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Archive for the ‘Sofia Brunetta’ Category

  Por Sofia Brunetta

 

      Acordou de mau humor e resolveu chutar o  balde:  Falaria a verdade, escreveria em garrafas de vidro e soltaria para o mundo.Constatou que,em tempos ecologicamente corretos, seria um crime, e ela se veria rodeada de ecologicamente-chatos abraçando árvores. Pegaria mal.

      Resolveu começar um  e-mail e espalhar para o mundo. Lembrou do quanto é chato espalhar correntes e e-mails cheios de verdade e resolveu digitar e depois ver o que fazer de suas “anomalias sócio-educativas”, o termo que ela resolveu dar para seus arroubos de sinceridade.

      Resolveu começar com os “ porquês” e estender os comentários o quanto desejasse:

-Porque dizem que balé com deficientes físicos é legal se não existe nada mais macabro?

-Porque branco é branco e Preto não pode ser Preto, se cabe melhor nas piadas de Preto?

-Porque se o Seu Jorge ou o Caetano usam “ pretinha” fica carinhoso e se eu chamar minha empregada de “pretinha” vou para a cadeia?

-E por que tem gente que chama empregada de “secretária do lar?”

-Dondoca não pode ser Dona de Casa se for rica, mas dona de casa não pode ser dondoca se for pobre…por que?

-Por que o filme da moda vira piada na boca do povo?E nas letras de brega?E nas propagandas?

-Por que pseudo-intelectuais adoram lugares imundos e fedorentos?

-Por que todo mundo que gosta de se vestir bem e freqüentar bons lugares é considerado fútil por eles se a maioria dos pseudo- intelectuais gostariam de ser mais bonitos ou ricos também?

-Por que em academias só se fala de músculos?Fora aquele professor que se acha o máximo apesar de estar fora de forma ?

-Por que todo Gordo é “Gordinho” se quando ele comete um delito vira “ Gordo Safado?”

-Por que temos que achar todo bebê de colo ou filhos dos outros, sempre lindos? Já viram as crias da Carla Perez?

-Porque toda música com loura ou lourinha é sempre infinitamente pior que as que têm morenas como musas inspiradoras?

 -Por que toda mocinha é um saco? Quando são decididas elas vão para a prisão ou são justiceiras ou cangaceiras, nunca mulheres normais (?), como eu(?) e você(?).Por que?

-E por que as pessoas adoram ver crianças cantando se não há nada mais chato e elas sempre erram a letra?

-O mesmo para velhos;

-O mesmo para deficientes auditivos, gatos, cachorros. Só escapa a Kátia Cega ( faz de conta que ainda é cedo…)

-E por que agora as coisas têm que mudar de nome? Velho virou “ melhor idade”, por exemplo, e os aleijados, palavra muito mais sonora, têm que ser chamados de “portadores de necessidades especiais”

-Por que é feio dizer que dinheiro importa e que pegar alguém que tenha carro é muito melhor que dividir a roleta?

-Toda mulher se masturba apesar de negar veementemente.

-Sua mãe também é mulher, sorry.

-Por que inventaram que fios de ovos são comestíveis se não há nada mais fedorento? E cafona?

-Por que é feio bocejar?Ou rir alto?

-Por que os mocinhos são os mocinhos se os vilões são sempre mais gostosos/ atraentes/sedutores/engraçados/irônicos/ interessantes e ainda assim a mocinha apenas pode transar…ops, ser seduzida por eles, mas depois voltar parta o songa…mocinho…

-Por que as novelas reprisadas são sempre as mais recentes/piores?

-Por que o coroa garanhão pode ser amado e a garanhona é sempre a velha doida?

-Quem disse para a Suzana Vieira que ela ainda é atraente?

-Por que todo mundo amava a Dona Jura?

-E o Tonho da Lua?

-Por que ninguém oferece um Halls para a Ana Maria Braga? Não há uma fonoaudióloga na Globo?

