levada a sério, chorava baixinho, levantava a cabeça e engolia tantas falsas considerações. Calava a boca e ia embora, sem julgar, encher o saco ou sequer olhar pra trás. Dá pra confiar em mulher que não sabe olhar pra trás?! Não, não, mil vezes não!

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Eu amo Chester Cheetos

Por Anna Carla Ribeiro

O pai dela paquerou a minha mãe há 40 anos. A minha tia tem o pai dela como melhor amigo. Uma outra tia minha, mais voltada à boemia, adora beber com o dito cujo. Mesmo assim, nos conhecemos sozinhas, por uma dessas coincidências da vida que mais parecem estar escritas em algum lugar acima de nós.

A gente sempre conversa muito. Pela boca, pelos olhos, pelos polegares e por todos os gestos que involuntariamente costumamos fazer. Não é preciso explicar para a Carol o que eu odeio. Ela sabe, sempre sabe, mesmo quando eu tento disfarçar. Não tem jeito.

Primeiro tentamos ganhar a vida cantarolando “Aerosmith” pelas ruas de Belém. Fizemos sucesso no cemitério, estaríamos ricas se ela não tivesse tido uma crise de riso da cara do coveiro. “Tu pensa que é bonita, piveta?”, ele indagou irritadíssimo. E então fomos proibidas de mostrar nossos dotes por lá.

Aí resolvemos ter outras grandes idéias. Inventamos o programa de fitness “Fique Em Forma Na Madruga”, um ídolo patriarcal, a professora galinha, a lenda do carro esbandalhado e uma faca que corta tudo sem o menor esforço – até mesmo um prédio ou a alça viária.

Mais uma vez o sucesso voou de nossas mãos. Um dia, quando estávamos tomando suco de bolinhas e comendo miojo de tomate, depois de umas ‘buxudas’ de maça, seu irmão jogou todos os nossos projetos pela sacada para dar aos pobres. O sonho dele sempre foi ser japonês. Aí já viu, né?

Então tivemos que estudar juntas a vida toda para podermos sair do eterno castigo que nossos pais nos deram pela tamanha irreverência. Nos preparativos para a faculdade, nos empenhávamos nas provas. Provamos a pizza mista da Companhia Paulista e todos os dotes culinários da sua querida vovó. Além de experimentar, é claro, todos os compartimentos da casa na hora de tirar uma soneca.

Para o espanto de todos ao nosso redor, passamos juntas na faculdade. O que ninguém sabe é que só conseguimos êxito graças à nossa criatividade. Inventávamos músicas para gravar as matérias. “As Repúblicas Bálticas são, tchurururururururu…. Letônia, Estônia e Lituânia, dandandandannnn…”. O mundo é dos espertos, já dizia algum velho bem antes da gente nascer.

Depois de formadas, temos novas metas. Planejamos realizar a “Festa do Leopardo – Volume II” e já estamos nos preparativos para nos lançar na mídia. Isso mesmo. Carol entrará no Big Brother 2009 e depois seguirá carreira como cantora de pagodes antigos. Seu primeiro álbum será intitulado “Chester Bahia: A saga de uma pagodeira nostálgica”. Quanto a mim, estou treinando uns passos de hula dancers. Até o ano que vem devo estar no Hawaii.

Mesmo assim, sei que ainda nos encontraremos para novos planos, aventuras, fantasias, invenções, enxerimentos e coisa e tal. Ah, como eu te amo, Chester Cheetos.

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O fantasma

Por Anna Carla Ribeiro

Da primeira vez a gente nunca esquece. Naquela noite só conseguia ouvir o barulho da chuva e o sopro agudo do vento ao entrar pela fresta da janela. Era noite sem lua, sem estrela, sem cosmos, sem vida. São Pedro castigava o mundo pela sua pertinente preguiça de existir. E o mundo me castigava por essa contínua ânsia de nunca parar e querer sempre mais, mesmo quando até as formiguinhas do meu quarto adormecem.

