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Archive for the ‘Anna Carla’ Category

Apenas calada

Cansei de falar, falar, falar… Já começo a duvidar se realmente falar de tudo o que se sente vale mesmo a pena. Demorei muito tempo pra poder ter a coragem de dizer tudo o que eu acho, penso e sou. Principalmente quando estou com raiva. Era daquelas que ficava caladinha, fazendo bico. A cara feia sempre foi bem interpretada como ódio, mas o motivo, pra tirar de mim, era uma verdadeira ginástica mental.

Cresci ouvindo das pessoas que passavam por essas situações que isso era errado. Era preciso colocar pra fora, resolver o que tiver de ser resolvido, não deixar as coisas mal-resolvidas. E então eu fui exercitando o lado prático da coisa, dando um gelo ali, falando um pouquinho aqui, até que o meu orgulho pudesse ser deixado de lado e eu realmente começasse a falar.

Agora, depois de anos, quando fico puta, eu falo. E falo pra caralho mesmo, boto tudo pra fora. Esculhambo, brigo, digo que estou me sentindo assim e assado. Com o passar dos tempos, adivinha o que eu virei? Chata e cheia de cobranças. Pra quê, cara?! Pra que as coisas pudessem se resolver? Creio que não.

Adoto uma nova postura antiga simplesmente por não ter mais paciência de falar. E me sentir chata. Ou falarem que eu gosto de cobrar dos outros. É muito melhor ficar calada, afastar as coisas e pessoas que te deixam com ódio e fim. Se por acaso quiserem saber o motivo da raiva – que na minha opinião é fácil de descobrir, já que todo mundo sabe o que faz – que se virem! Eu é que não vou ficar além de puta ainda me trocando com os outros.

Mode blasé, on! Fazendo a egípcia.

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Mudanças

“Eu não escrevo aquilo que quero, eu escrevo aquilo que sou”. (C. Lispector)

Mesmo não sabendo direito quem sou só consigo escrever o que sai de mim como aquele berro explosivo de quem está perdendo as estribeiras. Ando pensando bastante em como costumo mudar perto dos outros. Pra cada pessoa costumo ter um tipo de reação, é como se eu conseguisse me moldar conforme a moldura. Estranho.

Sou diferente a cada tipo de relação, independente do tipo. Posso ser a pessoa mais chata e mais legal do mundo ao mesmo tempo. Não sou muito de reclamar, mas perto de alguns viro uma verdadeira máquina de piti. E, sério, não acho que a culpa seja totalmente minha, não. Acredito que as pessoas se tratam como devem se tratar e que é impossível existir um comportamento igual para todos. No máximo, colocamos no automático e nos comportamos de maneira padrão, e talvez isso seja a nossa essência ou o teatro que já estamos cansados de encenar. Não sei.

Tenho medo de quem realmente eu possa ser. Minto. Na verdade eu tenho medo do que as pessoas possam me tornar. Algumas me tiram do sério e me deixam fazer coisas que nunca imaginei ser capaz.

Encontro defeitos que em décadas nunca pensei em ter. Será que são defeitos mesmo? Até que ponto precisamos nos moldar pelos outros? Até que ponto não é melhor esquecer toda aquela psicologia de que é conversando que nos entendemos e dizer que eu não vou mudar e ponto. Não me incomodo de ser assim, não faço mal a ninguém, porque deveria mudar então?

Não sei até que ponto estou sendo completamente ignorante ou flexível demais com a opinião dos outros. Isso me faz pensar, irritar, confundir. Na verdade, a grande pergunta é pra quê? Pra satisfazer a vontade dos outros, evitar certos atritos quando nem se sabe se é concordável esse tal grande defeito?

Termino com o que comecei. A própria C. Lispector conseguiu concluir meus pensamentos.

“Quando a gente começa a se perguntar: para quê? então as coisas não vão bem. E eu estou me perguntando para quê. Mas bem sei que é apenas ‘por enquanto’.”

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Ando sem a menor das inspirações pra escrever. Até que tento, no cantinho, depois de ler um conto fantástico de outrem, me forço, reforço e nada. Engraçado como nada flui, não do jeito que eu acho que deva ser. A culpa – quem diria? – tem um culpado. Meu pacto de não escrever nada negativo. Firmei comigo mesma, sei lá, um modo de exercer a positividade e mudar o foco dos meus textos.

A partir daí, o fim se deu. Quer dizer, não se deu. Toda e qualquer história criada por mim ficou pela metade. Nasceu, cresceu e ficou por ali mesmo em menos de mil toques. É difícil ser autora de uma obra nada venenosa, sem sequer um pingo de melancolia ou, sei lá, aborrecimentos diários e ironias cotidianas.

