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Archive for julho \25\UTC 2008

Por Anna Carla Ribeiro

 

1)- Palhaço que é palhaço curte tortada na cara. Isso mesmo, sufoque o engraçadinho com um suculento doce tamanho família, para não ter erro. O sabor? Limão. É importante que este procedimento seja feito durante o verão, mais precisamente a céu aberto, ao meio-dia. Além de uma morte bastante idiota, ninguém vai conseguir parar de rir no enterro do cara, ou melhor, da cara de palhaço que ele já tem naturalmente, só que agora com um leve toque de estampa de girafa.

 

2)- A opção número dois é de eficácia 100% comprovada. Primeiramente, certifique-se de que você, garotinha juvenil, é mais estabanada que um chipanzé com fome numa loja de cristais. Sempre reprovou na brincadeira do cuspe? É campeã em destruição de retrovisor? Você nasceu para matar, bonita! No circo tem palhaço, tem, tem todo o dia. E não existe circo sem lançamento de facas, correto? Pegue aquele figurino super tendência que você viu o rapaz usando no carnaval de Vigia, quando ele resolveu mostrar quem realmente é e virou o clone da Rogéria. Não esqueça da meia arrastão. Toda a sua vida valerá este momento ao ver ele gritar como um rosquinha. Atire as facas chupando laranja.

 

3)- Circo, palhaço, animais. Tudo a ver. Não falo do cara, falo dos leões. Assim como a primeira opção, você também deve se inspirar no verão para cometer este assassinato. Sabe aquela tanga de bolinhas que você viu no comércio?! E aquela viseira super transada que você comprou para a sua titia-avó Zuleide? Como você não tinha pensado nisso antes, Mariazinha? O palhaço mais este super conjunto seria o último grito em Paris! Certeza!  Mas como Paris é longe e você tem pressa, jogue o cara para desfilar na arena dos leões. Como toque regional, se inspire nos veranista de Outeiro e dê leves pinceladas de blondor camomila nos pêlos do cheio de graça. Saia de lá cantando “O verão é dos loiros, neném, neném…”.

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O próprio

Por Anna Carla Ribeiro

Ela já não o esperava. Fora abandonada como uma noiva no altar, logo por ele, sempre a deixando de saco cheio com as suas idas e vindas intermináveis. E por mais que tentasse, era difícil viver sem ele. Felicidade, alegria, esperança, sorte. Já percebeu que todas essas palavras são femininas? Mas sem ele, o outro lado, o lado que talvez pudesse dar vida (também feminina) a todas essas feminidades, era difícil, bem difícil.

Mas ele chegou novamente em sua casa com a velocidade de quem precisa matar as saudades. Estava mais magro, ou melhor, menos pesado. Não lembrava nem por relapso ser o grande destruidor de todo o seu chão. Agora ele abria as janelas e ao invés de estraçalhá-las, deixava o sol entrar. Ria do seu medo de aceitar tal mudança, de construir uma nova casa, dessa vez mais iluminada e com a base mais firme. Ela o convidou para entrar, mais por educação que por vontade, e ficou parada vendo a audácia daquele que de diversas formas sempre entrava em sua vida, em sua casa, com todo aquele jeito tão espontâneo que chegava a incomodar.

“Agora vai ser diferente”. Ela teve uma vontade enorme de dar uma gargalhada daquelas macabras quando ele disse isso. Ora, pere lá, meu bem! Foram anos e anos de fatos estúpidos, dores desnecessárias, mágoas que brotaram por nada e foram embora por tudo. Tudo por ele. E elas, as mágoas, continuavam ali, surgindo, crescendo, desnecessárias e capazes de realizar fatos estúpidos. Agora chega, ela precisa descansar, entende? Ele sorriu e fez menção de acender um cigarro, para ela. Ele não fuma.

Aos poucos ele foi mostrando que precisava aparecer em sua vida para ajudá-la a compartilhar a experiência daquelas coisas banais do dia-a-dia. Precisava de uma forcinha para arrumar aquela gaveta cheia de tralha, um ombro para encostar o seu pescoço cansado e até mesmo um trouxa para ouvir os seus berros de raiva. Ele precisava estar com ela o tempo todo, na hora que ela calçasse o seu salto alto vermelho, no vapor da panela que ela preparou para o jantar, no caminho interminável e quente do seu carro até a repartição.