-Por que todo Domingo tem que ter Faustão?E porque ele usa relógios de parede no pulso?A fonoaudióloga fugiu com a figurinista?

-Por que o Roberto Carlos faz o mesmo especial a mais de vinte anos e ninguém contesta?

-Por que colocam atores que cantam mal para formar duplas/grupos nas novelas e ainda por cima usam playback mal feito quando eles começam a ladainha?

-Por que as boates das novelas só têm meia dúzia de gatos pingados e ainda usam voáu na decoração?

-E todo mundo bebe suco em bares adolescentes?

-Por que os fumantes não têm mais o direito de fumar?

-Por que é antiético se envolver com colegas de trabalho gatinhos?

-E por que a mulher é que vai para a rua?

-E por que as pessoas repetem tanto os jargões? Voltemos a Dona Jura…

-Por que é proibido gostar de reality shows se todo mundo assiste?

-Por que as pessoas não falam palavrões em novelas se quando a novela acaba sempre soltamos um “Puta merda!” ?

-Por que as pessoas são tão ecologicamente corretas se em casa todo mundo está nem aí pros mananciais?

-Por que existem tantas regras para utilizar o “Porque, por que, porquê,  porquês”?

    Não conseguiu respostas, mas sentiu a alma mais leve. Postou este texto politicamente incorreto neste blog politicamente incorreto e espera os “coments” de vocês, leitores sinceros. E igualmente incorretos, incoerentes, maravilhosos.

 

 

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Reunião

     

 Por Sofia Brunetta

    

 

         Sempre foi uma mulher moderna. Muito do ar de arrogância que algumas pessoas sinalizavam vinha do fato de que no fundo ela sempre esteve sozinha. Para trabalhar, para ganhar a vida, para chorar, para reclamar: encontrava consigo mesma do outro lado, a imagem refletida enxugava as lágrimas e vida que segue. Era o lema, a verdade para ela. O restante vinha das aparências, de estar em evidência, mesmo nos dias em que, caneta  aparando as melenas, ela queria distância do mundo.Sempre esteve cercada de gente, desde a época em que a família barulhenta se reunia: era preciso gritar os direitos, as opiniões.Agora, por mais que deseje, ela não pode alterar o tom de voz. Não é de bom tom.

        A vida pessoal virara uma extensão da profissional dedicada: urgência, velocidade, praticidade- “Vamos conseguir! ( fator motivacional ao parceiro)”-“ Chegamos a um estágio em que nossos interesses não estão alinhados”( fim de namoro). Dia seguinte,  tudo dentro da conformidade, atendia aos telefonemas, sorria, respondia com o “Tudo bem, obrigada. Vamos aos resultados.”o usual.Um dia encontrou com ele. Já havia visto outras tantas vezes, lançou o sorriso com que sempre conquistou fornecedores e parceiros, ele retribuiu com uma piada descompromissada e ela devolveu uma risada sincera, desta vez. Conversaram muito mais que o habitual. Em tempos virtuais, ela lia e-mails e recebeu um dele: trabalho a fazer, preguiça, perguntou sobre ela, ninguém nunca queria saber de verdade. Resolveu responder sinceramente. Ele ligou pra saber mais. Surpresa maior, ele estava ali, a muitos quilômetros de distância, trazendo pra perto um mínimo de amizade. Ela resumiu muito, objetiva como sempre. Mas desligou outras vezes mais, e a medida que as conversas se prolongavam ela percebeu que- sim! Havia vida ali. Quando se encontraram, não havia agendamentos, aconteceu. Despida dos jogos de conquista, dos entraves que a sociedade cria e as mulheres obedecem, resignadas. Não importava. Ela estava onde queria estar. A salvo de suas considerações e colocações tão práticas. Expôs a verdade. Ele parecia ouvir.

