Feeds:
Posts
Comentários

Archive for março \31\UTC 2008

Eu não fui feita para ser entendida. Eu nem tento que me entendam, amiga.” Acho que essa foi a frase mais objetiva que já ouvi da Lorena, a mais certa. Poucas pessoas conseguem alcançar esse patamar de entendimento sobre si mesmo. E eis que a “bicha” numa caminhada na hora do almoço a caminho dos nossos respectivos trabalhos, se define, quer dizer, se define, não, se expande dessa forma.
dsc02689pb

Eu demorei muito tempo e até hoje tenho essa dificuldade, de entender que nem sempre vou me fazer entender. A compreensão é dádiva. É muito bom você olhar nos olhos de quem ouve o que está sendo dito e sentir-se compreendido. É quase como um pedido de casamento, é um convite a compartilhamento de idéias, de memórias, de momentos. É sentimento de unidade, quer seja duradouro ou não.

Aceitação vem de si, tem que vir. Dentre as muitas coisas que quero ensinar a meu filho, essa é uma delas: aceitar a todos, aceitar as diferenças para que então, se aceitar.
Ser confiante é o primeiro requisito para defender seus ideais, mas daí sem humildade, sem o praticar a aceitação ao próximo, nada mais será que vaidade. Saber a hora de baixar a cabeça também é bom. O livre arbítrio é pleno: tirano ou cidadão do mundo? Você escolhe.

Essa amiga a anos me ajuda nas coisas mais variadas, nas coisas de amizade, nas coisas de vida, da minha e da dela. A vida dela me interessa por muitos motivos, mas o maior deles é porque cada caso é uma crônica, cada caso é mais bizarro que o anterior. Ela me conta tudo. Ou quase tudo. Não me importa na verdade o quanto ela conta, mas é como ela descreve e principalmente, como ela vive sua vida. Lorena é aceitação plena. Intensa e libriana, assim como eu.

Da amizade dela, eu sugo isso: entendimento. Ela me ensinou a me entender, a entender os outros, a aceitar o que me oferecerem. Minha mãe costuma dizer que cada um dá o que tem. Se te dão muito amor, é isso que a pessoa tem em si. Então, se me dão incompreensão, incompreendidos serão. Ela me dá amizade, me dá amor, me compreende tanto que eu sinto-me na obrigação de entendê-la.
Todo mundo merece ter alguém assim na vida, alguém de “alma livre”. Odeio gente frígida, que não sente prazer em viver e chegar ao orgasmo da vida, intensamente, todo dia.

[ Texto escrito em maio de 2007 ]

Read Full Post »

Por Moara Brasil

Como estás tão suja e abandonada por aí, querida Lucia Luma. Jogada e embriagada pelos cantos, esquecida por aqueles que você pensa que a amam. Estás sempre usando essa indumentária antiga, velha e rasgada. A mesma imagem, a imagem explícita do seu fracasso.

O que aconteceu contigo? O que aconteceu com aqueles planos?E essa vontade se ser mais, com elegância, escondeu-se em algum buraco pelo asfalto?

Estás passada, e todo mundo pisa em ti. Estás um lixo, e te esqueceram de colocar na porta de casa.
Ei…vestistes a camiseta do lado avesso outra vez, vou ter que repetir?

Estás se afundando numa rotina viciada, são as mesmas músicas…mude de disco, por favor.
E cada dia que você leva, quando te observo, as minhas percepções pioram em relação a essa tua imagem.

Você fede a fracasso, miséria, despudor e álcool, o odor contaminou as minhas narinas. Ah, mude esse disco!

Mas eu não consigo ver uma solução imediata, acho que você vai se perder por aí junto com todos esses embriagados. Eles não sabem nada, só vivem. Perderam a noção de tempo e desse espaço. Estão ficando velhos, cheio de olheiras, cabelos mal tratados, unhas sujas e dentes cariados. Cada vez mais ignorantes de sua condição lamentável. Ah, nem eles querem mais dançar contigo! Pois todos dançam pra si mesmo, sem ouvir a música. Apenas se movimentam e vivem freneticamente, mas estão todos cansados.

Tu estás doente, e não percebes. Não tem mais plano de saúde, nem dinheiro para comprar remédio. Você é fato, você é nóia. Apagaram as luzes e fecharam as portas. Vá embora minha querida, minha triste e amarga cidade.

