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Posts Tagged ‘vida’


Quando criança, fazer aniversário era aquela coisa toda de esperar que o mundo girasse a meu redor com os presentes, as felicitações, as surpresas e as pessoas queridas paparicando. Claro, que a melhor parte era ganhar presentes: eu sempre era levada àquela loja de departamentos gigante onde eu podia escolher o que quisesse.ac023e62cbc946434bd52b93ec3a799aafe7a21f_m

Com o passar dos anos a vaidade diminuiu. Não gosto de dizer aos outros que é meu aniversário. Passo todos os dias que antecedem a data lembrando os outros com diretas e indiretas sobre presentes e comemorações e chega no dia, morro de vergonha de receber o simples “parabéns”.

Passei a afirmar o mito do inferno astral que antecede a data do meu nascimento e esse ano, parece que o próprio Lúcifer se planejou para executá-lo com maestria em todos os departamentos da minha vidinha, indo desde o “setor” profissional até o sentimental. Rebuliço cósmico planejado para anteceder 24 de setembro de 2008. Caprichado!

Passado o inferno, ficou só o astral. Não esse de gente efusiva que alardeia seus pequenos feitos. Ficou o que fica depois da tempestade. Os destroços e algumas fagulhas de uma esperança que parece, nesse exato momento, ser a última. Mesmo que essa coisa completamente incompreensível chamada de existência já tenha me surpreendido várias vezes, o meu astral tá em cima do muro, tá no fio da navalha.

Não desanimo porque não posso. Fraquejo, sim. Muitas e muitas e muitas vezes. Cometo erros, dou mancadas com as pessoas que mais amo, não termino o que inicio e tenho o péssimo hábito de afastar as pessoas de perto de mim. Receio por fazer o processo inverso: ao invés de tornar-me borboleta, virar casulo de vez.

E hoje está sendo mais um dia que vai ser o primeiro dia do resto de minha vida, mais um recomeço, um start novo, novas metas a meu tempo. O lance todo foi a compreensão de algo bem simples: a gente não possui o tempo.

De nada adianta dizerem que estou mais pros 30 do que pros 20. Cada um tem seu tempo e constrói (ou destrói) sua vida nessas horas, minutos, segundos… sei lá, nessas convenções para aprisionar algo que nada mais é que nascer e pôr-do-sol. O meu tempo pode não está sendo tão ágil como muitas pessoas desejavam e até mesmo como eu previa para o meu futuro.

Lembro de imaginar-me, menina ainda, com meus 26 anos e parecia tão distante, algo bem como “casada, com casa, com filhos, cachorro e periquito”. Não foi o que plantei no decorrer desses anos, nem sei se definitivamente é o que quero. Não quero dizer que sou auto-suficiente ou algo do tipo.

Claro que quero um companheiro pra vida toda ou até onde nos aturarmos. Filho eu já tenho. Cachorro também. Mas a conjuntura é outra, entende? Eu quero mais do que isso e foi por abarcar o mundo com os curtos braços que fiz um monte de burradas e me enchi de confiança sem ter criado nenhum tipo de alicerce para me sustentar.

Hoje, eu quero menos. Quero as coisas no seu tempo. Não quero mais sofrer pelo que não foi, pelo que deixei para trás, pelo que está lá morto e enterrado. Não quero mais paixões avassaladoras, quero só me apaixonar por tudo e por todos a cada momento, como curtir uma caminhada num final de tarde ou sentir um prazer supremo em ir ao cinema sozinha (adoro!).

Parece meio papo de mulher á beira de ataque de TPM, toda essa reflexão sobre passado e futuro, sobre insatisfação e expectativa. Mas sempre – e quem me conhece sabe disso – sempre mesmo fui movida a grande quedas, a crises de ansiedade e a insatisfação perene sobre eu e o mundo todo. Desisti de mudar o mundo, até porque vi o quanto o mundo me mudou nesse último ano.

Lembrei do início do filme “Muito gelo e dois dedos de água” agora. Deu-me vontade de contar pra vocês que um dia vocês todos vão ver minhas obras de arte, ler meus best sellers e ouvir minhas músicas, porque tudo que a vida tem me acontecido está aguçando a minha veia artística. Pois bem…

Não sei se ano que vem vou contar para vocês que tomei coragem e montei um portfólio com meus textos e saí oferecendo por aí minhas escritas, em redações de jornais, de porta em porta. Ou pode ser que até lá eu possa ter tido oportunidade para fazer aquele curso de fotografia que sempre sonhei. Ou que tenha dado continuidade nas três línguas estrangeiras que comecei e deixei lá de stand by.