Talvez por isso tu tenhas chegado, sem convite, mas com toda aquela costumeira expansão. Ouvi os passos largos e pesados do teu tênis velho e o balanço das antiguidades da mamãe pela tua falta de atenção. Por impulso, dei um pulo da cama e quase saí correndo encontrar tuas pegadas, se não fosse por um detalhe: estás morto e enterrado.

Não entendo porque teu fantasma veio procurar a mim, depois de tanto tempo defasado. Talvez queiras me assustar ou te vingar pelas blasfêmias e toda a minha ignorância e falta de paciência. Talvez queiras me contar um segredo, me dizer como é a vida fora da vida, ou simplesmente és solidário o suficiente pra me fazer companhia quando escuto a música que diz coisas tão profundas. Ou por não conseguir mais atingir a minha profundidade. Ou pelo ‘não’ e pela falta dele. Não sei, definitivamente.

Sei que me assustas. Vou procurar minha mãe no meio da noite pra dizer que tive um pesadelo. Mentira… Saio de casa no começo da semana porque tomei gosto pela rua. Mentira… A verdade é que eu tenho medo da tua presença, das tuas aparições noturnas, do teu cheiro que expande pelo quarto quando abro a janela. Tenho medo de não só ouvir tuas risadas e sentir a tua afundada na cama – sempre espaçosa – mas de um dia acabar te vendo por completo. Já pensou descobrir que teu fantasma é de verdade? Acabo rezando pra que realmente existas, já que a tua falsidade ideológica me faz virar uma louca em potencial com síndrome de sociopata.

Nem sempre com o tempo a gente se acostuma. De repente, teu fantasma grudou mais que meu prendedor de cabelo. Estavas comigo em cada curva, cada esquina, cada pedacinho de torta de ricota, cada piada, cada mentira, cada roupa nova. E eu sempre te reneguei, porque gosto é de coisa de verdade, que possa pegar, pôr, ver, ser. Tudo o que me soa como platônico é que nem tu, mortinho da silva!

Veja bem. Eu não entendo dos vivos, imagine dos mortos. Não sei como funcionam as aparições imateriais, os ectoplasmas, os perespíritos, a mediunidade, o céu e a terra. Nem compreendo a atração entre dois corpos, a química e a física. Sou leiga até em gravidade. A gravidade dos meus erros, dos meus acertos, das minhas decisões. Não sei, definitivamente.

E então fujo horas a fio pela estrada, fazendo curvas rápidas pra que te percas em uma delas e fiques cansado de me alcançar. Já bem longe, sinto que finalmente consegui te exorcizar. Talvez tenhamos mudado de vibração, sei lá. Caminho saltitante pela orla da praia e agradeço ao universo por sentir apenas o que é cientificamente comprovado: a chuva fininha, a areia molhada, a água salgada.

Tudo estaria perfeitamente primoroso se eu não resolvesse olhar pra trás. Vejo-te distraído, olhando pro nada, abrindo uma coca e brindando o horizonte.

Estás vivo, principalmente dentro de mim.

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Por Anna Carla Ribeiro

Hoje eu levantei com o braço esquerdo. Uma ótima maneira de começar o dia! Um clima de montanha e sonhos gostosos brutamente interrompidos pelo baque do meu corpo no chão. A única coisa que conseguiu se mover foi o braço esquerdo, num movimento de flexão, ótimo exercício para ser realizado às seis da manhã.

Tudo bem, tudo bem… Nem tudo o que começa mal acaba mal. Só porque eu sinto cólica, não quero falar com ninguém e pareço uma atropelada antes mesmo de ir trabalhar não significa que a vida seja uma verdadeira porcaria. Não mesmo! E as criancinhas da Etiópia? E os velhinhos da Malásia? E toda a população aidética da África? Eles sim têm do que reclamar!

