Feeds:
Posts
Comentários

Archive for the ‘Aimée’ Category

Não sou tanto

“Quem lhe disse que eu era
Riso sempre e nunca pranto?
Como se fosse a primavera
Não sou tanto
(…)

De que calada maneira
Você chega assim sorrindo
Como se fosse a primavera
Eu morrendo
Eu morrendo”

[  como se fosse a primavera – Pablo Milanés/Nicolas Guillén/Chico Buarque ]

É fácil colocar a culpa em você. Todos os meus amores mal resolvidos, todas as vezes que amei demais, as vezes que amei de menos, as crises de ciúme, os ímpetos de arrogância, os momentos que sobrepus minha opinião. É tudo culpa sua. Quem puxa aos seus não degenera. Entretanto eu teria que dizer que também és culpado por eu ter lido Feliz Ano Velho e até por eu gostar de ler. Eu ser é culpa sua, integralmente.1a5774b4ecf5127f27f15002ea085c7ec97e3c5e_m

Eu queria falar bonito e com classe, pois eu te via sempre tão desenvolto e cavalheiro, fumando um cigarro forte, tua postura me parecia tão bonita e transparecia uma segurança que poucas vezes na vida eu sentiria novamente. Era por isso que eu segurava tua mão forte e sentia medo de te perder.

Via em nós uma cumplicidade sem igual, definida a outros olhos como inabalável. Parecia que me entendias sem que eu precisasse falar e por isso, calei muito. Permaneci muda uma vida toda acreditando que há o que não precisa ser dito. Eu não verbalizava que te amava para que soubesses. Não, no meu mundo perfeito, não era necessário. Contudo, era.

Discutimos tão poucas vezes e até que houvesse de fato um desentendimento, tudo parecia sereno e compreensível. Até o dia que explodi, causei um caos e um abismo que outrora, veríamos que era irreparável já que era fruto de sementes tuas. Antes disso, houve noites em que dormi com teu cafuné, sentindo mansamente em mim tua mão de dedos longos e magros subindo e descendo meu pescoço.

Existiu também teu apartamento abarrotado de livros, de muitos livros e muita poeira. Teu cantinho era fascinação para todos os meus sentidos. O barulho da porta do banheiro emperrada me lembrava que tu estavas ali, ao meu redor, bem perto de onde eu estivesse. Porque zeloso era teu nome e eu acreditava que minha presença era tua alma. Minha existência era afirmação de tua continuidade, eu te afirmava.

Foram precisos muitos anos para que eu percebesse que não era nada disso e sentisse pena de ti sem que nascesse nenhum sentimento de compaixão. Já então eu me desgastava com o som da tua voz sempre tão gaguejada e pausada e complacente com uma vida triste, cheia de livros e com muita poeira.

Até hoje preciso resgatar qualquer coisa, em qualquer homem, como aquele amor que eu acreditava que me dedicavas. Eu não traio as expectativas de Freud. Jogo-me nos braços de pessoas erradas já que elas repetem elogios parecidos com os que me fazias e eu preciso deles (dos elogios). Enxovalhaste a mim e ao amor que eu tinha por ti, classificaste-me como escumalha e então eu soube, por meio das tuas letras e frases e rancor que eu nunca fui como querias que eu fosse ou como deveria ser.

Eu preciso que cuidem de mim sem que me sufoquem. Eu preciso também que digam que me amam e se eu ando numa de carência e ansiedade demasiada é porque não sabes avaliar que há amor acima de tudo. Eu sei. Eu que sou mais nova, que passei por cima do teu gênio difícil e dos maus humores, sei. Eu – a complicada, a adicta, a orgulhosa, a (sempre) errada – sei.

Ainda vou entender que é essa tua natureza. Mas enquanto não resolver isso comigo, tua ausência durante toda a minha vida e a parte de mim que é tua e tu desconheces, dói, pai.

Dói não ter um pai. Deveria doer mais em ti ser não ser esse pai.