Read Full Post »

É dele

Por Lora Cirino

O maldito coloca aquela música, que é a cara dele, e que por meses se torna a tua cara e tu juras que é tua preferida. Coloca a música na hora que tu não sabes o que és ou o que é ele, que a diferença entre dor e prazer é ínfima. Sabe aquela hora que tens certeza que Deus é sublime? Porque pra encaixar tão certinho pêlo grosso com pêlo fino, só pode ser. Pra juntar pele áspera com pele sedosa, deixar as temperaturas perfeitas e encaixar tão bem as coisas, só pode ser sublime. E a música lá rolando.
Ele sabe que pode e gosta e tu também gostas, é bom ser dominado, até porque tu amas tanto ele quanto a dominação. O ruim é saber que a música não é tua, é dele. E que daqui a um tempo, nem sentido mais terá.
O que fica é só aquele cheiro, gosto e som, que mesmo ouvindo daqui a anos, na hora te levará de novo pra aquela cama, por segundos. Porque os sentidos entendem e não deixam esquecer, mesmo que tu disfarces pro mundo e todos eles acreditem. É mentira!

Read Full Post »

Por Moara Brasil

A lembrança mais antiga que tenho de ti, querida velha, é lá do Marex, quando eu cheguei de Santarém com a mamãe e meus dois irmãos.Devia ter uns 6 ou 5 anos, em 1989, faz muito tempo, lembro perfeitamente da mamãe carregando o Nelinho e segurando a mão do Pedro, e eu morrendo de medo de jatinhos. Papai era locutor de rádio, e não teve como voltar com a família para Belém. Lembro que deixei a minha boneca preferida, uma de borracha velha, a Julieta, e pedi por telefone que papai trouxesse de volta pra mim, mas espero até hoje por isso, ele nunca trouxe a Julieta. A boneca velha se perdeu por Alter-do-chão.

Mas o assunto é a senhora, querida velha Elba. Morei tanto tempo ao seu lado, e odiava ter que acordar sete horas da manhã todos os dias para ir a única Igreja do bairro, rezar com um bando de velhos enjoados todo o “Pai Nosso”. E depois, ainda ter que ajudá-la nas coisas da casa, brincar com os primos e dormir cedo, bem cedo. Na minha infância, a senhora foi inevitável, e marcou bastante. É porque eu a achava muito chata e rabugenta. Falava mal de sua personalidade forte e de velha, esse gênio intragável. E de reclamar sempre de algo, e de coisas que meninas naquela minha idade normalmente deixam de fazer, como escovar sempre os dentes ou assistir a programas impróprios pra mim e tomar banho nas horas erradas, segundo a senhora.

Na sua casa, querida avó, lembro de um cheiro de casa antiga e de mato muito forte, o jardim era bem florido, e naquela época, ele parecia enorme, gigante, quase uma floresta, eu e meus irmãos brincávamos naquela jardim e nos realizávamos terrivelmente. Morar no Marex era quase morar no interior, era muito longe do centro de Belém. Mas o mais legal era sentar naquele banco de madeira que ficava no portão da casa, sentar quando o sol estava indo embora e a lua dava boas vindas. E olhar para o asfalto que ficava pink com as flores de jambos e aquelas sementes vermelhas.

Da cozinha, recordo perfeitamente da canja de galinha e de uma sopa de mocotó que a senhora cozinhava muito bem. Talvez seja por isso que eu não resisto a uma canja até hoje. Eu amava. Nossa….também lembro de uma feijoada com ovo frito e carne assada, mais alface e arroz. Hoje, também meus pratos prediletos. Uma delícia.

Quando acordava cedo para ir na padaria comprar pão quentinho, a melhor parte era tomar café contigo sempre reclamando com voz de velha “não fura toda a margarina com a fáaaca menina”, “não coloca tudo isso de chocoláaate”, “ta pensando que nasceu em berço de ouro?”, “não quero ninguéeeeem comendo meu cream cracker ein”. E eu comia o cream cracker, escondido da senhora como vingança, e tu nem percebias, hahá.

O seu quarto era bem misterioso, sempre achei que por ali atrás daqueles armários barrocos escondiam-se espíritos sacanas. E quando olhava para o espelho do banheiro, mais o meu medo aumentava ao adentrar no seu quarto toda vez que tu pedias um maldito analgésico. Cheguei a ver alguns seres de branco por ali.