      Dias depois, ela quis repetir, mas não a cama. Queria contar para ele o bem que havia feito, o quanto esteve a deriva de suas emoções antes dele e sim, se ele quisesse, ela estaria lá outras vezes.Contou de seu encontro com cachoeiras, tão particular e secreto e a forma como conseguiu relaxar dos prazos do trabalho, entrar na água, sentir o sol. Queria dividir com ele mais que os fluidos, falar de sua alma, contar estas experiências banais e o quanto isso podia ser divino, afinal. Ele havia passado por ela, ajudado com a mudança. Ela queria que ele se sentisse parte disso. Ficou evidente depois da conversa, que a experiência a ser repetida eram os lençóis, variações, nada além disso. Desligaram.

       Ela se sentiu só. Arrumou o penteado, sentiu os sapatos apertarem um pouco mais. Estava só, não havia novidade, não seria a primeira vez. Mas desta vez, estava sem defesa. Nenhum argumento lhe pareceu necessário. Chorou, desta vez mais alto, forte. Precisava expulsar ele de dentro. Do coração. Dos pensamentos.

Ali, refletida, sua amiga de todas as horas cobrava uma resposta: porque estava submetida a isso? Deixaria o descontrole tomar conta de sua vida que sempre seguiu alheia a existência dele? Enxugou o rosto, as idéias. Sentiu correr o sangue. Ele lhe devolvera as lágrimas. Era o melhor que poderia fazer por ela. Se Finito.

       Tempos depois, refeita, percebeu que estava mais bonita, serena. Encontrou com ele em uma de suas visitas a cidade. Ele não disfarçou a surpresa e tentou marcar um encontro, qualquer dia, qualquer data, pra cerveja ou um café. Agradeceu, com verdade. Seguiu em frente. Sozinha, ao encontro de sua melhor companhia. Ela.

 

 

        

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Conexão

Por Sofia Brunetta

 

“ E eu vi o mundo todo em cor e nesse mundo há você.”

                                                          (Vinícius de Moraes)

 

      Estavas como me acostumara a perceber: o dorso forte, estruturado, ombros altivos, camisa pólo verde escuro que eu sempre achei pessimista. Vestes para viagens a trabalho e sempre que te afastas do mundo que criei para nós- parte de minha natureza feminina- penso que talvez não regresses. Neste momento, crio um drama de nossa vida infeliz e as pessoas de nosso convívio se acostumariam a meus arroubos feministas quando de nossas brigas infantis.

     Não recordo de quando começamos, mas se fechar os olhos, sinto cheiro de café e alcaçuz. Nunca provei alcaçuz, respondo de pronto-alheia ao fato de que detestas que eu não te deixe falar- mas é o gosto do que me for conveniente. Me entregas o silêncio, de costas para os meus pensamentos. Continuo a leitura que iniciei a pouco mais de quinze minutos, quando recebi o sorriso galanteador do vendedor da livraria que visitei, uma de minhas tentativas de que percebas que estive ali a tão pouco tempo, que poderias sentir minha ausência repentina.

     Tuas sardas na nuca, o cabelo acertado a fio de navalha. Perfeito nos detalhes. O suficiente para garantias de uma vida de tédio e melancolia ao teu lado. Exclamaria minhas lamúrias tal como as cantoras dos boleros antigos, que acalantavam os sonhos das putas e pouco trazem à memória das damas imersas na sua solidão profissional. Moderna e blasé.

    De mim nada queres. Não me enxergas com olhares desconhecidos, curiosos, sacanas, do tipo que arrancaria roupas e gemidos, me fariam sentir viva, afinal. Me esforço um pouco mais, e consigo enxergar os contornos dos lóbulos,sapatos e meias com cores rigorosamente iguais, os dedos longos,acusando minha libido fora de tempo. O tempo, este inimigo dos grandes amores.

     Tomo fôlego e coragem, sigo em tua direção, num ímpeto de desobrigação do orgulho mínimo. Levantas, organizas tuas malas, as idéias. Partes. Sem que eu saiba o teu nome, sem vivermos os dissabores da nossa rotina. Que cores terão os teus olhos? Cinza de aeroporto, respondo intimamente, conformada. Trago à lembrança um verso solto de um daqueles boleros: “Partes sem que eu te deixe um beijo, foges do meu desejo de encontrar contigo para saber mais de mim.” Empoeirado e démodé. Doce como cheiro de alcaçuz. Apressado e lento. Ritmo perfeito para embalar as saudades do amor que não vivemos.