Read Full Post »

msn_messenger_logoLuciana diz:

amiga, tu é a única pessoa com quem eu posso ter DR*… além da minha mãe, é claro

Luciana diz:

porque minhas chances com o sexo oposto estão ficando tão escassas que doem

Luciana diz:

hahahahaha

Luciana diz:

por falar nisso, o Jorge ligou dia 01

Luciana  diz:

não atendi

Luciana diz:

aí ele ligou de novo

Luciana diz:

aí eu não atendi

Luciana diz:

de novo

Luciana diz:

(Y)

Beth diz:

pq?

Beth diz:

pq?

Luciana diz:

quando a pedra apertar mais eu ligo e invento uma desculpa qq pra explicar o porquê  não atendi

Luciana diz:

tenho que criar vergonha na cara, ora merda

Luciana diz:

uma hora vou ter, né, amiga

Luciana diz:

ficar dando sem fins lucrativos

Luciana diz:

mamãe disse “Mas vc é tão bonita, Luciana” …

Luciana diz:

eu acreditei

Luciana diz:

por que ele não vê isso, porra?

Luciana diz:

sou gente boa pra caralho, inteligente, assalariada

Luciana diz:

com bom gosto musical

Luciana diz:

amiga dos amigos dele também

Luciana diz:

sou pra casar

Luciana diz:

e ele tem a sorte grande de me comer

Luciana diz:

sem que eu encha o saco, sem cobranças de nenhuma espécie

Luciana diz:

e ainda assim ele liga quando quer, some quando quer

Luciana diz:

ora, vá se foder

Beth diz:

huahuahuahuauauah é isso mesmo!!!

Beth diz:

vá se foder SOZINHO

Beth diz:

ora porra

Luciana diz:

exatamente

Luciana diz:

sozinho, no apartamento de solteiro dele, masturbando a si e a maravilhosa vida de solteiro

( …)

Beth diz:

é… sou esperta para amigas… o dedo podre é para homens…

Luciana diz:

então bate, bee

Beth diz:

bate!

E ainda tentam desvendar “os mistérios da alma feminina”. Certas coisa são mais óbvias que “ligue os pontos” para uma criança de quatro anos. É ou não é?

* Discutir relação

Read Full Post »

6749f89125582524b841bee17f4e7dada418ff9d_m

“O amor, ah, o amor: eu quero porque quero da vida”

Oswald de Andrade

 

 

Ouvir “eu te amo”. Dizer “eu te amo”. Falar “ou vai ou fica”. Ficar só. Chorar no escuro. Chorar por dentro, sem uma lágrima. Dormir ouvindo Chico. Contar estrelas na beira da praia. “One, two, three, floor” com tequila. Amnésia alcoólica. A dor de partir. A dor de ver partir. Saudades da infância. O sonho da escadaria e eu caindo, caindo. O sonho do carro desgovernado. A luxúria, ah, a luxúria. Tua mão me tocando em lugares públicos. A voz dele ao telefone, tão igual há tanto tempo. O nascer do sol numa beira de rio. O calor obsceno no carro e a terra avermelhada na lembrança. Aqueles óculos com lentes alaranjadas. Praia, areia fofa infiltrando-se pelos dedos dos pés a cada passo. A um passo desse tal paraíso de tantas cores. Lisergia num universo paralelo que só cruzava para nós. A chuva de folhas. A chuva com gotas grossas, doloridas na pele. Os pés calejados, a alma mais ainda. Traições, mentiras, promessas e partidas. Será que você sabe que construo diálogos e situações à distância? Acho que sou louca, ou tô pirando. Ah, falta-me fôlego para tanta luxúria. Banho de mar de topless. Gozar. Gozar a vida. Gozar dos outros. Gozar de si. Fazer amigos. Desfazer prejuízos. Reconstruir. Fazer aniversário. Não ver sentido em viver. Acordar querendo dormir ainda. Dormir. Dormir mais. Comer. Comer muito, compulsivamente. Sofrer sorrindo. Ménage a trois. Beijar aquela boca. Ah, que bocas, que olhos, quantas pernas. Os raios solares incomodando. Óculos escuros para disfarçar olhar de quem tem a alma iluminada existem? Músicas novas, novas sensações. Novas pessoas. Pessoas antigas renovadas. Sofrer, ah como dói no peito sofrer. Amar. Existe amar demais e amar de menos? É possível voltar atrás depois de dito “eu te amo”? É… eu descobri que é, porque deixei de amá-lo. Ou nunca amei. Sei lá. Deve ter doído. Cantar Beatles em cima da mesa. Sentir o vento frio na cara, cortante. Ligar de madrugada. Ficar na vontade, no desejo, na lembrança. Ler. Reler. Nascer. Morrer só um pouquinho todo dia até morrer um montão de uma vez só. E por isso renascer a cada queda e nascer puro a cada encanto. Reviver. Esquecer, apagar ou rabiscar. Tanto faz, o importante é deixar para trás. Recortar e colorir. Cheirar cada parte do teu corpo e lembrar-se de ti enfiando a cara no meu travesseiro e respirando forte. Insegurança no café da manhã e arrogância no jantar. Duas gotas de coragem no café preto e um cigarro forte para inspirar. Respirar fundo e ter plena consciência de que não importa o que a aconteça. O normal é que acontecerá tudo de novo, se Deus quiser.