Sem entender, ela o deixou ficar. No começo ficava ali, no canto da sala, meio desconfiada, meio sem graça, vendo ele colocar uma música nova e dançar como se fosse retardado. Ela não queria pensar, só rezava para que, sei lá, de repente, ele tomasse jeito e dessa vez não saísse destruindo cama, quarto, varanda. Se fosse para ir embora, que a deixasse assim como entrou: pela porta dos fundos e leve como uma pluma.

Passaram-se semanas e eles já trocavam palavras soltas, às vezes até piada. Aos poucos foram conversando sobre o tempo – o que passou e o que está por vir – e foram, juntos, se conhecendo. Conseguiram se definir. Ontem foram juntos ao quintal e enterraram todas aquelas tralhas feias e cheias de lamúria que ela insistia em deixar penduradas na estante. Ela não precisava mais daquilo. Era outra, agora mais forte, mais leve e até mais bronzeada pelo sol. Quando ela o encontrou, do jeito certo, na hora certa, conseguia sorrir até mesmo sem motivos. Quando ela o encontrou, o amor, o próprio amor, o amor-próprio.

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Por Moara Brasil

Parece que só agora, apenas nesse exato momento, é que Daniela conseguiu entender todas as grandes mudanças que aconteceram na vida dela. As escolhas mais loucas que fizeram o seu destino ser assim. E ela começou a acreditar na vida, e não questiona mais as mudanças bruscas do destino, nem a dor na hora mais difícil. O vento passa e ela analisa o que ele transforma. Se hoje ela tem poucas manchas na pele, é porque ela escolheu passar protetor solar nos dias mais quentes. Se o cabelo dela está ressecado, é porque tintura no cabelo realmente prejudica.

Inúmeros homens passaram na vida de Daniela, mas ela conta nos dedos aqueles que ela escolheu para viver a paranóia da paixão. E os poucos que Daniela se apaixonou, todos a machucaram de tal maneira que refletiram no que ela é hoje em dia. Mulher desconfiada, na maioria das vezes, muito calada, e quase sem coração. Ela defende que a maioria dos homens não merece a beleza do amor de uma mulher, e veste essa camisa como uma proteção feminista. “Meu coração eu só dedico um pedacinho para os homens”.

Sim. A maioria não merece nem 1/4 da paixão de um coração feminino. E é por isso que os homens sentem tantas dificuldades de lidar com esses tipos de mulheres: as mulheres bem resolvidas. Assim ela acredita.

Daniela tornou-se forte. E a fortaleza dela não significa que tinha virado uma filha da puta, mas sim uma mulher livre e desencanada. Ela tem vários homens, mas nenhum homem a possui por inteiro. Quem sabe um dia alguém mereça todo o amor guardado nesse coração fechado…

Daniela aprendeu a se proteger dos vícios e cuidar de si mesmo. Lembrava o quanto não era bom acordar em quartos estranhos, e ter uma saúde difícil com aqueles cigarros, cheiro de álcool e amor desprotegido. Ela já tinha feito muita coisa errada…

Mas agora Daniela enxergava tudo melhor, tudo uma beleza. Desencantou-se com alguns conceitos de sentimentos, pegou a mochila, penteou o cabelo, pintou de loiro e seguiu seu rumo.

A felicidade já estava dentro dela, e ela resolveu trabalhar nisso. A vida começava a ter mais cores e a trilha sonora que ela tanto sonhara. Cada escolha tinha um sabor que Daniela apelidava. Se vestisse uma saia, ela ia ter sabor de menta, se escolhesse aquele bar, ele ia ter sabor de uvas.

Ela era uma fortaleza. E Daniela foi andando sem medo, com apenas um objetivo: de levar a felicidade ao mundo.

 

“Que beleza é saber seu nome
sua origem, seu passado e seu futuro.
Que beleza conhecer o desencanto
e ver tudo bem mais claro no escuro”

 (Tim maia)

 

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Por Selene Rilke

Ele tocou na minha pele molhada e pediu mais, como se fosse a primeira vez. Nos beijamos desesperados, como se aquele momento fosse o único de tantos outros que estariam por vir.

Nós somos assim, ele olha para mim me comendo, e eu me alimento desse olhar. Eu gozo até quando ele fala e sorrir para mim. Coisa de pele, mas também de espíritos, a gente se combina. Mas eu odeio esse jeito dele, de não me assumir. De ficar nessa, cheio de mistérios.

Ás vezes dá vontade de entrar na cabeça desse malandro para saber quais as pretensões dele. Quer apenas me comer? Está me cozinhando? Tem medo desse meu jeito? Me acha doida e por isso nem alimenta uma relação mais clara? Não sei. Ou acha que eu quero por acaso uma união estável? E também nem me esforço em perguntar, em cobrar, afinal, eu não posso cobrar nada.