Eu recordo também daquele quadro imenso, acho que era peruano, de pano, com uns desenhos de cidade, não lembro direito. Cadê ele? Sei que marcou, pois ficava pensando “nossa, como alguém podia desenhar tudo isso com linha de crochê?”. Com medo de fazer qualquer pergunta pra senhora, fiquei na curiosidade e até hoje não sei a origem desse quadro.

Mas, a melhor parte de morar na sua casa era o Natal. Eu amava o Natal, não só pelos presentes, mas pela reunião com todos os primos, todos ainda muito crianças, rezávamos juntos e comíamos a melhor comida feita com amor de cada mãe, filhas da senhora.

Estou lembrando de tudo isso, querida vó, porque apesar da minha ausência na sua vida neste momento em que arrumamos desculpa para qualquer compromisso familiar, quero lembrar o quanto a senhora é importante. E que eu irei na fisioterapia contigo por essas semanas.

E, mesmo com essa sua cabeça de velha e teimosa, que eu tentei mudar e critiquei por muito tempo, quando a primeira frase que a senhora falava ao abrir a porta de sua casa era “tu aqui?Olha, eu não tenho comida ein!”, eu te amo e sinto orgulho de ser sua neta. Uma mulher que teve quantos filhos? Sabe que sempre me perco. É porque sou lesa mesmo. Dez? Para ter tudo isso só podias ser uma fortaleza. Criou-os de acordo com a educação que a senhora herdou de outras gerações, e criou-os na marra, na palmatória, e com uma caixinha cheia de tabus, chatices e dogmas religiosos de velhos. É, eu te amo.

Saiba que eu não admito essa doença quase “cancerígena” a qual se entregas. Essa tosse de velha que virou rotina que nos amedontra. Que não suporto o seu medo da velhice e da morte, e me pergunto, onde ficam os dogmas em que você tanto acreditava e tentou colocar na cabeça de todos nós, seus queridos netos? A velhice chega, a pele se acaba, o sangue definha, mas a mente não. A mente é eterna enquanto dure, queria que percebesses isso. E, desse um belo sorriso para a sua vida e à tudo que a senhora construiu nesses 80 anos. Porra velha, é muita vida! Conta aí. A senhora nasceu em plena Crise de 29 e ainda passou por guerras mundiais!Enfrentou ditaduras e a era digital. Não se entregue antes do tempo, sua família toda te ama e agradece por seres o ponto de união de todos nós. A querida vó do Marex, do natal, do café com pão careca e as rezas do dia-a-dia.

Por favor, volte a ser pelo menos aquela rabugenta que seus netos tanto temiam.

Read Full Post »

Por Carol Barata

A inveja é magra e pálida porque morde e não come. Nem sei de quem é essa frase, mas para não perder o fio da meada da vontade de escrever, da vontade de falar de algo, não me darei ao trabalho de procurar no Google. E só para te deixar com mais inveja, é uma delícia sentir-se c0894289694bf42e1f1224e6726614921caaee07_massim como estou agora, com muita vontade de escrever, de viver e continuar assim, incomodando os outros.

Nunca vi tristeza incomodar. Pessoas são capazes de comer grandes e fartos pratos caros, nos restaurantes da moda, tendo como expectador uma criança que não come há alguns dias e ainda sim, serem incapazes de perder a fome ou se sentirem tocados por pouco mais que quinze minutos. Talvez a cesta básica com produtos de 5ª categoria que esse tipo de gente dá aos seus empregados no final de ano os faça ter a sensação de dever cumprido com as desigualdades sociais.

O que machuca e fere os de “alma bem pequena” é a felicidade e a melhor delas, a dos seres que conseguem passear por esse sentimento de forma leve. A meu ver, ser feliz, ser alegre é saber que não há A Felicidade e sim que há é um milhão de momentos, de pessoas, de acontecimentos, de chuvas, de conquistas, de palavras que te causam uma alegria forte, uma alegria tão singular que aquela sensação só pode ser chamada de felicidade.

Zuenir Ventura – jornalista que escreveu o livro (da coleção sobre os sete pecados capitais) “Inveja” – cita que inveja não é querer o que o outro tem. Isso se chamaria cobiça. Inveja é quando a pessoa passa a querer que o outro não tenha aquilo que você não pode ter. Em suma, quem é incapaz de ver o lado bom de cada derrota, de ver um recomeço para cada fim que há na vida se incomoda que você consiga. Esses pobres de espírito jamais passarão de magros e pálidos.