Read Full Post »

Fake

97ce31b712395ba484c7540554b6bbcbea9e2f74_m<

Eu sei que tem uma razão que me explique de forma sensata – razão, cadê você? – porque quis e quero te conhecer melhor. Eu nem sei de que buraco saíste, ora. Contudo, todavia, porém, entretanto – eu e meu vocabulário rebuscado – é engraçado imaginar todos os jeitos e trejeitos das piadas que fazes nessas sempre poucas horas de mensagens instantâneas e ignorar tua procedência.

Confabulo mil vezes sobre como vai ser, quando vai ser e como vais ser. Sem essa imagem estática e sorriso congelado de foto. Não! Quero movimento. Quero que vejas o quanto gesticulo enquanto falo e quero simular ao vivo, assim, com todas as cores da minha cara pálida, o sorrisinho canalha que dei para os links sobre notícias como o inglês carente que traçou um cavalo ou a lista das 10 bebidas que tornam as mulheres mais fáceis.

Isso tudo é muito fake mesmo. É falso sentir saudade de quem não se conhece e é falso entrar numa livraria e ter vontade de comprar um livro… para quem não se conhece. É tudo extremamente fake. Sabe Deus se eu mesmo não sou forjada.

Eu vivo nessa minha bolha assim imperturbável, só deixo entrar quem eu quero. Acostumei-me a escrever cartas longas para ninguém, ir embora da vida dos outros sem me despedir, entrar sem ser convidada, falar sem ser requisitada e dar a cara à tapa. O mundo real só me pertence ás vezes. Eu devo ser um personagem de algum filme B.

Ainda sonho muito. Não desses sonhos bobos com cavalos brancos e sapatinhos de cristal. Eu sonho com viagens, com pessoas diferentes, com um milhão de lugares inusitados e os livros que quero ler. Sonho demais com a vida que eu quero ter, com as pessoas que quero ter por perto de mim. Acréscimos sempre.

E esse lance de ter pessoas legais por perto, eu mesma construo. Eu trago para meu lado quem eu quero e expulso personas non gratas, sem rodeios. Atendo a todas as minhas vontades porque acho que estou ficando velha para ter tantos pudores e sou muito nova para me privar de atender aos meus impulsos positivos. É só isso. É feio ser infeliz e limitada.

Eu escrevo muito e digo que sou prolixa para descrever isso. Eu adoro Xico Sá e o portunhol tosco dele que me disse que todo amor começa no paraíso e termina na Consolação. Eu acredito que podem existir homens legais e que meu filho fará parte desse hall, porque ele já é da nova geração de crias de mulheres bem resolvidas. Sim, eu me considero muito bem resolvida, obrigada. Eu ainda acredito nas pessoas.