E então vou tranquilamente ao trabalho. O estado de espírito brando permanece até eu descobrir que a merda do celular novinho que eu comprei desliga a todo o momento e isso faz com que o meu relógio sempre esteja atrasado. E eu, uma mera mula empacada metida a moderninha e fissurada pela era digital, entrego o meu horário a este pobre aparelho infeliz. E então eu fervo meu sangue em banho-maria e piso no acelerador como quem esmaga uma bagana de cigarro. É justamente nessa hora que a porra do tio do Corolla da minha frente resolve comprar a rua e pára no sinal verde. Na bendita hora que eu mudo de faixa, o corno velho broxa do Corsa resolve observar a bela paisagem de prédios pichados e anda de tal maneira que até um cachorro perneta consegue ultrapassá-lo.

Finalmente chego ao meu querido local de trabalho. É só fechar o carro, atravessar a rua e dar bom dia aos seguranças pra começar a praticar as minhas atividades. Mas… Pera lá! Como assim o carro não quer fechar? Como assim todas as vezes que eu travo esse carro idiota com o alarme ele fecha e abre sozinho? Como assim o carro não quer fechar nem na chave? Como assim, meu Deus? Depois de meia hora de tentativas frustradas e idéias interessantes como queimar o carro com álcool e fósforo só pra o mandar parar de ser viado, eu finalmente mando-o se foder e decido deixar ele aberto mesmo. E sendo um automóvel muito figura, é justamente nessa hora que ele resolve fechar.

Tudo bem, tudo bem… Só porque eu acordei caindo da cama, estou extremamente dolorida, meus ovários estão pulando de tanta emoção por estarem funcionando direito depois de três longos meses de ócio preguiçoso, odeio o mundo, cheguei atrasada no trabalho porque meu celular e o meu carro possuem vontades próprias e ainda peguei uma chuvinha filé até finalmente chegar à minha sala não significa que as coisas não possam melhorar. Não mesmo! Quem merece reclamar são os maranhenses desabrigados pelas enchentes!

O engraçado dos dias como este é que Murphy se diverte. Eu não tenho saco nem de ler histórias em quadrinhos e nem de ouvir piada, mas passo a manhã inteira escrevendo sobre nefrologia. Uma beleza! Descubro que precisarei fazer hora extra, minha barriga ronca e eu sou ainda mais insuportável com fome. Vou ao caixa eletrônico tirar um dinheirinho pra comprar qualquer coisa que seja considerada comestível e que evite a minha ‘monstrificação’. “Problemas na identificação no cartão”. Tentativa número dois. “Problemas na identificação no cartão”. Tentativa número 39. “Problemas na identificação no cartão”.

Respiro fundo, repito mil vezes o mantra de Dalai Lama: “Eu não vou chutar este caixa porque quem vai se foder é o meu pé”. Vou à minha agência, já que é aqui perto, saber o que diabos aconteceu se esse cartão é novinho e quase não sai da minha carteira. Alguns minutos depois, me deparo com um ambiente em construção, onde todos os aposentados da Região Metropolitana de Belém pretendem entrar no Guinness Book como a maior fila indiana já existente em toda a história mundial. Vão barrar o velório de Lênin, tenho certeza! Eles inspiram poeira enquanto suam debaixo do braço. Eu também. O mais legal é saber o resultado de mais de duas horas na fila: um número de telefone pra solicitar a segunda via do cartão de débito que terei que pagar porque, segundo a atendente, eu devo ter feito alguma coisa pra que a porcaria do cartão vagabundo desse banco escroto tenha se desmagnetizado. “Eu devo ter passado entre as suas pregas, querida”, penso rápido. Segundos depois me acho um monstro por construir frases deste tipo.