O que (ainda) assusta é que esse povinho é assim por opção. Eles optam por sempre terem comentários maldosos para os famigerados pseudo-bem-sucedidos, optam por apontarem o dedo para os outros e gastam preciosos minutos cultivando rancores desnecessários por terceiros que mal e parcamente conseguem sequer lembrar de sua existência. E sabe por quê? Porque os felizes, os que incomodam, são uns ferrados na verdade.

Isso mesmo! Como já diz o dito popular os coitados e incluo-me nessa lista, são ferrados e mal pagos. Estão cheios de contas a pagar, de problemas a resolver, com crises existenciais, de dilemas amorosos e algumas vezes até com problemas de saúde e continuam ali, vivendo. Preocupando-se com um dia de cada vez, matando um leão por dia e conseguindo colocar a cabeça no travesseiro lindamente.

Juro que tento puxar na memória um só dia que eu tenha desejado algo ou alguém ou alguma coisa a ponto de desejar que mais ninguém possua o meu objeto de desejo. Pode ser que tenha acontecido, pode ser que ainda aconteça até, mas até então, não me vem nada à mente. Talvez seja porque estou deveras preocupada com questões reais (de realidade e de reai$$ também) para alimentar sentimentos pequenos que não passam de frutos das mentes mais ociosas.

Eu sou publicitária, comunicóloga e por conseqüência, não só disso, é claro, falo muuuito. Adoro falar tanto quanto amo conseguir alcançar o tal silêncio, o meu silêncio interno. E aprendi nessa lida diária que quem fala demais, dá bom dia a cavalo. Quem fala demais, acaba fazendo propaganda. E propaganda, meu amor, é coisa séria. Deve ter briefing*, atendimento, brainstorm*, direção de arte*, redator, mídia* e produção envolvidas. Ou seja, propaganda é coisa de gente grande e deve ser paga.

Agora, se você opta por fazer propaganda de graça, se você é adeptA do velho boca a boca, tente pelo menos fazer bem feito. Crie uma fofoca das boas que tenha 10 % de verdade e deixe aquilo correr pela cidade que já é pequena. Envolva mais alguém que endoce suas doenças psicológicas, que goste dessas causas sem por que e dedique-se de corpo e alma a fazer isso dar certo. Mas faça direito, meu amor. Não jogue suas palavras ao vento porque geralmente, o tiro sai pela culatra.

Vai ser difícil ser como eu, mas ao invés de se limitar a tentar me intimidar com comentários maldosos sem sentido por que você não tenta só me superar? Prometo a você que não é difícil, benzinho. Mas comece agora, seja numa benzedeira, num psicólogo ou somente correndo atrás do seu objeto de desejo. Faça isso enquanto eu me ocupo com a vida, com a MINHA vida, ok?

BEIJOS CALOROSOS E ESPECIAIS PARA O (A) MEU (MINHA) FÃ, PORQUE AQUI TAMBÉM VALE A MÁXIMA QUE É SUA INVEJA QUE FAZ A MINHA FAMA.

MUAAAAAAH =o**********

* Joga no Google!

Read Full Post »

Por Anna Carla Ribeiro

Ela me disse “sim senhor”. Saiu por aquela porta com serenidade. Esperei cinco minutos contados no relógio e não ouvi o som. Nada do barulho de gasolina velha em contato com o motor que o seu carro fazia ao dobrar a minha esquina, nem o som estridente do meu interfone que acordava a casa inteira mais a do vizinho, muito menos o meu antigo toque de celular. Ela sempre voltava.

Eu morria de rir das fraquezas dela. Entrava no quarto feito um tufão, me olhava com os olhos de uma criança somaliana e me perguntava por quê. Fingia uma superioridade que ninguém, além de mim, duvidaria ser natural. Então, de pirraça, eu a atacava. Eu sabia que ela era a vítima. Mas também sabia que era eu o juiz.

Quando saía levava consigo todo o ar. O ambiente passava imediatamente a sofrer as conseqüências da baixa pressão atmosférica. Mas ela sempre voltava, estarrecida e envergonhada pelo fim do seu teatro. Me olhava pelo canto do ombro com olhos de artifício e me absolvia dos crimes que eu nunca pedia perdão.