                            

    Na esteira, observo uma vez mais: barba por fazer, cabelos displicentes, típico de tua personalidade forte, passional. Partidas, chegadas, ruído de saudades, encontros e despedidas. Prenúncio do novo amor.

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Por Sofia Brunetta

Hoje escrevo pra te falar das minhas saudades. Das nossas conversas, que senti teu cheiro, assim, tão perto, que se estendesse a mão poderia jurar que te encontraria. Não sei que parte do teu corpo minha mão alcançaria, sendo eu tão pequena perto de ti, mas a saudade foi de encontrar contigo, qualquer que fosse a distância entre nós. Diminuiria.

Eu encontrei outras pessoas. È fato. Tive coragem, segui em frente. Foi maravilhoso. Não minto pra você, nunca menti. Mentira. Mas sempre tentei agir de forma a te proteger dos problemas, do teu ciúme, da desconfiança. Não venci a rotina. Ela, implacável, estava ali, de passagem, e escolheu o teu coração como morada. Porque não o meu? Não adianta perguntar, meu amor, meu menino. Tão inexperiente quando te encontrei. Toda a euforia que eu te causava e que tantas vezes pareceu bobagem, é parte das minhas lembranças mais doces. Do passado que não volta mais.

Tenho que te confessar: estes dias que passaram- tão lentos, que eu poderia enxergar os minutos no cinza escuro de fundo- desejei tanto o teu sofrimento, quis tanto que sentisses dor, a angústia de faltar um pedaço, a inanição. Sentirias o vazio e toda a sensação de não sentir mais nada. Desejei que seguisses em frente olhando pra trás, remoendo tuas mágoas, a aflição de não encontrar quem te entenda. Quem mais que eu saberá o que fazer com tua pressa? Quem sabe o teu ritmo, conhece os teus detalhes?A história da tua vida? Que argumentos outra pessoa vai usar quando a tua teimosia falar mais alto que a razão? Como vais te sentir quando ninguém te der razão? E as palavras que sempre procuras para depois que a raiva passar?

Hoje escrevo pra falar de mim. Mas podia ser de ti, já que a tanto tempo nossa história virou uma só. Eu penso, tu ages. Eu quero, executas. Eu repenso, tu voltas atrás. E assim seguíamos todo este tempo, sabendo tanto do outro que se lesses esta carta sem nome, saberias que falo de ti. De mim. Já não sei.Saberias que todas as coisas ruins passarão antes mesmo que meu coração se inunde com o ódio que toma conta dos pouco amados. Eu jamais deixaria, meu amor. Nunca agiste assim. Sou grata pelo imenso amor, companheirismo e as muitas vezes que me deste abrigo, apoio, amizade, histórias pra contar, um apelido ridículo, os teus segredos, um tijolinho pra construirmos o lar que sonhamos pra nós. Um dia.

A ti, meu amor, desejo sempre o melhor. E que o melhor seja eu.

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Por Sofia Pascolatto, guru espiritual, produtora de moda, analista de sistemas, comentarista esportiva, transformista e etecetra ltda.Solteira.