Volto ao trabalho, onde continuo fazendo as minhas missões. Preciso fazer uma matéria às 16h num hotel no centro da cidade. São 16h e eu me encontro na periferia. São 16h10 e eu já estou com a minha bolsa no ombro quando aparece um médico gentil para fazer um exame clínico, desses que a gente faz quando entra numa empresa. Eu tento me esquivar, mas não dá, sou a única funcionária que ainda não passei por este procedimento e, se eu for embora, isso vai dar bronca mais tarde. Tá, tudo bem. Vai, tira a pressão, tira o sangue, tira o meu tempo, que já nem tenho mais. O quê?! O que significa esses potinhos?! O senhor quer me dizer que eu terei que fazer as minhas necessidades fisiológicas mirando nessa circunferência de cinco centímetros até amanhã?! É piada? Que dia é hoje?! Prolongaram o primeiro de abril?!

Depois de um certo resmungo da minha parte, o simpático médico me solta essa: “Vai com fé, vais ficar craque na mira”. Anram, meu sonho sempre foi ser campeã mundial de mirar cu no potinho de exame de fezes!

Estou a caminho do hotel. Nervosa pelo atraso. Bocas nervosas que devoram uma barra inteira de chocolate. Chego lá, uma chatice. Essa mulher nem me olhou na hora da entrevista. Eu sento na última cadeira da última fila. Ninguém me vê aqui não?! Eu sou invisível por acaso? Vocês estão me ignorando? Isso tudo é de propósito pra me fazer chorar e ter crises existenciais, é isso?!

Livre, graças a Deus. Agora é só ir embora pra casa, me esconder na minha toca e nunca mais sair de lá. Mas… Eu me sinto tão inchada! Eu comi muito! A consciência pesa mais que a dor de cabeça. É melhor ir malhar… Não, hoje não! Hoje eu não parei! Não parei de comer, isso sim. Epa, quem é essa no espelho? Será a mulher melancia em seu maior estilo blonde blondor? Meu Deus, porque eu pareço um búfalo de calça jeans? Eu odeio a mulher melancia. E odeio os búfalos.

Um, dois, três. Um, dois, três. Eu até que gosto de fazer exercícios, mas odeio malhar a bunda. Odeio bundas. Não entendo porque elas são tão importantes. Mas já que estou aqui, faço esse esforço. Um, dois, três. Em cada “um” eu odeio a vida, em cada “dois” eu odeio o mundo, em cada “três” eu odeio todo o espaço sideral e quero explodir a cidade.

Volto pra casa com a consciência mais leve. Finalmente chegarei à minha toca e farei tudo o que sempre quis: nada. Jogarei-me na cama para não ver ninguém, não falar com ninguém, não ser ninguém. O melhor momento do dia! Eu sabia! Uma hora tudo iria ficar nos trinques. Um, dois, três. Três minutos se passaram, mas que puta dia tedioso! Que merda de vida sem graça… O ruim de não ter ninguém, não falar com ninguém e não ser ninguém é não ter porque, nem como, e muito menos pra quem reclamar. Implicar então, a minha especialidade, nem se fala… Quer saber do que mais?! Essa história de ficar coçando o saco me dá uma puta de uma ansiedade. E essa história de ficar ansiosa me dá uma puta de uma fome.

Mas eu não vou comer porque eu odeio a mulher melancia. Vou começar a seguir a minha meta do ano em que entrei na faculdade. Vou ler todas as notícias do jornal de cabo a rabo pra ser uma jornalista mais fodassa que o Zuenir Ventura. Um, dois, três. Três linhas da primeira matéria e… Que vontade de comer uma lasanha de frango! Porra pára de pensar besteira, garota! Concentra-te! Tá, as forças de segurança iraquianas libertaram 42 estudantes seqüestrados poucas horas antes por homens armados em Mossul e como é mesmo que se faz lasanha de frango?! Desisto de ser melhor que o Zuenir. A grande diferença entre nós dois é que eu leio as notícias do mundo pensando em lasanha de frango enquanto o Zuenir come lasanha de frango pensando nas notícias do mundo. Simples assim.