Ou pode ser que esteja na Austrália, surfando (mesmo sem crer que há alguma possibilidade nessa vida d’eu ter coordenação motora suficiente para ficar em cima de uma prancha). Não sei… Pode ser que nada dê certo ou pode ser exatamente que nada pareça dar certo para que no final tudo pareça estar encaixando. O bom é que no auge dos meus vinte e poucos anos, eu descobri que pode… que TUDO pode e não vou mais abrir mão de ser feliz.

Portanto, feliz desaniversário para mim. É muito mais divertido pensar em cada um dos dias que compuseram esses anos todos do que avaliar hoje e só hoje. Vou continuar comemorando todos os dias por estar aqui, viva e em pé até porque é muito divertido ver as pessoas organizando uma festinha surpresa para mim pensando que eu não tô sacando nada….

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Meu maior medo é te ver partir. Maior de idade e de malas prontas na porta de nossa casa, dizendo “tchau, velha” e eu consentindo tudo isso. Meu bebê largando a barra da minha saia e me chamando de velha. Meu maior medo logo depois será tornar-me velharia em tua vida.

Mas sei que vou superar esse medo e substituí-lo por outro, o medo de que não estejas tongspbcomendo bem, limpando as orelhas direitinho, separando a roupa colorida da roupa branca na hora de lavar e me preocuparei se usas camisinha. De nada vai adiantar os gastos que tivemos com Johnson & Johnson, o truque que eu tinha para limpar tuas orelhas sem te fazer chorar e as roupinhas tão fofas e bem lavadas se entrares nessa brincadeira de roleta-russa que é transar sem camisinha hoje em dia. Não dá. Vou perder noites e noites de sono pensando se compras preservativo e de que marca.

Não tenho medo que engravides uma moça – eu disse “moça”? Tô ficando velha, meu Deus… – ainda novo. Vieste a minha vida como uma bênção e assim, tão de surpresa quanto um dia de sol com chuva. Foste presente planejado não por mim, mas por um plano maior, algo mais superior que esse sentimento que nutro por ti. Vieste mais para que eu aprenda do que para que eu ensine. Portanto, não temo pela gravidez na juventude.

Temo sim por milhões de coisas que quero que faças: as viagens de mochilão, de carona, à praia, com garotas, com amigos, com dinheiro, sem dinheiro, para fora do país, para o interior do Brasil. Receio por não viajares em si próprio por meio da leitura, das músicas, dos romances complicados, das terapias, das fotografias, das imagens belas e sujas que a vida, a vivência em si, nos fornece. Quero-te como uma esponja, absorvendo tudo que o mundo pode te oferecer.

Aí me vem o medo de que sejas tão cidadão do mundo que não voltes para o Natal, para o Círio, para a Páscoa, para o aniversário dos teus avós, para o meu aniversário. Tenho medo do que o mundo venha a te oferecer possa te afastar do que é teu por completo, que é o amor que todos nós dedicamos a ti desde que soubemos de tua vinda.

Se aquela revista para gestantes estava certa, ouviste direitinho quando li para ti O Pequeno Príncipe. Eu estava grávida de cinco meses e mexias e remexias na minha barriga. E quero que lembres da parte que diz que somos responsáveis por aquilo que cativamos. Sim, somos mesmo. Portanto, cative o bem. E só. O resto será automático, será conseqüência.

Um dia eu vou te ver grande e isso vai me doer, eu sei. Eu vou reclamar por nada e de tudo, porque me faltará assunto e também me faltará jeito para dizer o quanto te amo. Vou fazer piadinhas sem graça na frente das tuas namoradas e dos teus amigos porque vai me incomodar te ver me afastando do que é legal para ti. Disso eu também sei.

Mas me guarde sempre contigo, mantenha-me como um porto seguro. Desfaço todos os planos, tudo que puder eu faço, só para te ver feliz. Teu sorriso é luz branca, violeta e azul. Os meus olhos conseguem enxergar um arco-íris todo ao te ver e sentem da mesma forma. És o mais singelo significado de vida e força.

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Ela andava afoita pelo futuro. O presente não oferecia novidades, não a estimulava, nem com todas as mudanças dos últimos tempos: mudou do Sul para o Norte, mudou de faculdade, mudou o número do celular e naquele ímpeto de quem quer dar grandes reviravoltas, disse a si mesma que mudaria mais um pouco. Começou uma dieta, deixou o namorado e se jogou na vida bandida, decidiu a felicidade.

Mas aquela vontade de saber mais sobre o futuro a corroia. Porque era presa de alma. Não conseguia dar um passo a frente sem perguntar a dez mil pessoas antes o que deveria fazer e era inexoravelmente maniqueísta. Traçava seu plano maior se baseando no que os outros pensavam e no que era “certo”. E pelo andar da carruagem – porque naquela cabecinha de merda ainda existiam contos de fada com princesas da Disney, carruagens que chegavam à meia noite e amor eterno – tudo daria certo enquanto ela focasse seu viver na pseudo-certeza dos padrões pré-fabricados por outras pessoas.