Eu não minto minha idade, meu nome, meu estado civil e nem minto pro Imposto de Renda. Eu gosto de cheiro de roupa nova, de chuva e de gasolina. É, eu sou estranha. Eu estranho pessoas que falam durante os filmes e adoro Nescau gelado. Eu sou cheia de sardas no colo, nos ombros e tenho umas saboneteiras tão fundas as quais seriam um deleite para Vinícius de Moraes que dizia que mulher mesmo tinha que ser assim que nem eu, com ossos salientes.

Eu devo ser fake por te dar tantas informações assim, de uma vez só. Eu só posso mesmo é ser fake por entregar-te tanto assim, quase à toa, tanto de mim quando em outras situações foram necessárias muitas conversas e entrelinhas para saber uma coisinha de nada a meu respeito.

Mas vamos combinar que eu sei e tu sabes que essa distância é real e longa. Quilômetros e quilômetros de conversas inacabadas pelo fim do expediente. Isso sim a gente sabe que é verdadeiro. Então, aproveita que é invenção. Aproveita que não há paraísos e não haverá consolação. Haverá um dia alguns dias, quem sabe algum encontro, Augusta, um bar, algumas cervejas e só isso ou tudo isso.

Mas faz que nem eu: aproveita porque é bom, ou não é?

Read Full Post »

Mofado

Por Aimée

Sabe que eu tento não pensar em um milhão de sarcasmos e ironias, que eu amo por sinal, só para te explicar o que sinto agora de uma forma bem bonitinha e descolada que não seja humilhante ou que não me faça parecer essa bitch que você tá pintando por aí a meu respeito. Mas, “beibeeee”, não consigo. Juro.

Eu sinto vontade de rir, eu sinto vergonha de mim e eu imagino todas aquelas pessoas que eu me afastei rindo de mim pelas costa durante tempo que eu gastava contigo. E foi assim: um gasto. Tô gasta, tô bege, tô passada e ando por aí numas aventuras tão legais  que colorem a vida que… porraa… quero rir de ti e de mim, de nós dois juntos andando de mão dadas. É piada, só pode.

Fora o fato d’eu ser problemática e fora o fato d’eu ser completamente maluca e fora o fato d’eu ter surtos psicóticos, mon amour, não tô na prateleira de qualquer supermercado. Entendes isso? Eu fico me repetindo nessa função de te fazer compreender que eu quero muito que entendas o que digo, porque é exatamente o que sinto.

Quando digo que não estou na prateleira, não só quero dizer que não possuo código de barras, manual de instruções, bula ou posologia (quiçá contra-indicações). Eu tenho uma auto-estima que baixa de vez em quando ou de quando em vez e vejo o quanto você é que é o ass hole da história, porque você sabe disso e você usou disso o tempo todo para me manipular.  

Daí eu demorei a perceber que eu sou mais, mais, mais que isso; que não tenho vocação para fazer “capa” contigo, nem para precisar de relacionamentos “muletas”. Mais uma vez me preocupo se consegues sugar a compreensão que preciso que tenhas para que esta mensagem atinja a parte do cérebro onde devem ficar armazenadas as idéias sobre “vergonha de si mesmo”.

Hoje eu cheguei a uma conclusão, brilhante por sinal, que eu adoro o que sou, como sou e eu sou assim, exatamente feita sob medida para algo que seja super-plus-mega-master sublime. Resumindo: je suis habité.  Plenamente habité, com meus problemas que viram piadas.

Dói-me pensar que perdi tanto, tanto tempo com você. Dói-me também saber de ti por aí choramingando, de nhem-nhem-nhem com nossos amigos em comum para que todos pensem que eu sou aquela pessoinha má. Não sou. Você não está tendo sucesso na sua campanha.

O problema é o seguinte: entre trancos e barrancos – e olha só que conclusão mais mágica, mais sublime, mais fodástica que se deu agora, justamente agora – eu sou extremamente amada. Chega a ser surreal a forma como as coisas dão certo para mim e mais ainda como pessoas do bem, de bom coração, me querem bem por nada.