E só porque eu sou realmente uma piada, devoro o triplo de calorias que perdi na academia por conta de uma lasanha enóóórme de frango (com bacon e presunto). Mulher melancia em ação outra vez…

Mas… E os velhinhos do asilo?! E os sobreviventes do Iraque?! E os mutilados do Vietnã?! QUE VÃO TOMAR NO OLHO DO CUUUUUUUUUUUU, seus animais…

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Por Anna Carla Ribeiro*

Eles se encontraram na sala de reclamações de uma operadora de celular. Ele forçando a sua mais nova aquisição, os pés de galinha, através de expressões grosseiras. Ela aparentava ter bebido todas no dia anterior, ou no mínimo, estava com problemas de insônia. Depois das duas intermináveis horas de pura discussão é que os dois perceberam a presença um do outro.

Ela era só uma pré-adulta que chamava atenção pela altura e a silhueta fina, igual a dez milhões que ele já vira nas esquinas em que passava, pelo menos foi o que ele pensou nos primeiros momentos. Mas não, quando ela finalmente pareceu acordar e levantou os olhos, ele avistou algo inusitado. Aquelas sobrancelhas…

Ela, apesar da sonolência e mau humor, já admirava ele de longe. Sempre sentiu atração por homens um pouco mais velhos, quando tinham o cabelo na altura do ombro então…

De lá pra um cafezinho na padaria da esquina foi “num tapa”.

Ele era economista. Enchia a boca pra falar dos maiores problemas da economia do país, da gripe do frango, de políticas públicas e de Lula e Delúbio. Ela só sabia que Delúbio rimava com Danúbio, um rio que corta Budapeste (aprendeu através da sua última leitura, é sempre bom ler Chico Buarque…).

Ela estudava letras e fazia teatro. Falava de livros, cinema, música, yoga. Sabia recitar todos os poemas de Manuel Antônio Álvares de Azevedo, o seu preferido. Ele, coitado, só sabia que esse tal de Álvaro era meio tãn-tãn (pelo menos foi o que lhe contaram quando ainda estava no colégio).

Mais interessante impossível. A cada minuto os dois se impressionavam mais com tamanho entusiasmo. Os olhos brilhavam, as bocas tremiam, as covinhas do rosto faziam ginástica. Ah, aquelas sobrancelhas…

Começaram a namorar lá mesmo, na padaria capenga da esquina. Depois de um tempo, ele costumava dizer que aquele romance era o PIB da sua vida. Ela dizia que os dois juntos era de inspirar Quintana a fazer o melhor poema já escrito pela humanidade.

No dia do casamento, ela lhe deu de presente uma carta em prosa, ele retribuiu, dando a ela um planejamento de custos e benefícios para o financiamento da casa nova.

Era um câmbio de experiências mais interessante do que qualquer Vladmir Maiakowski. Através da divisão de renda deu pra fazer um pé de meia. Na cama, os seus corpos rimavam como versos brancos. Do tremendo esforço físico lucravam de prazer mais do que o Banco Internacional. E todos os dias aquela brasa fazia com que o mais meloso escrito de Shakespeare parecesse racional, era paixão com uma altíssima inflação.

Com o tempo, é claro, os cabelos grudados no box e as meias sujas em cima da cama fizeram com que algumas brigas aumentassem como os juros do país. Nada que um perdão vassalo não resolvesse. E mesmo nas dificuldades, eles nunca deixaram que aquele sentimento virasse déficit.

Ela sempre sussurrava no ouvido dele que aquele amor era mais belo do que todos os 8816 versos decassílabos de Camões. Ele costumava dizer que esse foi o melhor investimento já feito em vida.

Ah, aquelas sobrancelhas…

*Texto publicado em 19 de março de 2006.

