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Archive for fevereiro \17\UTC 2009

Do lado de cá, da janela em que encostada estou, acendo um cigarro e dou um gole no café. Do outro lado – da rua, da realidade, do mundo – um operário ou O operário, pois eis que o imagino clássico em sua função: macacão azul, capacete amarelo, botas negras e luvas brancas. 2ae6b3628aa4430d808df727625d7dbd587121f3_m

Permaneço entre um cigarro e um gole de café (quente, quente) a olhar o carinha lá do alto de uma parafernália que não sei o nome. Uma cabine alta, cheia de braços e garras mecânicas, que o fazem mais parecer o próprio Doctor Octopus a favor da construção civil.

Ele lá tão alto e tão só. Eu aqui tão cheia de si e igualmente só. Não consigo parar de pensar que tipo de solidão se sente lá do alto que ele está. A minha é rasa, é mais cobra do que pássaro. É rente ao chão, é próxima a terra úmida. Ele sobe no vazio, o operário.

Eu mergulho nele, no vazio e no operário.

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impertubavel5

Estranhamente vazia, complacente com o oco.

Não incomodada com um rascunho de texto ou esboço de sentimento.

Inabalável solidão.

ao som de [ You – Radiohead ]

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Ele a via chegar sempre como quem está atrasada. Ella. Esse nome era assim tão simples e categórico para o que Ella era. Ah, que mulher, ele suspirava. E chegava sem olhar para nada ou olhando tudo como se nada fosse interessante. E nada era depois que ela entrava. Muitos também deviam suspirar como ele “Ah, que mulher Ella…”.

byro_02Ele olhava do outro lado da sala ela adentrar, atento, com o coração quase na boca, pronto para dizer qualquer coisa como “vamos dar um passeio ou um chopp depois do expediente, quem sabe”, mas permanecia inerte. Ella pouco se interessaria no que ele diria porque gaguejaria e lhe suariam as mãos. Talvez a pressão baixasse, a asma surgisse e de supetão, ele puxaria a bombinha do bolso da camisa antes mesmo de dizer “oi”.

Ella usava sempre roupas pretas e entre um cafezinho e outro, na copa da empresa, ele já ouvira os outros dizerem que tinha um ar sinistro, que fumava e era monossilábica. Mas ah, que mulher misteriosa… Fazia surgir ciúme das outras funcionárias, tinha uma postura que era só sua. O jeito que abaixava para pegar um memorando que caia, a forma como apontava o lápis e divagava olhando para tela do computador. Ah, se ele pudesse…

Foi numa segunda-feira que se armou de coragem e decidiu: passaria e ultrapassaria o limite de Ella. Não poderia ser pior do que já era viver de vontade, imaginá-la fazendo coisas simples, como arrumar a casa ou prostrada por uma gripe. Enfim, coisas de gente apaixonada imaginar situações assim.

Enamorado pelo dia seguinte, dormiu agarrado no despertador e com o livro de Neruda longe da cama. O livro era velho e poderia lhe causar espirros por conta de uma alergia que bem conhecia desde a infância. Mulheres gostavam de poesia, de flores, de romantismo. Então, a conquistaria assim: com uma rosa a mão e um verso no ato. A Dança, de Pablo Neruda.

Adormeceu decorando a tal Dança:

– Te amo como a planta que não floresce e leva, leva… hum… dentro de mim. Não, droga. É dentro de si, dentro de si, seu estúpido, estúpido – repetia como autoflagelação.

E então respirava fundo, limpava a testa com um lencinho que estava sempre a tiracolo no bolso e retomava a sabatina de si mesmo:

– Te amo como a planta que não floresce e leva
dentro de si, oculta, a luz daquelas flores,
e graças a teu amor vive escuro em meu corpo
o apertado aroma que ascender da terra.

Foi então que ficou aliviado.

No dia seguinte, não conseguiu nem tomar café. Acordou com o estômago em brasa e um riso solto sem motivo. Até esqueceu-se da bombinha, do agasalho para caso o tempo esfriasse, da sua caneta da sorte que poderia ser tão importante naquele momento. O melhor momento de sua vida.

As tarefas mais corriqueiras pareciam ter um brilho diferente, pois ao final do dia ele teria sua recompensa. Todos os memorandos saíram com um ar de carta de amor e a Dança de Neruda bailava em sua cabeça. Ele permaneceu o dia todo rabiscando palavras soltas – flores, dentro de si, alma – nos cantos das folhas de papel.

Mais precisamente ás 17:25 h foi chamado para uma reunião. Um medo monstruoso o invadiu e fez com que sua úlcera mostrasse a seu corpo para que veio ao mundo. A dor era horrenda, mas pior ainda era a possibilidade de Ella sair da empresa antes que o tormento corporativo acabasse.