Ela tinha aqueles olhos de quem precisa ver o mundo sempre fulgurante. Sempre, sabe? Sempre faiscantes, como se as cores e as formas do mundo fossem se apagar e por isso queimavam. E eu tentava transmitir a paz que aqueles olhos tentavam por si só decifrar.

Ela falava sobre o futuro, o nosso futuro, e transpirava a poeira. E planejava tantas viagens, mas tantas viagens, que seus olhos reluzentes viajavam sozinhos para a tal da outra dimensão. E eu achava graça dela, sempre tão linda para os meus olhos, e sempre tão distante para os olhos de outrem. Eu sabia. Os olhos dela flamejavam só pra mim, só pra mim. E por isso me sentia o último rei dos Noldor na Terra-média.

Sempre se rendiam aos meus desejos. Era vício químico, físico e incorpóreo, daqueles de fazer o estômago pensar mais que o cérebro. Tanto brilhavam que ofuscavam o meu próprio brilho. E me faziam sentir inveja dos desejos que me provocavam, das delícias que me proporcionavam. Roubavam-me do meu próprio espelho.

Foi então que eu olhei pros lados e dei aquele sorrisinho denunciador. Era uma graça. Precisava colecionar globos oculares porque estava cego de tanto egocentrismo. Mesquinharia. Esqueci que por debaixo dos olhos dela moravam medos, anseios, seios. Malandro é malandro, né? Eu a olhava, e mesmo cabisbaixa, ela trançava seus braços nos meus e retribuía o olhar.

De tanto procurar, a perdi. Não só os seus olhos, como os seus mimos antes de dormir, o seu jeito de menina ao me dar bom dia, a sua preocupação com a minha demora. Eu perdi. Perdi os olhos de uma mãe, irmã, melhor amiga. Perdi a melhor amante e as suas brincadeiras de dentro do carro. Perdi o enroscar dos meus pés com os dela naquelas noites de chuva. Perdi porque sou um embusteiro bem nascido.

E agora vejo os seus olhos refletindo a leveza de uma pena. Que pena! Cintilam pra todos, pra tudo e pro nada, como se estivesse apaixonada por qualquer reprodução visual. E eu sinto a falta dos nossos finais de tarde felizes, do caminho que percorremos juntos, das praias, das ruínas. Sinto necessidade do mau humor que ela fica quando bate a fome e da minha falta de sensibilidade que sempre a faziam chorar.

Como me dói ver sorrisos brandos e olhares indecifráveis olhando o seu diamante, a sua leveza, o seu sorriso antes mesmo de dar aquele seu sorriso, de tirar o chapéu. Me dói porque a perdi pro mundo, pra tudo e qualquer coisa que possa vir a acontecer. E me deu tanta azia quando finalmente seus olhos cansaram e me disseram “adeus”, que os meus começaram a brilhar. De lágrimas, meu caro, de lágrimas.

Read Full Post »

You´ve got a gift, baby!

Por Aimée.

Cresci ouvindo que cada um dá o que tem e foi assim que para mim, isso sempre me pareceu muito óbvio. Claro que cada um dá só o que tem, não é? E quando a gente quer mais, quer tanto, quer por demais que acaba pensando que a pessoa realmente tem algo a mais para dar e a vê dando um pouquinho de nada do que há em si para gente? Ainda não aprendi a lidar com essa situação. Nem quero.

Tenho o costume de entregar para os outros as verdades, de dá-las de presente em belas caixas finas com laços feitos por aquelas experts em embalagem, de balcão de loja de departamento. Eu remôo com carinho, com todo meu carinho, na minha imensa cabeça de amendoim qual a melhor forma d’eu dizer aquilo, a minha verdade, e pior, de que forma vou entregar de presente a minha verdade que espera a sua verdade.

Decido me adiantar e decido que é hoje, é agora e vou falar de qualquer jeito. Se estiver decidido, está decidido. Minhas verdades não voltam atrás… quer dizer, mais ou menos.

Chego perto tão pesada, mas tão pesada carregando tudo isso de verdades verdadeiras, absolutas em sentimentos puros, profundos, fulgazes e claro, profanos – porque é de carne vermelha e sangue quente e corrente nas veias que sou feita – que repouso no meio dos sorrisos falsos e da falta de assunto.