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Por Anna Carla Ribeiro

Ela me disse “sim senhor”. Saiu por aquela porta com serenidade. Esperei cinco minutos contados no relógio e não ouvi o som. Nada do barulho de gasolina velha em contato com o motor que o seu carro fazia ao dobrar a minha esquina, nem o som estridente do meu interfone que acordava a casa inteira mais a do vizinho, muito menos o meu antigo toque de celular. Ela sempre voltava.

Eu morria de rir das fraquezas dela. Entrava no quarto feito um tufão, me olhava com os olhos de uma criança somaliana e me perguntava por quê. Fingia uma superioridade que ninguém, além de mim, duvidaria ser natural. Então, de pirraça, eu a atacava. Eu sabia que ela era a vítima. Mas também sabia que era eu o juiz.

Quando saía levava consigo todo o ar. O ambiente passava imediatamente a sofrer as conseqüências da baixa pressão atmosférica. Mas ela sempre voltava, estarrecida e envergonhada pelo fim do seu teatro. Me olhava pelo canto do ombro com olhos de artifício e me absolvia dos crimes que eu nunca pedia perdão.

Ela tinha aqueles olhos de quem precisa ver o mundo sempre fulgurante. Sempre, sabe? Sempre faiscantes, como se as cores e as formas do mundo fossem se apagar e por isso queimavam. E eu tentava transmitir a paz que aqueles olhos tentavam por si só decifrar.

Ela falava sobre o futuro, o nosso futuro, e transpirava a poeira. E planejava tantas viagens, mas tantas viagens, que seus olhos reluzentes viajavam sozinhos para a tal da outra dimensão. E eu achava graça dela, sempre tão linda para os meus olhos, e sempre tão distante para os olhos de outrem. Eu sabia. Os olhos dela flamejavam só pra mim, só pra mim. E por isso me sentia o último rei dos Noldor na Terra-média.

Sempre se rendiam aos meus desejos. Era vício químico, físico e incorpóreo, daqueles de fazer o estômago pensar mais que o cérebro. Tanto brilhavam que ofuscavam o meu próprio brilho. E me faziam sentir inveja dos desejos que me provocavam, das delícias que me proporcionavam. Roubavam-me do meu próprio espelho.

Foi então que eu olhei pros lados e dei aquele sorrisinho denunciador. Era uma graça. Precisava colecionar globos oculares porque estava cego de tanto egocentrismo. Mesquinharia. Esqueci que por debaixo dos olhos dela moravam medos, anseios, seios. Malandro é malandro, né? Eu a olhava, e mesmo cabisbaixa, ela trançava seus braços nos meus e retribuía o olhar.

De tanto procurar, a perdi. Não só os seus olhos, como os seus mimos antes de dormir, o seu jeito de menina ao me dar bom dia, a sua preocupação com a minha demora. Eu perdi. Perdi os olhos de uma mãe, irmã, melhor amiga. Perdi a melhor amante e as suas brincadeiras de dentro do carro. Perdi o enroscar dos meus pés com os dela naquelas noites de chuva. Perdi porque sou um embusteiro bem nascido.

E agora vejo os seus olhos refletindo a leveza de uma pena. Que pena! Cintilam pra todos, pra tudo e pro nada, como se estivesse apaixonada por qualquer reprodução visual. E eu sinto a falta dos nossos finais de tarde felizes, do caminho que percorremos juntos, das praias, das ruínas. Sinto necessidade do mau humor que ela fica quando bate a fome e da minha falta de sensibilidade que sempre a faziam chorar.

Como me dói ver sorrisos brandos e olhares indecifráveis olhando o seu diamante, a sua leveza, o seu sorriso antes mesmo de dar aquele seu sorriso, de tirar o chapéu. Me dói porque a perdi pro mundo, pra tudo e qualquer coisa que possa vir a acontecer. E me deu tanta azia quando finalmente seus olhos cansaram e me disseram “adeus”, que os meus começaram a brilhar. De lágrimas, meu caro, de lágrimas.

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