Feeds:
Posts
Comentários

Posts Tagged ‘Carol Barata’

Do lado de cá, da janela em que encostada estou, acendo um cigarro e dou um gole no café. Do outro lado – da rua, da realidade, do mundo – um operário ou O operário, pois eis que o imagino clássico em sua função: macacão azul, capacete amarelo, botas negras e luvas brancas. 2ae6b3628aa4430d808df727625d7dbd587121f3_m

Permaneço entre um cigarro e um gole de café (quente, quente) a olhar o carinha lá do alto de uma parafernália que não sei o nome. Uma cabine alta, cheia de braços e garras mecânicas, que o fazem mais parecer o próprio Doctor Octopus a favor da construção civil.

Ele lá tão alto e tão só. Eu aqui tão cheia de si e igualmente só. Não consigo parar de pensar que tipo de solidão se sente lá do alto que ele está. A minha é rasa, é mais cobra do que pássaro. É rente ao chão, é próxima a terra úmida. Ele sobe no vazio, o operário.

Eu mergulho nele, no vazio e no operário.

Read Full Post »

impertubavel5

Estranhamente vazia, complacente com o oco.

Não incomodada com um rascunho de texto ou esboço de sentimento.

Inabalável solidão.

ao som de [ You – Radiohead ]

Read Full Post »

Ele a via chegar sempre como quem está atrasada. Ella. Esse nome era assim tão simples e categórico para o que Ella era. Ah, que mulher, ele suspirava. E chegava sem olhar para nada ou olhando tudo como se nada fosse interessante. E nada era depois que ela entrava. Muitos também deviam suspirar como ele “Ah, que mulher Ella…”.

byro_02Ele olhava do outro lado da sala ela adentrar, atento, com o coração quase na boca, pronto para dizer qualquer coisa como “vamos dar um passeio ou um chopp depois do expediente, quem sabe”, mas permanecia inerte. Ella pouco se interessaria no que ele diria porque gaguejaria e lhe suariam as mãos. Talvez a pressão baixasse, a asma surgisse e de supetão, ele puxaria a bombinha do bolso da camisa antes mesmo de dizer “oi”.

Ella usava sempre roupas pretas e entre um cafezinho e outro, na copa da empresa, ele já ouvira os outros dizerem que tinha um ar sinistro, que fumava e era monossilábica. Mas ah, que mulher misteriosa… Fazia surgir ciúme das outras funcionárias, tinha uma postura que era só sua. O jeito que abaixava para pegar um memorando que caia, a forma como apontava o lápis e divagava olhando para tela do computador. Ah, se ele pudesse…

Foi numa segunda-feira que se armou de coragem e decidiu: passaria e ultrapassaria o limite de Ella. Não poderia ser pior do que já era viver de vontade, imaginá-la fazendo coisas simples, como arrumar a casa ou prostrada por uma gripe. Enfim, coisas de gente apaixonada imaginar situações assim.

Enamorado pelo dia seguinte, dormiu agarrado no despertador e com o livro de Neruda longe da cama. O livro era velho e poderia lhe causar espirros por conta de uma alergia que bem conhecia desde a infância. Mulheres gostavam de poesia, de flores, de romantismo. Então, a conquistaria assim: com uma rosa a mão e um verso no ato. A Dança, de Pablo Neruda.

Adormeceu decorando a tal Dança:

– Te amo como a planta que não floresce e leva, leva… hum… dentro de mim. Não, droga. É dentro de si, dentro de si, seu estúpido, estúpido – repetia como autoflagelação.

E então respirava fundo, limpava a testa com um lencinho que estava sempre a tiracolo no bolso e retomava a sabatina de si mesmo:

– Te amo como a planta que não floresce e leva
dentro de si, oculta, a luz daquelas flores,
e graças a teu amor vive escuro em meu corpo
o apertado aroma que ascender da terra.

Foi então que ficou aliviado.

No dia seguinte, não conseguiu nem tomar café. Acordou com o estômago em brasa e um riso solto sem motivo. Até esqueceu-se da bombinha, do agasalho para caso o tempo esfriasse, da sua caneta da sorte que poderia ser tão importante naquele momento. O melhor momento de sua vida.

As tarefas mais corriqueiras pareciam ter um brilho diferente, pois ao final do dia ele teria sua recompensa. Todos os memorandos saíram com um ar de carta de amor e a Dança de Neruda bailava em sua cabeça. Ele permaneceu o dia todo rabiscando palavras soltas – flores, dentro de si, alma – nos cantos das folhas de papel.

Mais precisamente ás 17:25 h foi chamado para uma reunião. Um medo monstruoso o invadiu e fez com que sua úlcera mostrasse a seu corpo para que veio ao mundo. A dor era horrenda, mas pior ainda era a possibilidade de Ella sair da empresa antes que o tormento corporativo acabasse.