Em tão poucos meses, em poucos momentos e encontros intensos sem compromisso estão fazendo eu ficar louca e viciada por ele. E esse merda nem é tão bonito, mas tem charme, tem dengo, tem um tchan que só vendo. Experimenta! Não, eu não quero que ninguém experimente!Ciúmes!

Então procurei me afastar, sumir da vida dele, encontrá-lo por acaso. Sem hora marcada, sem telefonemas, sem scraps por orkut, sem MSN. Seria tudo controlado pelo destino.

Mas o destino, esse sacana, só me coloca nas situações mais estranhas. Então eu o encontro, nem que seja andando de madrugada ao nada. Ou tomando um sorvete na esquina de casa. E é assim, nessa cidade consideravelmente grande e cheia de habitantes, eu o encontro em todas as baladas. Parece até piada, mas o destino faz isso. E a gente se olha, se come, se rasga, se lambe. Mas sem levar compromissos para casa.

E só depende de mim para colocar um fim nessa história. PALHAÇADA! Logo agora que ela está ficando apimentada?Que nada!

Então eu o encontro na praia, volto para a esquina de casa, e a gente se esbarra em mais uma noite safada. Lá vai eu me fazer de novo de babaca! Uma viciada sem compromissos, uma escrava desse destino desconhecido.

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Apaixonadíssima

Por vivi

Percebi que depois de todos esses anos, me apaixonei por alguém que nunca imaginaria que pudesse conseguir.

E como toda paixão, só consigo pensar nessa pessoa, nos amigos dela, viver os planos dela. Como é legal, mas dessa vez a pessoa não é do sexo oposto. Nem sou homossexual. A paixão é por mim, Euzinha da Silva.

Peço desculpa a todos que cruzaram o meu caminho nesse momento. Eu como toda boa apaixonada, não consigo ver nada além do meu ser amado. Quero apenas, satisfazer as minhas necessidades e de quem participa da minha vida. Amigos e família. Somente isso. Tento, me esforço, faço de conta que tá tudo normal, Vivi 2007 – a eterna e excelente apaixonada. Se jogava de cabeça, achava que ia casar e ter 17 filhos, e que sempre era o carinha certo.

Péééééén! Resposta errada. Relação errada. E lá se vai mais um desencontro.
A verdade é que, quesito paciência: ZERO! Quesito: Disponibilidade para encontros românticos: ZERO!

Eu quero meu poder de ir e vir. Decidir o que fazer da minha vida. Sair com os amigos, viajar, dançar até cansar, rir bem alto, usar mini saia, ter um grupo de amigos onde só eu sou a mulher do carro, convidar minhas queridas, Lora e Moara – Consultório Emocional LTDA, pra tomar aquela gelada de quarta (?), sem ter a preocupação de ter que ligar e avisar ninguém. Nem inventar as mais bem elaboradas desculpas. Não agüento mais DR’s, gente peloamordedeus, como é que eu conseguir fazer tudo isso um dia? Eu mudei tanto, sou tão diferente até mesmo pra mim, que me apaixonei.

Pois é Santo Antônio, agora não dá. Gastarei todo o meu dinheirinho que antes era investido em constantes presentinhos surpresa, com roupas super legais, livros, dvd’s, gente tudo pra miiiiiim… meu quartinho cheio de coisas legais pra gente usufruir…. Ai, quanta felicidade com essa minha nova paixão.

Chega me olho e me vejo mais bonita no espelho, não sei se por estar apaixonada ( e vocês sabem que paixão nos deixa cego) ou se por realmente estar mais bonita por conta da paixão. Hehehehe, difícil filosofar quando receptor e emissor são a mesma pessoa.

Enfim, não vou tentar dar testada em ponta de faca. Mesmo que meu vicio seja sempre construir relações, as vezes as mais bizarras possíveis, agora só quero eu. Decidi levar em frente os meus mais audaciosos planos, morar longe, investir na carreira que sonho. Arriscar ser tudo que lá dentro da minha fértil cabecinha sempre quis. Cortar de verdade o cordão umbilical, da cidade que me acolheu, da família que me ensinou a ter as maiores virtudes que admiro num ser humano. Dos amigos que nem consigo explicar o que são pra mim, por serem ao meu ver, fragmentos do meu próprio ser. Vou me arriscar por esse amor. E espero que esse seja eterno enquanto dure, porém não mais mortal, posto que é chama.