Estar solteiro significa se habituar a cumprir os rituais que envolvem o fato. Solteiros estão sempre caprichando no visual, freqüentando lugares com música alta, barulho e confusão. É fácil notá-los, andam em dupla, acompanhados de um amigo que também segura uma bebida na mão e olha para todos os lados. Dependendo da idade, o amigo já está começando a ficar calvo e você já tem uma barriguinha protuberante. Mulheres andam em bando, passeiam em trenzinho até o bar. As mais experientes se posicionam junto ao balcão e passam a noite com uma bebida na mão, para disfarçar a insegurança.À medida de seu desespero ou alegria por ter se livrado do traste, dançam freneticamente, balançando os cabelos recém pintados/quimicamente alterados de um lado para o outro.
Não existem regras para os jogos de sedução, mas algumas dicas podem ajudar a manter ou sair do caritó. Homens: evitem camisetinhas coladas, elas não caem bem nem em quem cultiva o corpo… regatas? Apenas para correr na academia.Você trabalha o dia inteiro e não vê a luz do sol há séculos. Seus braços não estão valendo o risco. Manga neles!
Para as mulheres, a regra é clara: pareça disponível, não desesperada: acredite, o seu futuro marido não vai se interessar em enxergar sua genitália embaixo da míni da balada. Tamancos? UUUUuui …Prefiro não comentar.
Você pode ser mentiroso com o chefe, sua mãe, os vizinhos, para a ,moça do telemarketing, mas fale a verdade pra você. Como isso nem sempre é fácil/possível, seguem alguns questionamentos extraídos do MANUQUISECA ( Manual dos Solteiros Economicamente Capazes de Aparecerem em público)
-Estou acima do peso?(Homens) Não pergunte para seus amigos.
-Estou mesmo acima do peso?(Mulheres) Não pergunte para suas amigas anoréxicas.
-Tenho mau hálito?( Homens) Pergunte aos amigos, mas garanta um chicletinho para depois da resposta.
-Devo parar de fumar?( Mulheres)Suas amigas nunca dirão, por isso camufle a pergunta/resposta e garanta o chicletinho.
-Usei camisinha? ( Homens) Pergunte ao seu pênis.
-Vou lembrar de tomar pílula do dia seguinte?( Mulheres) Pergunte à sua consciência.
-Eu sei dançar?(Homens) Não pergunte a menos que esteja com espírito esportivo para piadas a respeito de sua sexualidade.
-Estou por dentro dos passinhos pós década de oitenta?(Mulheres)Pergunte ao espelho e observe o entorno. Dica: nem sempre abrir a roda quer dizer que você esteja acertando.
-Pareço um idiota com esta roupa?(Homens)Pergunte a si mesmo antes de comprar baby looks.
-Pareço uma vagabunda?(Mulheres) Pergunte ao espelho, na dúvida, aumente o tamanho da saia e não misture sombra azul com batom vermelho. Só o Sinhozinho Malta saberia apreciar…
-Ela está me dando bola! Ela está me dando bola?(Homens) Pergunte para ela.
-Ele só quer me levar pra cama ou está interessado? (Mulheres)Só pergunte se tiver certeza que sua amiga também não está interessada e/ou amargurada demais para responder com imparcialidade.
-Este carro é meu?(Homens) Pergunte ao manobrista e chame um táxi. Mas não insista, nenhum dos dois saberá seu endereço.
-Quem é este cara?(Mulheres) Faça o mínimo de barulho possível e saia imediatamente sem perguntar nada.
-Me dá o seu telefone?(Homens) Não pergunte, você não vai ligar.
-Será que ele vai ligar?(Mulheres) Não pergunte, você já é uma mulher adulta.

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Três por quatro


Por Sofia Brunetta

Havia tempo que ela não experimentava a companhia das amigas. Estas, leais a ela qualquer que seja seu estado civil , físico ou emocional. Todas estavam diferentes: cabelos, maquiagem, e ela quase poderia prever as tristezas de cada uma, ali, disfarçadas embaixo das muitas camadas de rímel .O mesmo que a anos ela experimentou, gostou, indicou. Contou as pressas, entre uma piada e uma espiadinha no cardápio do bar vagabundo que escolheram para este momento tão íntimo. Único. Não houve lágrimas. Um ponto final com tudo dito, sem rancor, sem remorso. O tempo passou para eles e as amigas eram o bem vindo e necessário alento. À moda delas: Nada de choro, promessas, mentiras, carinhos e ombro amigo. Elas são vivas, vividas demais pra isso.

-Vamos para a praia? Quê?! Vamos!!!