Não queria saber da crise que o país enfrentava – que vá para o inferno a crise – e que bla bla bla mais chato era ouvir tanto papo furado sobre contenção de despesas, corte na equipe por motivos maiores e que sentiam muito. Ah, martírio era amar tanto aquela mulher. Ah, que mulher… Saiu da sala sem entender nada sobre o que se passava e pouco se apercebeu quando a gerente do RH disse a ele para comparecer em sua sala para “acertar as contas”.

Saiu esbaforido da sala, suando feito um porco, óculos embaçado e a tal Dança sendo repetida bem baixinho:

– “Graças a teu amor vive escuro em meu corpo o apertado aroma que ascender da terra…”

Chegando a sala, nada de Ella. Ela havia ido embora, levado sua graça para outro lugar e ele, ali, perdido, com cólica, falta de ar, suadeira, pressão baixa e o tique nervoso, que tanto o atormentava, mais acentuado do que nunca. Até seus pensamentos gaguejavam. Tomado por uma fúria nunca antes conhecida pelo seu corpo e por sua alma, saiu da sala correndo.

Desceu pelas escadas para ser mais rápido e a cada lance, sentia-se irremediavelmente mais perto de sua amada. Ah, que mulher eu terei, pensava o apaixonado. Ah, que lindo será o destino que nos aguarda, Ella; dizia ele mentalmente.

Chegando ao hall do prédio, nenhum sinal dela. Avançou para a calçada e a avistou ao longe, de seu lado direito. Ella andando leve e displicente. Teve que parar durante cinco segundos para arrumar o rosto e recolocar os óculos no alto do nariz, empurrando com o dedo indicador. O cabelo também merecia um grau: cada uma das mãos era responsável por deslizar, da raiz até as pontas, sobre o penteado meticulosamente feito com gel e repartido para o lado esquerdo.

Andava apressadamente por entre as pessoas que não entendiam nada. Ainda assim, com toda pressa, ele muito educado, pedia licença e perdão a cada esbarrada que dava. Viu-a atravessar a rua e gritou desesperado:

– Eeeeeeeeellaaaaaaaaaaaa…

Num ímpeto de momento, enquanto ela já atingia a outra calçada, ele arvorou-se em direção ao asfalto. Um Corsa ano 2007, de cor preta, placa JT3852, com uma mulher ao volante, atropelou o pobre nerd que só então percebeu que a vagabunda gótica estava com fones de ouvido. Que caralho de puta autista era aquela que conseguia nem olhar pro lado enquanto andava? Merda. E ainda estava desempregado. Puta-que pariu. Essa vida é uma merda mesmo!

Fim.

Moral da história: o amor é uma piada onde quem ama, sempre se fode no final.

Read Full Post »

Tem gente que coleciona selos, dos mais raros até os mais chinfrins. Ou obras de arte, johnnybravo3tampinhas de refrigerante, corujas, bruxas, inimigos, livros. Enfim, o hall de coleções são os mais diversos nesse mundo. Ôooo se são…

Bem, eu e a Lora podemos temos como hobby colecionar cantadas. Não, pessoas. Não quero dizer que somos as musas dos pedreiros ou que arrematamos olhares por onde passamos. Nada disso.

A verdade é que existem caras com dom pra coisa, sabe? Ou pelo menos acham que tem. Eles realmente investem no “oi, posso te conhecer?” e inventam mil formas de tornar nossos dias mais alegres ou nossas noites e chances de desencalhar deprimentes.

Vale ressaltar que nós mesmas nunca caímos em nenhuma dessas, até porque minha veia sociopata  é latente demais ( eu temo estranhos)  para sucumbir aos chamados dos estranhos-engraçadinhos, estilo Jhonny Bravo, que se espalham pelas ruas e baladas.

Mas as colecionamos. Sim, desde as mais toscas até as mais criativas. E vale a pena. Criatividade bizarra mode on. Start!

– Oi, tudo bom?

– Tudo…

– Tu conheces o Alex?

– Alex? Não… acho que não.

– Mas agora conhece. Prazer, meu nome é Alex.


– Hoje é teu aniversário?

– Não, não…

– Pô, mas você tá de parabéns, hein?


– Doeu a queda?

– O que?

– A queda… doeu?

– hãn?

– Porque um anjo assim, só pode ter caído do céu.


– Passei por aqui pra ver se tu pisavas no meu pé de novo, só pra eu poder ficar um pouquinho mais perto de você. (em meio à balada super lotada)


– Eu tô bem? Meus amigos disseram que eu tô bem hoje.

– Tá, tá bem sim…

– Obrigada! Você também tá maravilhosa, sabia?


– Nossa, você tem cara de professorinha de Português. Uau! (bem fantasiando com óculos de grau)

Read Full Post »

Eu juro que ouvi.

5 neurônios

Avenida José Malcher, 8:30 h. Parada de ônibus. Duas senhoras conversam.

– Ela tem aquela coisa que dá depressão, convulsão, sabe?