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Por Lora Cirino

-Hahahaha. Da outra útima vez tu disseste isso.
– É, só que da outra vez eu gostava de ti, agora não.

Uma noite extremamente mal dormida e bem vivida, combinação de ácaros do apartamento fechado, lembranças sem dor e uma força absurda de corpos se debatendo.

Ainda bem que o espaço era novo, isso fazia tudo ser diferente, tua nova casa me representava tua nova vida e me levava para longe de ti. Não existia mais a mesma música, a mesma porta que teimava em abrir, nem os cheiros dos lençóis, nem tínhamos que entrar na beira do pé. Agora éramos 32 anos mais adultos, o tempo era enorme, mas nada que termina como terminamos tem um ponto final de verdade. A tua nova tatuagem ficou bonita, adorei! Mas até isso te fazia diferente, até porque agora eu tinha que dormir do outro lado, para não te machucar e depois percebi que nem olhei a outra que eu tanto gostava. Pintaste meu amigo, mas continuas igual, não mudas teu repertório e isso nos faz rir.

-Tás com sede? Tás bem?
-Tô com sede, mas também tô com asma e tu?
– Tá gelando lá, vamos esperar. Eu sou muito burro, devia ter colocado antes. (falas pra dentro, como sempre)
– É. Tu és muito burro mesmo. hahahahaa. Tás com sono?
– Não. Passou.
– Então fica acordado comigo um pouco.

Teus planos eram outros, espero que dessa vez se concretizem, só pra eu poder te admirar também, além de todo o resto. Agora sem sofrimento, sem dor, ou melhor, com dor, de tanta força que a gente fez.

Me deste um susto porque de repente era aniversário e tu estavas igual a antes, aceitei o desafio e vi que não dava pra sair dele, nossas risadas, os teus braços, meu preferidos, as minhas pernas, tuas preferidas e as nossas lembranças, principalmente das manhãs “dredadas”, com cabelo de surfista e música.

Continuamos achando engraçado o jeito que a gente dança e age, porque parece que não passou nem um dia, apesar dos anos. E aquele fato de não falarmos nada é melhor ainda.

Te olho por um tempo, percebendo minha diferença no espelho e minha indiferença no coração. Não adianta, até agora ninguém te vence, continuas sendo o melhor, em tanto tempo. Pego minhas coisas e te deixo dormindo, sem necessidade de te acordar, nem dramas, nem nada. Agora eu já consigo te beijar sem te acordar . Sair, bater a porta sozinha, deixar a chave lá dentro, não te telefonar e com tudo isso, não sentir nenhuma dor.

É bom descobrir as modalidades que um amor pode alcançar.

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Por Moara Brasil
(Baseado em fatos reais contadas por moradores do Toulouse )

Aquele prédio na Pedreira sempre foi meio estranho…. Certa vez me contaram que naquele terreno existia um cemitério, e eu sei que isso parece papo furado, ou histórias de peixe grande. Eu mesma não acredito nem em Deus, quando mais em espíritos. Mas desde que construíram o Edifício Toulouse, diversos acontecimentos ruins e inexplicáveis começaram a acontecer.

Quando eu me mudei para o apartamento do Toulouse, eu havia comprado por um preço bem barato, e fiquei muito animada por isso. Mas assim que coloquei os pés naquele prédio, senti que a energia no meu apartamento não era muito boa. Não fiquei amiga nem dos meus vizinhos, sempre tive repulsa à vizinhos. No máximo eu dava uma “boa tarde” e um “boa noite”, e nada mais. Na minha cabeça, vizinho só serve para pedir colheres de açúcar.

O meu apartamento era pequeno, com apenas três quartos, um banheiro simples e uma sala retangular consideravelmente grande. O teto era baixo, o apartamento era todo pintado de branco e havia uma varanda simpática que dava para olhar todo o bairro ao redor, e a enorme periferia da Antonio Everdosa.

Acontece que eu morava só, e com três filhos. E fatos sinistros começaram a acontecer no meu apartamento. Uma vez, quando eu estava conversando com o meu colega Lucio, pelo telefone, ouvi a voz de um bebê chorando do outro lado da linha. E não foi só eu, o Lucio também ouvia. “Esse choro é da tua casa?”, perguntei aflita. E Lucio disse que não, ele pensava que era da minha residência. Coloquei no ouvido do meu marido para averiguar se ele ouvia, pois podia tratar-se de alguma interferência na linha, e o mais absurdo é que meu marido não ouvia nada. Só pude concluir que eu tinha alguma mediunidade e que o choro vinha do meu apartamento. Mas deixei passar adiante este fato.