Fiquei pensando no meu papel de quem escreve, mesmo que asneiras e coisas minhas e apenas pra mim. Sou egoísta, não consigo pensar nos meus leitores e sequer me preocupar com o que eles vão achar. Crio um espaço que querendo ou não é público, apenas para de alguma forma deixar as minhas frustrações e críticas percorrerem horizontes que vão além dessa minha cuca loira.

Agora eu vivo uma fase de pouca profundidade, sabe? Nada de mergulhar fundo na maré das inquietudes humanas. Ando sem saco pra ter reflexões de qualquer tipo. Tudo anda tão bem de um jeito tão simples que isso simplesmente repercutiu em tudo o que toco: lápis, papel, amigos, família, dinheiro, cama, panela, cachorro. Tudo. Gosto mais de ver seriado até dormir ou comer um miojo no jantar [voltei a achar macarrão instantâneo comida de gente fora de situações de risco].

Será que a felicidade me tira toda a vontade de contar a minha história pro mundo? Será que eu só sei escrever quando o coração aperta e o mundo explode?

Eu não quero, cara, parar de escrever. Por isso pensei em escrever justamente sobre essa questão. É negativo? Nem sei dosar.

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Balanço 2008

Esta é a época de divulgar o balanço dos últimos doze meses. Da Federação Internacional das Indústrias até a peixaria do seu Zé, todos acabam trocando um momento de distração por lápis, bloquinho de contas e calculadora. Até mesmo os mais desorganizados e desprendidos desse costume tiram uns minutinhos para avaliar o saldo do ano que vai embora. Se positivo, enchem a cara no dia para comemorar. Se negativo, compram uma grade para afogar as mágoas.

 

        Quanto a mim, posso dizer que reclamei. Foi um ano de muitos protestos, teorias e reflexões sobre a vida. Momentos de revolta, pouca tristeza, mas muita inquietude. Foi o ano que o desespero chegou, “quero tudo: dinheiro, emprego legal, tempo pra descontrair com os amigos, vida amorosa estável, baladas de sábado com a roupa da vitrine, ajudar os velhinhos desabrigados, estudar outra língua, visitar um lugar diferente, conhecer pessoas novas, viver, viver, viver”.

 

        Tinha uma sede incontrolável ao pote, por isso batia o pé, eu queria tudo, e queria já, agora, rápido que time is money, is honey, is one day more close to death. Passei o ano com o coração agoniado. Eu queria correr, subir todos os degraus, ter histórias pra contar. Dei uma de mimada e ponto. Por ironia, quanto mais rápido eu me articulava, mais me sentia presa, empacada.

 

        Comecei por sair quase todos os dias da semana. Eu tinha dinheiro, um emprego que adorava, o que não me fazia perder a responsabilidade e me tirava a dor na consciência. Entre uma cerveja e outra, conheci pessoas novas, aprofundei antigas amizades e ouvi histórias surreais. Eu tinha a sensação de cada vez mais conhecer a vida de perto, apesar de viver a minha de longe.

 

        Foram momentos felizes e inesquecíveis que, sem dúvida, me fizeram crescer. Mas era preciso arranjar alguma fórmula mágica pra tentar apagar essa ansiedade maluca que eu tinha de sempre querer mais e não ter paciência de esperar a concretização dos meus sonhos.

 

        Pois então que sai de mim e tomei certas atitudes que não considerava do meu feitio. Nada grave, aos olhos de outrem. Me perdi pra poder me achar depois. Procurei em rezas, livros e lugares saber até onde eu era capaz de chegar, o que de fato eu tanto almejava? Foi difícil, complicado, sofrido, cheio de uma falta de paz de espírito.  

 

        Mas eu me encontrei, sim. No final do ano, admito. E gostei do que pude ver. Tanto abstrato se transformou em construção. Hoje prefiro colocar o tijolo do que querer o muro feito. Não é fácil não, gente. Não serei piegas ao ponto de dizer que no fim das contas encontrei a felicidade plena para sempre – até porque ela não existe.

 

Porém, dizer que o ano foi negativo é renegar a minha evolução. Adquiri conquistas impagáveis, perdi outras guerras. Comerei as uvas da virada com outras muitas dúvidas, vontades de mudar e uma esperança renovada.

 

A diferença, no entanto, faz toda a diferença: o coração está tranqüilo e manso como uma bênção. 