Meu presentinho foi te ver me tirando uma parte do fardo de carregar as minhas verdades. Tiraste de cima do monte aquela embalagem que embora menor, é a que tem mais efeito no todo de “presentes” que tenho para te dar: o início da conversa, a partir dali dependi de mim. Nem isso conseguiste aliviar.

Fui te dando uma por uma das minhas verdades, sentindo o vento tocar no meu rosto e gelar a minha alma. Eu sentia frio. E me deu vontade de ser aquele vento que também tocava o teu rosto, mas não te gelava. Deixava-te mais seguro, mais forte, inteiro, com olhar penetrante.

São poucas as vezes que falas sem olhar nos olhos, que mexes no cabelo sem que eu saiba que é exatamente aquilo que farás naquele segundo, que teus gestos não combinam com tua palavra e teu pensamento, e que ainda sim, seja tudo tão desconcertado, mas tão desconcertado do que deveria ser, assim como as tuas roupas, teu cabelo, teu palavreado, que é tudo tão desconcertante que combina, que tem unidade.

Só sei que ao tempo recorde de uma carteira de carlton red, uma coca-cola, duas águas e as cervejas que pediste para ti, a gente resolveu o que nem tinha solução. Expliquei-te por A + B que te quero, que já não me basta a insegurança de esperar tua ligação ou que já não quero mais fingir que meu cargo em tua vida é amiguinha.

Pedi-te em outras palavras que não me iludas, que não me deixes iludir, que não me cegues com essa tua unidade, com tua amizade, com as músicas perfeitas de bandas novas que eu já amo desde que ouvi a primeira vez e que estarei limitada a ouvi-las só contigo, só naquele carro.

Eu te dei todas essas minhas verdades ao vivo – e como me recriminaram quando eu disse que o faria assim, ao vivo – porque queria sentir o impacto que elas teriam em ti. Foi bom ver que causou apenas um leve desconcerto, que parecias já saber o que ouvirias o que falarias e o que sentias.

Para alguém que é tão dona das verdades e está acostumada a brincar com elas, como eu, foi como ficar pelada na frente de um bando de estranhos. Foi ver-te destrinchando cada passo que eu tomei, cada palavra que eu escolhi deferir para aquele momento.

Ao final da conversa, ao final do pagamento da conta, ao levantar-se de cadeias e no decorrer do caminho para o carro, para o “tchau, até logo, see you, so long” eu pensava que quando as minhas verdades não são cruéis para mim, não servem. As minhas palavras só me tocam se quem as escutar estiver com um para-raio bem em frente, porque daí elas vão… e vem. Com certeza, vem.

Então, só posso admitir que meus presentes foram feitos para mim. São eles que me trazem para o mundo real, que me dão esse tratamento de choque de te olhar hoje e em tão pouco tempo sentir-te um, sei lá, um meio que justificou o fim, uma curva, um atalho tortuoso, morno. Eu te olhei há alguns dias e assim te senti: morno. Nem frio, nem quente. Morno, assim como vômito. Acho que eu te vomitei de mim.

Aquela conversa nada mais foi que eu colocando o dedo na garganta e deixando a minha diarréia mental de mulher que tem cabeça de amendoim e provavelmente estava na TPM verbalizar tudo na mesma velocidade, intensidade e tempo que eu pensava. E porra, não é que funcionou?

O fora disfarçado de “foi só o momento errado que fez com que não déssemos certo” me rendeu um dia deprê, vários cafezinhos, um choro sem sentido, um porre, mais um choro de porre, um sapato esquecido no carro de um pseudo-amigo que tentava me beijar enquanto eu emitia um dialeto que traduzido seria “mas eu o quero pra miiiiim” e uma manhã seguinte de ressaca. E de muita risada. E de muuuuita liberdade porque te vomitei de mim.

Quem disse que não valia a pena eu embalar tão bem as minhas verdades para dar-te de presente? Primeiro pensei que me darias de volta algo que te sobrava, que era indiferença. Mas agora eu entendi esse quebra-cabeça. Eu sei, eu sei… sofro de LER: de ler-de-za.

Me deste foi esse todo que me faltava durante o tempo que te escolhi para mim, que decidi enrolar um pouco do meu corpo e da minha’lma na tua. Me deste o que me faltava, o que eu não encontrava no meu estoque de sentimentos. Obrigada. Me deste liberdade, baby.

Read Full Post »

Older Posts »