Esse foi o primeiro fato bizarro, pois no dia seguinte acordei com estridentes barulhos de sapatos no andar de cima. Começou lá pelas seis e meia da manhã, e durou em torno de uma hora. No fim da tarde, lá pelas seis e meia, o barulho voltava. Tudo bem, imaginei que devia morar alguma mulher chata e estressada que adorava andar de salto alto pro lado e pro outro no apartamento de cima.

Já fazia uma semana, e os barulhos continuavam nos mesmos horários de sempre. Não era possível! Irritava até mesmo os meus filhos, que ouviam barulhos semelhantes aos de peteca rolando no chão.

Minha filha mais velha, de 9 anos, tinha uma amiga no apartamento do lado. Um belo dia, quando ela estava entrando em casa, vi a mãe da amiga dela. E não resisti em perguntar se a vizinha conhecia a os moradores do andar de cima. Dona Lindomar disse que morava apenas uma mulher, mas que não gostava da energia dela, e que até deixava a Bíblia aberta na sala porque dona Lindomar também não se sentia muito bem em morar no Toulouse, e que não via a hora de se mudar daquele lugar.

Ao lado do Toulouse estavam construindo outro prédio, e dona Lindomar havia me contado que a sua filha ouvia vozes estranhas nas madrugadas, vindas do prédio em construção ao lado, que só tinha cimento e tijolo. A filha de Lindomar já nem dormia mais sozinha no quarto.

Meses se passaram, e eu já estava até me acostumando com os barulhos “toc toc toc” atordoados vindos do apartamento de cima. Foi então que o meu filho caçula acordou um dia qualquer, de madrugada, perguntando quem era a moça que estava sentada passando maquiagem no rosto, na sala. Fui correndo ver do que se tratava, e não enxerguei absolutamente nada. Não tive outra escolha, no outro mês resolvi me mudar de apartamento, pois esses fatos já eram um pesadelo, e anunciei o aluguel no classificados.

O grande problema era se alguém iria alugar a minha residência, ouvir aqueles malditos barulhos e se incomodar com isso. O apartamento foi logo alugado, porém, semanas depois, a minha inquilina, a Jucilma, me ligou muito invocada:

-E impossível morar em seu apartamento! Eu não agüento mais a vizinha do andar de cima, já mandei reclamação para o sindico e não resolveram nada!

Então tomei uma decisão e fui até o Toulouse conhecer a tal vizinha barulhenta , nada impediu que eu fosse finalmente desvendar o mistério daqueles malditos barulhos. Acompanhada do porteiro, do síndico e da minha inquilina, apertamos a campainha do 602. Senti um odor de rosas que vinha do apartamento dela, e foi quando abriu a porta uma senhora, de cinqüenta e poucos anos. Ela tinha uma aparência muito abatida, e vestia uma roupa um pouco démodé, e para o meu espanto, ela estava de sapatilhas, e foi quando ela falou suavemente para nós:

-Olá, o que vocês desejam?
– Nós queríamos saber de onde vem o barulho que pertuba o meu apartamento.
-Barulho? Eu moro só. Como são esses barulhos?
– Senhora, barulhos de sandálias de salto alto. Um barulho que vem da sua sala.PERTUBADOR!

A Jucilma, muito revoltada, foi abrindo a porta e entrando no recinto. Mas para a surpresa de todos, a sala era toda de carpete. O que conclui que era IMPOSSÍVEL nós ouvirmos um barulho tão estridente como os que havíamos ouvido sempre.

A sala dela era toda cheia de fotos de uma garota muito bonita. Sem argumentos, pedimos desculpas e saímos de lá, todos muito atordoados. Em seguida, o porteiro Zé nos disse que a garota era a filha dela, que havia morrido de câncer há uns anos, e segundo os vizinhos, a mulher era muito próxima da filha, e a mesma não tinha se recuperado desse falecimento.

Ninguém nunca conseguiu morar no meu apartamento, um grande prejuízo que eu tive, até então, foi ter comprado esse maldito local no Toulouse. Soube, recentemente, que um morador do prédio havia se suicidado com um tiro na cabeça, e por motivos desconhecidos.

Nem meu pai conseguiu morar lá, ele teve que voltar para o sítio dele em Abaetetuba. Meu pai é médium, e as reclamações dele foram as mesmas de sempre: os barulhos vindos do andar de cima, do edifício do Toulouse. Alguém, por favor, quer morar por lá?

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