Não queria saber da crise que o país enfrentava – que vá para o inferno a crise – e que bla bla bla mais chato era ouvir tanto papo furado sobre contenção de despesas, corte na equipe por motivos maiores e que sentiam muito. Ah, martírio era amar tanto aquela mulher. Ah, que mulher… Saiu da sala sem entender nada sobre o que se passava e pouco se apercebeu quando a gerente do RH disse a ele para comparecer em sua sala para “acertar as contas”.

Saiu esbaforido da sala, suando feito um porco, óculos embaçado e a tal Dança sendo repetida bem baixinho:

– “Graças a teu amor vive escuro em meu corpo o apertado aroma que ascender da terra…”

Chegando a sala, nada de Ella. Ela havia ido embora, levado sua graça para outro lugar e ele, ali, perdido, com cólica, falta de ar, suadeira, pressão baixa e o tique nervoso, que tanto o atormentava, mais acentuado do que nunca. Até seus pensamentos gaguejavam. Tomado por uma fúria nunca antes conhecida pelo seu corpo e por sua alma, saiu da sala correndo.

Desceu pelas escadas para ser mais rápido e a cada lance, sentia-se irremediavelmente mais perto de sua amada. Ah, que mulher eu terei, pensava o apaixonado. Ah, que lindo será o destino que nos aguarda, Ella; dizia ele mentalmente.

Chegando ao hall do prédio, nenhum sinal dela. Avançou para a calçada e a avistou ao longe, de seu lado direito. Ella andando leve e displicente. Teve que parar durante cinco segundos para arrumar o rosto e recolocar os óculos no alto do nariz, empurrando com o dedo indicador. O cabelo também merecia um grau: cada uma das mãos era responsável por deslizar, da raiz até as pontas, sobre o penteado meticulosamente feito com gel e repartido para o lado esquerdo.

Andava apressadamente por entre as pessoas que não entendiam nada. Ainda assim, com toda pressa, ele muito educado, pedia licença e perdão a cada esbarrada que dava. Viu-a atravessar a rua e gritou desesperado:

– Eeeeeeeeellaaaaaaaaaaaa…

Num ímpeto de momento, enquanto ela já atingia a outra calçada, ele arvorou-se em direção ao asfalto. Um Corsa ano 2007, de cor preta, placa JT3852, com uma mulher ao volante, atropelou o pobre nerd que só então percebeu que a vagabunda gótica estava com fones de ouvido. Que caralho de puta autista era aquela que conseguia nem olhar pro lado enquanto andava? Merda. E ainda estava desempregado. Puta-que pariu. Essa vida é uma merda mesmo!

Fim.

Moral da história: o amor é uma piada onde quem ama, sempre se fode no final.

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Ando sem a menor das inspirações pra escrever. Até que tento, no cantinho, depois de ler um conto fantástico de outrem, me forço, reforço e nada. Engraçado como nada flui, não do jeito que eu acho que deva ser. A culpa – quem diria? – tem um culpado. Meu pacto de não escrever nada negativo. Firmei comigo mesma, sei lá, um modo de exercer a positividade e mudar o foco dos meus textos.

A partir daí, o fim se deu. Quer dizer, não se deu. Toda e qualquer história criada por mim ficou pela metade. Nasceu, cresceu e ficou por ali mesmo em menos de mil toques. É difícil ser autora de uma obra nada venenosa, sem sequer um pingo de melancolia ou, sei lá, aborrecimentos diários e ironias cotidianas.

Fiquei pensando no meu papel de quem escreve, mesmo que asneiras e coisas minhas e apenas pra mim. Sou egoísta, não consigo pensar nos meus leitores e sequer me preocupar com o que eles vão achar. Crio um espaço que querendo ou não é público, apenas para de alguma forma deixar as minhas frustrações e críticas percorrerem horizontes que vão além dessa minha cuca loira.

Agora eu vivo uma fase de pouca profundidade, sabe? Nada de mergulhar fundo na maré das inquietudes humanas. Ando sem saco pra ter reflexões de qualquer tipo. Tudo anda tão bem de um jeito tão simples que isso simplesmente repercutiu em tudo o que toco: lápis, papel, amigos, família, dinheiro, cama, panela, cachorro. Tudo. Gosto mais de ver seriado até dormir ou comer um miojo no jantar [voltei a achar macarrão instantâneo comida de gente fora de situações de risco].

Será que a felicidade me tira toda a vontade de contar a minha história pro mundo? Será que eu só sei escrever quando o coração aperta e o mundo explode?

Eu não quero, cara, parar de escrever. Por isso pensei em escrever justamente sobre essa questão. É negativo? Nem sei dosar.

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