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Archive for agosto \12\UTC 2009

Por Selene RIlke

Hoje, aqui sentada na minha cama, ao lado de quatro pessoas dormindo no mesmo quarto que eu percebo que realmente se nada der certo aqui nessa SELVA DE PEDRA pelo menos ando aprendendo muitas coisas curiosas.

Descobri que sou uma chorona, ainda mais quando estou com tensão pré-menstrual. De repente começo a chorar que nem uma louca. Uma bipolar. Mudo de opinião fácil, quero desistir de tudo..,acho o mundo uma falta de vergonha tão grande para eu tolerar. Porém, tudo passa. E começo a sorrir de novo quando o namorado pede um beijo e um cafuné.

Descobri que eu sou tão chata e cara de cu com cãimbra quanto a minha querida mãe. Tudo o que eu odiava nela eu reproduzo em carne e osso aqui em São Paulo. Não tenho paciência com as pessoas pequenas. Não tenho paciência com nada, praticamente,  nem com ninguém. Tornei-me a figura da senhora baixinha e chata, que responde curta e grossa “Não enche!”, fazendo uma cara de reprovação para tudo. Cansei!

São Paulo me deixou um pouco mais caseira (por mais incrível que pareça!). Talvez seja a falta de grana, mas isso não é desculpa. Afinal, aqui tem muita coisa boa de graça. Uma delas é ouvir chorinho no Sesc em plena Avenida Paulista, avistando lá de cima todos os enormes prédios. Ou assistir Cordel do Fogo Encantado em Anhangabaú. Ou morar do lado da Augusta e com vários gays e gente da moda, sempre rola uns Vips para tudo.

A grande merda é que arrumei um namorado que mora na mesma república que eu, ou seja, minha vida agora é acordar ao lado dele, dormir ao lado dele sair também com ele. Nesse friozinho a preguiça aumenta mais ainda, é desculpa para eu não sair algumas vezes. Mas sempre rola uma saídinha, nem que seja só para andar pelos bares pé sujos da Augusta, que sempre tem uma boa música. 

Descobri que até sou organizada. Morar longe dos pais nos faz cobrar de nós mesmos uma organização para as coisas fluírem melhor.  Faço minhas compras com uma calculadora na mão, economizo sempre.  Descobri que algumas marcas baratas são melhores pro bolso do que as caras, e acaba sendo tudo a mesma sensação.

Se antes eu já cozinhava, aqui eu cozinho mais. E talvez até melhor, qualquer coisa posso abrir um restaurante por aqui mesmo com sabores exóticos da Amazônia…os paulistanos estão adorando todo o segredo dos meus temperos  (muito alho queridos!).

É, entre lágrimas e gargalhadas, a gente vai levando e se acostumando, nem tudo é tão difícil quanto parece.

flores5

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Sai Satanás!!

Por Moara Brasil

Histórias de Sampa 2, escrito em Março de 2009

Eu moro numa República aqui em São Paulo, bem perto do Paraíso da Avenida Paulista. Para quem não sabe…República é o mesmo que uma tentativa de convivência com pessoas de todas as espécies e cabelos, de raças e credos, de malucas a sonsas, em que cada um tem que repartir da mesma cozinha, geladeira, banheiro e correr o risco de seu Iogurte ser roubado da geladeira, ou seus temperos sumirem misteriosamente.

Aqui é normal ter alguns “barracos”, alguns egos não se bicam. Então acontecem sempre brigas por causa de fofocas e de pessoas cleptomaníacas, porque some tudo aqui… é incrivel.

Afinal, conviver com pessoas diferentes não é nada fácil. Ainda mais com culturas diferentes, sotaques variados, gente de tudo que é canto do Brasil e do mundo. Tem menina de Salvador, tem russa, carioca, tem alemão e alemã, paulista, crentes e viados. Que trabalham com tudo, a maioria é free la, são modelos e outros trabalham em shoppings…uns são produtores de moda, outros cabeleireiros. Acredito que devem ter profissionais do sexo por aqui também.

Logo quando cheguei neste lugar, senti uma energia um tanto pesada, estranha. Mas é porque muita gente já morou neste recinto.

O mais interessante de morar aqui é que a gente aprende a ser tolerante…mas existe algo curioso nessa Republica. Sempre vem uma “irmã” crente orar pelas pessoas desse lugar, a dona Selma (que administra aqui) acredita que só assim pode espantar os males desse abrigo.

A primeira vez que eu ouvi a tal da irmã foi num pesadelo. Sonhava que ela dizia “sai coisa ruim!Sai Satanás que pertuba essa casa! Vai embora! Deixe essas pessoas em paz!”  . Então eu acordei,  e vi que não era um pesadelo…era realidade, a irmã estava ali orando na frente da porta do meu quarto, na cozinha, para uma das pessoas da casa, que devia estar com o espírito carregado.

Eu tinha que trabalhar naquela hora, e fiquei meio assustada de ter que abrir a porta e dar de cara com paulistas crentes e fervorosos. Fiquei com medo e tive que encara-la nesse dia. Fui ao banheiro e chamei a atenção da irmã, ela sorriu para mim e orou alto para que toda a inveja se afastasse de mim…eu nem consegui olhar para a dita cuja, fui correndo para o banheiro, morrendo de medo.

Outro dia não teve jeito..não tive escapatória. A irmã estava de novo orando alto e gritando pela casa, pediram para que eu fosse conversar com ela. Eu disse que estava atrasada para o trabalho, que teria cinco minutos, eu não queria ter que passar por isso. Sabe Deus o que essa mulher podia falar para mim, ou confirmar que o demônio estava no meu pé, atrapalhando meu caminho….

Mas pensei, que mal me fará? Uma pessoa que quer o bem, não? Então fui lá, a mulher fez a oração, ficou falando que eu era abençoada. Perguntou de onde eu era, e confirmou que devia ser do Norte mesmo, com esses traços indígenas. Ela ainda repetiu que eu ia fazer uma viagem em breve, outra viagem irmã? Já não basta essa?

Morar em República tem seus pontos positivos, aprendemos a ser tolerantes e conhecemos muitas coisas boas, mas olha… eu não quero ser acordada de novo por um “Sai Satanás!”, que dessa vez quem vai sair sou eu…São Paulo e qualquer canto do mundo tem dessas coisas. A globo está perdendo tudo isso…

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