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Sensível

Essa sensibilidade que tantas vezes eu odeio e teimo em arrancá-la de mim como se arranca uma parte do braço. Não adianta, fará falta. O que seria de mim sem ela?

 

É um membro importante, que às vezes inflama como um joelho com ligamento rompido. Se arrancar, nunca mais poderei caminhar pelos campos do tempo com tanta facilidade. Correr então, seria tropeçar na primeira pedra com uma velocidade que de tão baixa me irritaria.

 

Já disse, não adianta. É assim. Simples e claro como achar água de igarapé gelada. É só entrar e sentir, sem mistério e mais complicações.

 

Essa sensibilidade que me faz ver e entender melhor as pessoas, me faz tantas vezes sair do chão para poder tocar as estrelas.

 

De entender frases no olhar daqueles que amo e de poder filtrar todos os momentos que eu achei que não fariam a menor falta, mas que inundam o coração de saudade.

 

Inundam porque tiveram dias e dias que esse lado esquerdo apertou tanto que minha garganta dava nó. Vejam só, sensível do jeito que sou, não dava outra.

 

Porém, essa mesma sensibilidade que me fez compor tristes fatos de choro em vão, é a mesma que lavou minha alma e me fez nascer de novo. Agora mais forte, mais feliz e com saudade.

 

Vejo as minhas antigas fotos e sinto saudade. Daqueles dias que eu ainda não entendia o desenrolar das tramas, do cabelo de cor oposta.

 

Sinto a minha falta.

 

Era outra. Mais infantil, imatura, porém não menos eu. Cheia de sonhos e louca pra saber quais as surpresas da estrada.

 

Quer saber? Quem disse que não continuo ela? Dessa vez com uma imaturidade manifestada de outra maneira. Quem vive à flor da pele não tem como deixar de ser criança.

 

Mas o que importa? O passado ruim escorreu por entre os meus pés e entrou na terra. Nasceram apenas boas lembranças no lugar.

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Os sinos

Meio dia de dezembro. Não acho que o clima seja natalino, mas um clima existe, é fato, é bom. O calor me sufocaria se eu não estivesse saído do ar condicionado. É só um quarteirão até meu carro, não cansa, não faz calor. Pelo contrário, faz-me um agrado, tira o frio, faz voltar à vida. O mesmo guardador de carros, parado na mesma esquina. O céu azul, o sino agitado da igreja da mesma esquina do flanelinha. Sempre toca ao meio dia, meio querendo avisar que existem demônios no chão quando estamos nas nuvens. Quando não estamos, nos faz olhar pro céu. Os sinos sempre nos levam a algum lugar.

 

Coloco os meus óculos escuros assim que saio porque tenho mania de achar que estou sendo filmada. Vai saber? Que nem em Hollywood, naquelas cenas de comédia romântica onde tudo pode acontecer durante as míseras duas horas do almoço. Eu reflito sobre o meu absurdo, “Como assim, filme, cara?”, duas horas mal dá pra colocar um prato médio de salada na barriga e um banho de português, isso porque eu moro a cinco minutos do trabalho.

 

Mesmo assim eu gosto de imaginar que em algum lugar do Universo alguém filma meus passos, nem que seja mentalmente. Alguém deve nos acompanhar, não é possível. Algum ser superior, espiritual, alienígena ou microscópico deve anotar tudo o que fazemos. Será que ele sabe das minhas canções trancadas no quarto? Das perseguições silenciosas em minha cama? Parou. Não gostei desses pensamentos, constrangedor.

 

Meu coração está tranqüilo. Não sei se é porque todo toque de sinos nos transmite certas vibrações, sol de meio dia, clima de sexta-feira. Alguma felicidade sem explicação. Eu me sinto feliz. Uma alegria que se tivesse algum nexo talvez não fosse tão grande. Será de mentirinha? O que me importa? Eu a sinto e a suplico permanência. Pego-me sorrindo pro nada pelo vidro peliculado do carro. Daria uma cena e tanto.

 

A verdade é que eu amo. Amo você, o céu azul, o trajeto das coisas, as minhas antigas frustrações, os frutos que plantei, as glórias que colhi, as guerras contra mim, contra todos, tudo, eu amo. Eu nunca pareci fazer tanto sentido. Não existem explicações, existe só o sentido certo do caminho que eu não sei onde vai dar. O tal do coração aquece tanto que eu tenho vontade de chorar, de ligar e dizer para as minhas pessoas especiais que elas são as minhas pessoas especiais.

