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Posts Tagged ‘vazio’

Do lado de cá, da janela em que encostada estou, acendo um cigarro e dou um gole no café. Do outro lado – da rua, da realidade, do mundo – um operário ou O operário, pois eis que o imagino clássico em sua função: macacão azul, capacete amarelo, botas negras e luvas brancas. 2ae6b3628aa4430d808df727625d7dbd587121f3_m

Permaneço entre um cigarro e um gole de café (quente, quente) a olhar o carinha lá do alto de uma parafernália que não sei o nome. Uma cabine alta, cheia de braços e garras mecânicas, que o fazem mais parecer o próprio Doctor Octopus a favor da construção civil.

Ele lá tão alto e tão só. Eu aqui tão cheia de si e igualmente só. Não consigo parar de pensar que tipo de solidão se sente lá do alto que ele está. A minha é rasa, é mais cobra do que pássaro. É rente ao chão, é próxima a terra úmida. Ele sobe no vazio, o operário.

Eu mergulho nele, no vazio e no operário.

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Estranhamente vazia, complacente com o oco.

Não incomodada com um rascunho de texto ou esboço de sentimento.

Inabalável solidão.

ao som de [ You – Radiohead ]

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Um trecho

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(…)

Cada vez que me apertas contra teu peito, me sufocas e eu não consigo respirar. Cada vez que me apertas na palma da tua mão, como um punhado de areia, eu caio por entre as brechas aos poucos até que quando tu possas abrir só haja a sobra, só haja o um nada de areia que de nada te servirá. Um punhado que não serve nem para jogar em cima de um caixão antes da última despedida.

Eu ando tentando me consertar e abafar o que sou e ainda me entender no meio disso tudo. E com toda minha fraqueza posso te afirmar que não tem sido fácil e engulo toda dia uma pílula cujo único objetivo é fazer-me sentir bem. Mas continuo me sentindo vazia e tentando fazer com que isso passe num estalo de tempo, entre um cigarro e outro. Sem muito sucesso, confesso.

(…)

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Abri os olhos devagar e pensei que faltava e assim começou meu dia. Senti falta de um afago, de virar para o lado espreguiçando e te acordar sem querer. A ausência maior que senti foi a de te querer daquele jeito de quem acabou de acordar, do corpo quente, do beijo mais por instinto do que por desejo.

81f0eb5f71dd92f97f0317e33f3b494295ab68bf_mMas aos poucos a ausência foi se tornando só minha. Minha dor fina, uma sintonia com a noite passada. Porque eu sabia, como ainda sei que essa qualquer coisa que eu sinto é quase que mentira inventada. É como um vazio para tapar o oco.

Então, eu acordei e a sensação continuou, briga interna. Maldito querer sem sentido, aquieta! Quero-te perto o tanto quanto te quero longe porque me fazes mal. Esse frio no estômago me faz mal, essa vontade de ouvir Gram, de ouvir aquela última música do Chico Buarque que a gente ouviu ontem, de passar o dia deitada curtindo essa nostalgia melancólica que me põe cara a cara com a saudade do que não foi, do que poderia ter sido.

E me dá raiva porque quero. Não quero te querer. Quero te ignorar. E durante alguns minutos eu quase te ignoro, eu quase te cuspo de mim, quase expurgo esse todo bem querer sem razão de ser.

Minha montanha russa particular. É assim que te sinto. Sinto-te subindo e descendo da minha garganta. Sinto meu estômago dando loopings cada vez que vez que atendo o celular, cada vez que te aproximas e cada vez que eu me aproximo de ti, eu quase morro durante um segundo. Minha cabeça quase explode de medo, de tensão, de alegria, de adrenalina.

Mas eis que o dia passa todo assim, com uma trilha sonora particular, com imagens que só eu guardo – e isso me dói, é isso que me causa raiva, só eu guardo. Rua de mão única.

De repente de um todo se fez nada, o sentimento acordou, perdurou, durou e morreu. Durou o mesmo tanto de horas que um dia dura. Um dia com nascer e pôr do sol. Um dia inteiro, uma mentira inteira que morre junto com a noite.

Minha paixão inventada nada mais é do que inquietude. Minha mania de te pedir carinho é só para curar uma carência que não é de ti, é de paixão possível. Então eu invento que quero, invento que gosto, nos dou uma trilha sonora, te dou minhas verdades e minhas mentiras só para não precisar jogar fora essa qualquer coisa que é sentir-se bem e mal, ao mesmo tempo.

Chega o final inevitável da minha montanha russa. As músicas já não têm mais a tua cara, nem os romances são mais bonitos aos meus olhos, eles se tornam chatos e banais. Tão chatos quanto tu. Tão banais quanto o meu dia correndo a esperar tua ligação. Tão bobos quanto eu querendo sentir teu cheiro.

E deito minha cabeça no travesseiro e a cama que antes parecia vazia, tem o tamanho exato do meu corpo, do meu sono. Deito nela e penso que amanhã começa tudo de novo. Minha montanha-russa particular me dá trégua até tua próxima ligação.

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