– É mesmo? Ah, coitada…

– É. O “célebro” tem os cinco neurônio. Quando um dá defeito todos os outros falha.

Yakissoba

Avenida Visconde de Souza Franco, 13 h, Líder da Doca. Uma família prostrada, literalmente com cara de quem comeu e não gostou diante de uma bandeja vazia de sushi e uma garrafa de caldo de cana. O pai, a mãe e duas filhas.

Pai: – Tu e a tua mãe inventam de comer essas coisas…

Filha 1: – Eeeeeu? Não fui eu que escolhi. Foi ela, diz a menina apontando com a boca (coisas de paraense) para a mãe.

Filha 2: – Foi tu, sim.

Mãe: – Nãaaao. Ah, vocês me mandaram escolher. Eu não sabia qual era pra pegar.

Pai: – Já disse para vocês. Sushi bom mesmo é geralmente Califórnia ou Yakissoba. É um desses dois.

3D

Agência de publicidade, 11 h. Em Belém ( ! ).

Cliente: – Que programa é esse aí que tu usas?

Diretor de arte: – É Corel Draw.

Cliente: – É Corel, né? Eu sabia.

Diretor de arte: – É.

Cliente: – E vem cá, me diz uma coisa. Esse teu Corel aí faz 3 D?

Diretor de arte: – Não, amigo. Não faz.

Read Full Post »

Eu desafio qualquer receita barata antidepressão e meu mau humor. Não quero torná-los parte integrante do meu ser.  Desafio o que é imposto, o que é seguro o que é tido como bom, o supostamente Pré- estabelecido (por quem?). Desafio a rima, mesmo rimando em descompasso. Desafio a distância por ela ser tão grande quando quero afago e ínfima quando a suplico.foto3

Desafio você a me desafiar sem conseguir irritar-se. Tenho teimosia à flor da pele e nervos de açúcar ou de qualquer outra coisa que dê para “trocadilhar” com nervos de aço. Desafio a língua portuguesa, o acordo ortográfico – “abrupta” ou “ab-rupta” mudança? Ainda haverei sempre de parir neologismos bem ou mal criados.

Desafio essa vida que eu levo que não é inteiramente minha. Quero desafiar o medo que há em mim de ir além, de achar que certas coisas não me pertencem. Todas elas me pertencem. Todas podem me pertencer. Mas sem esse papo positivista – pós – modernista – motivacional de “querer é poder”. Não é. Isso eu sei. Mas eu quero muito e quero tanto, tanto.

Vou sair daqui, dessa cadeira, da sala fechada, para saber só de olhar pro céu se é dia ou noite. Vou esquecer o relógio e os meus dogmas. Não quero ser escrava. Quero ser ama do desejo, da vontade sublime de viver, de ondas do mar, sal de praia colando na pele.

Quero sentir teu sabor, misturado com tequila e chiclete de canela. Quero ficar com teu cheiro na palma da mão e ficar cheirando de pouquinho em pouquinho, assim, abafando as duas mãos, como se teu cheiro fosse só meu. Como se eu pudesse guardá-lo numa caixinha e levá-lo na bolsa pra onde quer que eu fosse. E assim, desafio a lógica de só querer o que é possível.

Fico derretendo meus neurônios e descobri que tenho vocação para isso: para derretê-los com textos que não saem até que eu esprema a última gota de enxaqueca, analgésicos, jornais, revistas e anuários. E eis que se dá uma avalanche de letras corroídas, palavras ulceradas e até enferrujadas por tanto uso. Que se dane o que já foi feito, pensado, falado e esperado. Quero mais é o estrago do desconhecido, o que está por vir.

Quero perder menos tempos em telas e ganhas mais em páginas. Quero lembrar que os Correios existem e esquecer do Gmail. Quero mais mentiras sinceras e menos raspas e restos. Não quero mais me contentar com restos.

Vou falar atrevidamente, mostrar interesse só para o que me interessa e pendurar na porta de casa uma placa com os seguintes dizeres: “EU NÃO ME IMPORTO”.  Seja lá o que quer que você tenha para me dizer, pense antes. Porque eu simplesmente, não me importo mais.

Vou usar menos salto alto e mais saia – sejam curtas, rodadas, pregueadas ou retas. O papo mesmo é pernas de fora, pra ver se inspiramos a vida a ficar de pernas pro ar. Minhas unhas serão carmim, meus óculos vermelhos e assim eu sairei do sótão em mim onde guardo meus pesares, meus maus presságios. Inovarei meu novo mundo à cor de sangue.

“Tudo novo de novo”.

Read Full Post »

A frase do título é de Pablo Picasso e o quadrinho é do Blog dos Malvados.  A falta de inspiração fica por conta da insônia e da pilha de jobs que se acumulam na minha cabeça.

Inspiração 0 x 10 Enxaqueca  para Carol Barata!

folhateendahmeralone

Read Full Post »

Older Posts »