Agora eu preciso respirar, viajar, absorver (porque dá menos trabalho que abstrair, afinal, absorvendo sairá na urina) tudo que nos aconteceu e dar grandes risadas. Primeiramente as internas, sabe? Daquelas que a gente dá andando sozinho na rua, fumando o último cigarro do dia antes de dormir. Depois… ah, depois eu já esqueci tudo, no intervalo entre um cigarro e outro, eu já esqueci.

No mais, fique bem. Chegamos a ser morangos, doces e raros por essas bandas daqui, de clima tão quente quanto o inferno queimando em enxofre. Hoje, nosso morango mofou, não é? “Morangos mofados”. Morango e mofo.

Caio F. continua tendo razão: “Natural é as pessoas se encontrarem e se perderem”.

Read Full Post »

Louros e epitáfios

Por Aimée

Eu chorei porque abri meu e mail e lá estava a oferta de um curso de fotografia com o cara mais fodasso do pedaço, numa cidade diferente da que eu moro. Porra, passei tempos e tempos querendo fazer esse maldito curso, querendo saber se esse meu feeling para fotografia é só mais um clichê de mente alternativa ou se pode ser um talento. Eu chorei, então, porque agora que tenho dinheiro, não tenho como e, portanto, mais um plano enterrado com o epitáfio de “poderia ter sido talento”.

Saí para fumar um cigarro e fiquei lá, fumando sozinha entre um transeunte e outro, gente indo e vindo cheias de assuntos e problemas e eu estava lá, parada. Sem vontade de fazer nada, com o choro engatado na garganta porque eu tenho tanta pressa, mas tanta pressa, de tanta, mas tanta coisa, que não chego a lugar nenhum e assim, enterro planos de vida que ainda estão cheirando a leite, recém-nascidos, porque tenho medo de tentar até o final e frustrar o que levaria o epitáfio de “poderia ter sido a saída”.

Acabo chorando porque sinto saudades dos amigos, da minha cidade e suas chuvas intempestivas, da comidinha light da minha casa. É, até disso eu sinto falta. E esse choro não passa, não quer parar daí acabo tendo que me refugiar no banheiro para ver se encontro paz. Lembro da minha família, do quanto eu queria (e quero) colo de mãe, de avó, de avô, de pai. Eu queria ouvir de todos eles – a família de sangue e a por opção – o quanto eu sou muito legal, muito inteligente, muito bonita e tudo de bom aos montes. Mesmo sendo mentira, eu queria. Meu choro pede um pouco de mentiras sinceras porque essa música do Coldplay está me deixando mais para baixo ainda. Daí eu penso nas minhas mancadas, com eles e comigo mesma e penso que “enterrei” uma série de coisas boas e pessoas que poderiam ter realmente abrilhantado a minha vida, se eu sem querer não os tivesse enterrado com o epitáfio “poderia ter sido muito, muito mesmo”.

Daí eu lembro dele, de quando o conheci há um monte de anos atrás. Eu era boba, sonhadora, positiva e até romântica. E ele também era. Não tinha jeito. Éramos assim um para o outro. Viajamos para praia um milhão de vezes sem nem ter onde ficar só porque queríamos mesmo era aventura. Escrevi cartas e cartas e ele deixava bilhetes quando tinha que sair mais cedo do que a hora d’eu acordar. Eu tinha os dengos e ele os apelidos e tudo pouco importava, desde que fossemos uma coisa só, a nossa unidade sublime. Hoje, não consigo chorar por ele. Já passou. Enterrei-o com o epitáfio “foste meu grande amor. Poderias ter sido eterno.”

Logo agora que a vontade de chorar passou, essa anta histérica que trabalha comigo e pior, senta ao meu lado, não pára nunca de falar. Isso sim me dá vontade de chorar. Por que é tão absurdamente difícil às pessoas calar? Quero silêncio, porra. Quero sentar no computador e escrever o que eu estiver a fim. Quero cada um cuidando da sua vida. Quero não mais ter que fingir que um assunto que não me importa poooooorcaria nenhuma é super interessante. Quero um carinha para dormir abraçada sem que sexo seja obrigação. Quero amar profundamente, mas estou seca, amarga e cansada de enterrar minhas vontades para poder agradar os outros. Estou há anos e anos enterrando minhas vontades e o que sou com o epitáfio de “aqui jaz uma alma profunda que emergiu a superfície. Assim, faleceu superficialmente.”