 

Eu amo, cara. Do que tenho que reclamar? Amar dói pra caralho, magoa pra porra, me faz perder o que mais tenho medo: o tal do meu orgulho e o meu alto patamar imaginário. Quanta bobagem, necessidade de auto-afirmação. Mesmo assim eu tenho medo, fala sério, não quero sair de lesa pra ninguém. Amar é foda porque eu passo horas rezando pra que todas as pessoas que eu amo continuem vivas. E eu sempre me esqueço de um e acho que cometi uma injustiça. E rezo dobrado pro excluído para compensar. E mesmo assim eu tenho um medo da porra de ficar longe. Admito: sou dependente.

 

O tal do amor me transforma em piegas, cara, o sol ta mais azul que o normal. É porque amo. E eu vejo um passarinho em cima de um parapeito pichado e acho isso o máximo. Sou babacona mesmo. Dessas de cartinha, declarações em momentos inoportunos, surpresinhas. Faço um bando de coisa tosca. Besta pra caramba. Meio fantoche, complicado de dizer não. Mas prefiro dizer nada, fingir que não sou nada disso. É meu grande segredo.

 

Quer saber? Eu amo mesmo é ser assim.

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Por Anna Carla Ribeiro*

Ele tem o dom de passar a ponta o lápis na minha nuca esbranquiçada. Sempre percorre pouco menos de cinco centímetros, da esquerda para a direita. Passa por todos os fios do meu cabelo e depois volta pelo mesmo caminho, como quem faz caligrafia. Eu automaticamente paraliso. E me arrepio. E viro um gato domado. Mansa, mansa.
Vou começar do começo.
Foi a primeira vez que eu vi alguém de calça marrom fora do ensino médio. Ele se aproximou, disse que me amava com os olhos, e eu respondi com a sobrancelha direita levantada “Porque diabos tu tens uma calça marrom?”. Ele deve ter se achado bem interpretado, pois quase fez minha cintura perder dez centímetros com aquele abraço. Nenhuma palavra. Só o barulho dos estalos da minha coluna.
Durou pouco mais de dois minutos, tempo suficiente para tocar a saideira. Não pude ouvir. Minhas mãos o levaram para longe, meio metro, e meu rosto enrugado berrou incontrolavelmente.
_ Eu to cansada, sabia?! Você, sua calça marrom, chegam aqui do nada e acham o quê? Que vão conseguir algo mais do que beijinhos? Escute aqui, ô chocolate ambulante, não vou mais ser subestimada. Eu sou perita em práticas canalhas e ainda faço dependência em “Fuja dos Conquistadores Gratuitos”, sempre mais em conta do que os baratos.
Sorriu. Me mostrou toda a sua arcada dentária como se eu estivesse à procura de um canal. Tive vontade de depilar todos os pêlos do seu corpo com cera fria, incluindo aquele cabelo fininho e caído na testa. Foi quando ele tocou na minha franja. E eu virei estátua. Parei de pensar, de ouvir, de ter qualquer expressão. Minha sensibilidade se resumia aos leves toques do seu indicador, revezados com o polegar, da esquerda para a direita.
Foi aí que tudo se perdeu e se achou, simultaneamente. Achei a cura dos meus berros, das minhas dívidas, das minhas dúvidas. Que se dane o banco, o trânsito, a dor no peito, os conselheiros, as éticas, as experiências alheias e as minhas convivências frustradas. Que se foda os hinos, as cartomantes, as esmeraldas, os signos, os astros, a praia, a lua, os maias, incas e tupiniquins. Que se exploda até mesmo aquela calça marrom. Perdi a sanidade, a vontade própria, o controle. Vai, agora pode me levar. Para minha casa, para tua casa, para tua vida. Ou para marte, para o carro, para a padaria. Que diferença faz?
Ele me levou para casa, a minha. Sua pupila esquerda me contou que viajou recentemente para Budapeste e que estava à procura de novas melodias de blues. Nenhuma palavra. Minha pálpebra tentou, sem sucesso, me fazer ficar invisível. E ele ria. E eu tinha medo de chorar.
E entrou na minha vida como a bailarina entra no palco, tomando conta de todo o espetáculo. E me fez assistir de camarote a minha própria adestração. E mudou os meus assuntos, minhas pautas, meu jeito de andar pelas ruas. E não importa mais nem mesmo o inferno enquanto eu puder, no fim do dia, esquecer até mesmo de mim ao debruçar a minha cabeça nos seus joelhos. E então finalmente ele irá tocar levemente na minha nuca, da esquerda para a direita. E no final de cada show, eu levanto e bato palma.

* Texto publicado em janeiro de 2008

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