Foi aí que decidiu cair no conto do vigário. Para saber algo (leia-se mentira ou sinônimos) sobre o futuro, pagava qualquer coisa. Foi num cara que jogava búzios e pagou R$50. E claro, de nada adiantou. Ela logo percebeu que uma criança de quatro anos de idade faria aquela leitura: quando os búzios caiam com a cavidade para cima, era “sim”. Quando era o inverso, a resposta era “não”. Ou seja, porra nenhuma sobre nada da merda de futuro que a aguardava. Depois de uma espera de horas a fio, saber que tudo que o cara mais fodasso no ramo da vidência em búzios conseguia ler sobre a sua vida era aquilo, deu mais raiva ainda.

Aí num impulso de extrema “inteligência”, daquelas inteligências de macaco amestrado para freak show, foi que chegou a Tia Maroca. Ah, que mal faria ir a ela? É apenas uma vidente-benzedeira. Nada demais por apenas R$25 a mais. Agora ia dar tudo certo.

Pensou várias vezes em ir embora, mas como esperar que alguém extremamente desesperado por saber se seu futuro será composto por uma grande paixão, um emprego multimilionário juntamente com um príncipe encantado que chegue num cavalo branco, seja sensato? Não há como.

Por isso, continuou remoendo seus sonhos impossíveis de hight society e esperou. Meia hora, uma hora inteira, uma hora e meia, duas horas … e finalmente, o fim da espera chegou depois de duas horas e meia de espera. Não tendo aproveitado nada de sua experiência anterior com o cara dos búzios, acreditou que aquela espera toda era um sinal de que a tal da Maroca era fogo na roupa, acertava tudo sobre tudo. Sentiu-se aliviada e pensou: “ – Agora vai.”

E foi. Só não sabia exatamente o que tinha sido. Ficou em dúvida se aquilo era piada ou pegadinha. Ela lavou a cara na pinga assim como a senhora carinhosamente ordenava – enquanto a chamava de “fia”. É tão mais aconchegante quando numa situação difícil, as mulheres deixam aflorar seu espírito maternal, não é mesmo?! – e ficou parada, tensa, enquanto a Tia Maroca baforava com vontade na sua cara e ao seu redor uma fétida fumaça de charuto de septuagésima categoria. A garota só pensava que logo, logo acabaria e brevemente aquela humilhação toda se pagaria. Ela saberia até quantos milhões teria na sua conta bancária conjunta com seu marido velho e multimilionário. Foi quando ouviu:

– Pronto, “fia”. Pode ir.
– Ir para onde?
– Ir… pode ir. Você já tá benzida e protegida, “fia”. São “vinte e cinco real” pra benzer, certo?
– Certo…

E para quem gostava sempre do certo, teve o que merecia. Pagou a grana e saiu de lá atrasada para a faculdade. No caminho, duas motos a perseguem e depois desse sarro que os orixás e oxalás tiraram com ela – ou ela mesma tirou consigo indo atrás do que vem a nós por seus próprios meios -, pensou que só podia ser assalto. Pisou fundo no acelerador e foi embora, furando o sinal que estava tão ou menos vermelho que sua cara de ódio da vidência e de si mesma.

Ela só não contava com que as motos fossem dois guardinhas de trânsito que a pediam para parar o carro. Foi nesse momento de “grande percepção” que resolveu fazer o que os ditos cujos pediam e pensou em rezar para alguém que inspirasse maior confiança do que búzios ou cachaça , mas não teve coragem.

Seria demais pedir a Nossa Senhora ou para alguma santa que a protegesse enquanto ainda estava impregnada com aquele odor de terreiro de macumba. Mesmo assim rezou: pediu com bastante veemência e resignação que, de alguma forma, os guardas de trânsito tivessem problemas de olfato e não sentissem a extravagante essência de caninha barata. Funcionou e bem melhor que seus neurônios, pelo jeito.

A partir daí, ela nunca mais procurou saber o que vai ter para o jantar ainda na hora do almoço. Decidiu pintar seu cabelo de outra cor e o cortou, temendo algum dia na vida ser reconhecida por qualquer pessoa que a tivesse encontrado no dia das tais missões adivinhatórias. Jogou fora as roupas que usou no fatídico dia e comprou um banho de ervas o qual disseram que é ótimo para tirar urucubaca de olho gordo. Como se pode ver, a menina operou grandessíssimas mudanças em sua vida.

Só não muda uma coisa: todo final de tarde, a bela garotinha de mais de vinte anos de idade se senta à janela na esperança de que apareça uma fada madrinha e a leve para fazer compras no shopping center mais “bombado” da cidade. Assim ela poderá jogar suas tranças e esperar seu príncipe encantado de idade avançada e um dote bem dotado resgata-la do caritó.

Ela senta à janela e espera… e continua esperando… pelo futuro.

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