Uma sucessão de imprevistos que não duraram mais que uma hora e meia, o suficiente para ela saber que estava entre amigas. Estavam todas ali, cantando freneticamente, falando palavrão. O carro lotado: três passageiras emocionantes e emocionadas com o acaso, a vida que elas estavam deixando pra trás, a paisagem mudando. Lembraram das outras, tão longe, tão presentes nas lembranças engraçadas de viagens, dos finais de semana sem nenhum dinheiro e cheios de risadas. A faculdade, quanto tanto tempo… sobraram tão poucos amigos na cidade. Os muitos amores e suas particularidades. O passado, a vida no colégio, cabelos, a estrada. Ignoraram os dias, meses em que não conversavam como antes. Foi como ontem.

– Vamos ouvir o quê?
-Quebra –mola? O que é isso? Ops, desculpa!
-Pequeno…Gigante…Nada demais… Tudo!!!!
-A quantos quilômetros?
-Aonde a gente vira?
-Sabes trocar pneus?
-Estou cheia de pneus.
-Não Grita amiga!
-Meus Deus! Lembra desta música?

Compraram o suficiente: gelico e gasolina. Para o tanque, que fique claro.
Fotos recentes. Há três anos o álbum antigo anunciava que a vida correu antes que ela pudesse falar de seu amor incondicional. Quantas farras teria perdido?”Estás com sono amiga?” Não queria dormir. Perder mais uma vez a cumplicidade. As novidades, o desfecho das histórias que deixou de ouvir. Passaria a vida inteira ali, na estrada sem fim, dos sonhos que ela compartilha a tantos anos com elas. Com as outras. Diferentes. Iguais.

Durante toda a viagem, percebeu que nunca teve jeito com as palavras, apesar de ganhar a vida falando bem da empresa para os outros. Tentou ficar bêbada e chorar. Angústia presa na garganta, desde que ela deixou pra trás a vida que construíra com tanta dificuldade.Tentou uma vez mais. Novo gole.Maracujá, graviola,cajá…fica bem com cupuaçu? O chefe. O ex. De que tamanho estará o Fernandinho?O novo pretendente um tanto displicente. O sol, a pele ruim, a gordura localizada, a Vodka quente. R$3,00?Cerpa Gold? A inflação, a Dona Ruth, coitada, as plásticas da Dona Marisa, a situação do país, os primos que partiram sem avisar. A reprise de Pantanal. Os quebra-molas. A idade chegando. O vôo dali a poucas horas. O cansaço, cheiro de aeroporto, barrinhas de cereal…. O retorno à rotina.

Uma lágrima à beira do mar. Sentiu-se despida. Havia o sol, o mar, a música de qualidade duvidosa cantada com a mesma alegria por solistas- vocalistas amalucados.Vazio? Elas ali. Tão amigas. Tantos anos. Tanta vida para trás. Os muitos momentos que elas ainda viverão: caminhos cheios de curvas perigosas, tortuosos. Fotos, risadas, mãos dadas.

Do espelho, o dia ficando vermelho… Novo álbum. Para a tristeza uma três por quatro sisuda, documentando os erros a corrigir… E a estrada, tão longa, parecia marcar novo encontro logo ali em frente.

Vamos amigas?

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Lascívia

Ora, as obras da carne são conhecidas e são: … Lascívia… (Gl 5:19)
Fazei, pois, morrer a vossa natureza terrena: …Paixão lasciva… (Cl 3)

Por Sofia Brunetta

O nome dela era Lascívia Maria, Lascívia para os muito íntimos. Pouquíssimos. A mãe biológica era uma ex-hippie, ex-presidiária, ex-amante de um senador coronel fornicador famoso no velho oeste brasileiro: o interior de Maceió, Marujeripe. Saiu vida a fora e deixou a pequenina para ser criada pela avó paterna, rígida feito vara verde, do tipo que não escorre leite jeito maneira. Ouviu de um forasteiro, que aliás, julgava ser o verdadeiro pai da criança- a despeito do que bradava o falecido político- o salmo supracitado entre os prazeres da carne e as conversas de cama. Um pouco por gostar do ritmo que o nome assumia ao ser dito e muito por pendenga da bruxa-velha, registrou a menina.