Eu continuo pensando em quantas coisas mais vou enterrar: os livros que gostaria de ter lido e deixei pela metade, os amigos que pouco a pouco vou perdendo contato, os romances que deixei esvair por medo, as paisagens que perdi, as estrelas cadentes que passaram sem que eu fizesse sequer um pedido e a minha felicidade que tanto planejei e que era enfim, cheia de louros. Não de epitáfios

Read Full Post »

Mi casa, mi corazon

Por Aimée

Desculpa minha bagunça é que tem tempo que não deixo ninguém entrar na minha vida. Se eu soubesse que chegarias, eu arrumaria o quarto pelo menos. Trocaria esse lençol sujo de outras noites, mudaria as paredes de lugar e as pintaria de uma cor bem alegre que combinasse com a possibilidade de uma nova vida.

Se você quiser, saio para comprar uma coisinha qualquer para comermos em frente à tv ou na cama, aí a gente pode discutir um pouquinho sobre comida árabe ou japonesa e eu farei uma gracinha qualquer sobre você não saber comer com os “pauzinhos”. E vais dizer que tudo bem, que eu posso escolher e sujaremos o tapete da sala ou a colcha da cama com suas tentativas incansáveis de comer sushi.

Como toda mulher que se preze, não sei me arrumar em menos de uma hora. Melhor você usar o outro banheiro. Esse aqui está cheio dos meus cremes, óleos e perfumes – os quais espero que um dia estejam impregnados na tua pele, no teu travesseiro, nas tuas blusas e mais ainda na tua memória.

Faça o favor de não deixar sua cueca no box do banheiro. Já comprei um cesto para roupa suja, só para você. Nós faremos um trato sobre quem leva a roupa à lavanderia e quem pega. Daí começaremos a dividir não só a cama, mas as despesas, as tarefas e a rotina.

Separei para ti um espaço na minha vida, no meu coração e também no armário. Essas duas últimas gavetas do lado direito são suas. As primeiras são minhas. Os cabides vazios também são para você. Quero que tenhas teu espaço e não falo somente desse espaço físico que quero dividir. Quero que tenhas teu tempo, teus afazeres e tua liberdade para que assim, tenhamos muitas novidades para dividir ao fim do dia.

Na verdade, quero dividir tudo contigo – a casa e as contas. A cama e a vida – Mas multiplique-me. Faça-me perder essas manias individualistas. Apresenta-me mais livros, filmes, músicas, lugares e amigos. Só entre assim na minha vida, devorando todos meus sentidos, se for para somar.

Prometo que essa será a nossa casa, pode entrar. Fica à vontade. Vai ser aqui que recepcionaremos os nossos amigos, os meus e os teus. Nessa sala vão estar nossos livros e coisas nossas. E prometo também que se lavares a louça, eu cozinho e arrumo a mesa, sem problemas. Posso ser todas as mulheres de Chico Buarque para ti, posso fazer teu doce predileto com açúcar e com afeto.

Pareço uma felina, independente e dona do espaço. Uma clássica egoísta. Mas depois de tantos domingos na cama de bobeira e de cafuné descompromissado, verás que eu sou mesmo é um cão vira-lata, me rendo facilmente a quem me agrada e ao resto, eu me adapto. Eu rosno e até mordo de vez em quando, mas te ver dormindo me causa uma paz, uma vontade de ser dócil para sempre que, sei lá. Acho até que virei um poodle de madame. Quero andar em casa toda fofinha e cheirosa só para te agradar.

Venha como vier, mas venha. Preenche esse vazio e toma para ti o meu plano de ser feliz a dois. Entra aqui, na minha casa, na minha vida e em tudo que me cerca… e fica. Vem para ficar até quando quiseres e se assim for, até quando ambos quisermos.

Read Full Post »

Older Posts »