Cresceu assim, do confessionário para as missas da tarde. Antes do almoço, novena e em dias de regra- esta prova viva de que a mulher é coisa do Demo- jejum pra aplacar os pecados da carne enquanto durasse a quizila com a natureza.Vestido comprido,cabelos presos, o andar inseguro das jovens prometidas ao Senhor. Como era sem graça a pobre criatura.

Foi assim até que um destes dias, quentes como só o inferno e o sertão podem ser, imergiu na tina com água fria, enquanto a avó não voltava para irem a missa. O sabão de coco, duro, escorregou pelo corpo franzino. E nesta de procurar, água que entra e sai, madeira roçando a pele limpíssima, quase estéril… Naquela tarde, e nos próximos dias, o corpo inteiro mais vivo, o sangue quente de Lascívia.

Rezar, confessar, imersão. A vida tornou-se um pouco mais colorida.

Fim de tarde quente, tomou refresco de pequi, geladinho, servido pelo menino da rua de baixo. Reparou que ele já estava bem crescido. Tomou outro, e outro. Estava forte, no ponto, o suco e o menino. Todo dia, enquanto a avó discorria o terço com as suas convives tão velhas quanto ela e o profeta, aproveitava pra matar a sede e prolongar a prosa. Mostrar um pedacinho das anáguas luxuosas de cambraia da cor da pele. Um convite ao pecado, ali, expostas. Recostava na soleira da porta rococó, sob os olhares blasé-sacanas de querubins que adornavam a madeira, crucifixo entre os peitos, para alegrar as tardes de entregas.

Araçá-boi, pitanga e o de pequi. Azedinho, né? Perguntava o vendedor, de olho na satisfação e as belas curvas da cliente. Os pingos da bebida escorregando no pescoço macio. Antes de encontrar o decote, agarrou-se com Lascívia.

À tarde, quando a avó chegou em casa, estranhou a febre da neta, mas não deu descanso: à missa e depois confessionário. Orgulhou-se da demora em sair da casinha. O Padre, sorridente, deu as alvíssaras pelas prendas da moça. Incansável . Os coroinhas que iam estudar o catecismo, saíam de lá sabendo sobre Eva e o pecado original mais que a velha beata poderia supor.

Rezou a missa com o Leiteiro, ensinou o latim para o jornalista forasteiro, e até o Seu Manoel, da padaria, quis saber mais sobre o caminho para a redenção dos pecados. Não importava a idade, aparência e tamanho. Todo homem é digno de redenção e Lascívia.

Logo havia arrebanhado fiéis, em especial entre os senhores de respeito, que a cada dia iam mais a missa. Ao seu lado a avó prendia o sorriso, tentando disfarçar o orgulho da neta, professora das palavras do senhor. Corada, mais redonda, como era bonita a doce Lascívia.

Ao meio dia o padre esperava ansioso, suor do pecado escorrendo pela batina. Naquele dia sua ausência foi sentida. Nem o catecismo, nem suco para matar a sede. Nem sermão, nem latim. A tarde quente, quase no fim.

“Lascívia: Propensão para a lubricidade, à luxúria. Libidinagem, sensualidade, cabritismo. Medicina Satiríase.” Repetiu mais de uma vez o significado, cada vez mais alto, até que um riso frouxo saiu pela garganta e escorregou dos lábios agora perniciosos. Naquela tarde resolvera demorar consigo.

Enquanto imergiu uma vez mais na tina gelada, cheiro de coco, os bons homens da vila suspiravam. Sobravam os sucos nos garrafões de barro e os meninos se arranjavam nas bananeiras, ansiosos pelo próximo ensinamento. Saudade, vício, luxúria, Lascívia.

Santo remédio, todos diriam.

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