Feeds:
Posts
Comentários

Archive for junho \27\UTC 2008

Por Aimée

Ela chegou voando e como é de seu costume, se instalou no canto que queria. Eu simplesmente fui me adaptando a ela. Primeiro, deixei de passar para o lado direito do meu quarto, que era o cantinho dela. Bem, até quando eu ainda desse conta de entrar no quarto, ainda rolava da gente conviver pacificamente.

Durante o dia, enquanto eu estava no trabalho, ela nem dava as caras ao mundo e muito menos a mim, o que me deixava numa inquietude estranha. Não saber onde ela estava me causava calafrios. “Meu Deus, por onde ela andará? Será que num belo dia vou chegar e encontrá-la mortinha da silva, em cima da minha cama, no tapete do banheiro, jogada num canto qualquer do chão??? Oh, céus!”.

E seguimos essa rotina de só nos vermos a noite. Ela, sempre me causava susto quando adentrava o mesmo recinto que eu estava e por sua vez, eu morria de medo de denunciar que ela estava lá, escondida em meio as minhas coisas, ao meu quarto. Me contaram uma vez que, para o Budismo, as almas menos evoluídas voltam como insetos. Desde esse dia, tenho medo de matar formigas, abelhas e pernilongos. Valha-me Deus, já pensou o caos no Cosmo que eu causaria? Até hoje, olho para uma formiga carregando uma migalha qualquer e penso que esse é o meu futuro se eu não respeitar as bichinhas.

Pois bem, eu estava sem saída. Não tinha nem para quem contar que agora eu tinha hóspede, ou sei lá como eu poderia chamar aquela barata voadora que andava pelo meu quarto. No início, não passava de uma simples barata. Depois, saquei qual era a dela: voadora! Aquela merda de espírito não-evoluído encarnado numa barata queria planar vôo em meio ao meu ambiente de descanso. Um verdadeiro absurdo.

Teríamos que fazer um trato. O lado direito era dela, tudo bem. Essa podia ser uma cláusula nossa. Mas aí eu exigiria uma noite de sono tranqüila, sem que ela aparecesse do nada enquanto eu estivesse vendo tv. Será que aquele bicho não era nada do que eu pensava? De repente, na verdade, “ela” poderia ser “ele”… Ele, o Barato. Ele poderia ser uma pessoa que virou uma barata. Kafka! Sim, a tal Metamorfose de Kafka.

Pensei muito. Refleti profundamente sobre todas as causas dos insetos existirem e além do Franz (Kafka) lembrei também da Mira Sorvino. Como era mesmo o nome do filme? Hum… acho que Mutação ou algo assim. Sei que a pesquisadora de insetos interpretada pela loira caia numa arapuca das baratas, no esgoto de Nova Iorque. Não, você não leu mal. A arapuca era das baratas. Elas, simplesmente passaram por tantas mutações e devem ter comido muitos alimentos transgênicos, com agrotóxicos ou muito feijão quando crianças, que acabaram por crescer um bocado e cheias de vontade de (literalmente) dominar a tal Big Apple.

Metamorfose! Assim eu a chamei. O que faria eu com Metamorfose, a barata que tinha se tornado minha colega de quarto? O Budismo e o Kafka me fizeram ter medo de matá-la. E eu não via mais como conviver pacificamente com aquele ser. Eu já dormia sobressaltada. Virava na cama e ouvia o bater de suas frágeis asinhas pelo nosso quarto, mas não a enxergava. A danada era esperta. Provavelmente, Metamorfose enxergava o vidro sombrio de Raid que permanecia no nosso criado mudo. É difícil trazer paz para uma relação onde não há confiança mútua. Muito complicado mesmo.

Não posso dizer que não operei grandes mudanças na minha vida depois que Metamorfose e eu passamos a conviver. Eu simplesmente deixei de comer no quarto e sequer na cama. Nem pensar! Passei a não deixar copos d’água ao lado da cama para que a barata não morresse afogada. Era preferível que eu morresse de sede do que correr o risco de pegar um copo de água e sentir coceirinhas na boca, não é? Escovo sempre os dentes antes de dormir e lavo as mãos agora, afinal se me lembrei de Buda, Franz Kafka e Mira Sorvino, porque deixaria de lembrar dos conselhos que minha vózinha me dava sobre as baratas: “Escova os dentes e lava as mãos antes de dormir senão elas vêm te roer”.

Bem, agora já tendo conseguido sugar da minha relação com Metamorfose tudo de bom que ela poderia me oferecer, enfim, chegou a hora do adeus. Tento não lembrar com tanto afinco desse dia, mas tenho quase certeza que eu estava de TPM e o pior, me dói saber que “Metax” – como carinhosamente a apelidei – não tinha nada a ver com meus hormônios. Mas enfim, a hora chegou: cheguei em casa, cansada, entrei no quarto e lá estava ela, ou ele. Na minha cama com uma outra barata, ou um outro barato. Não sei, não olhei direito. Agi totalmente por impulso e nem cogitei a possibilidade daquilo me acarretar problemas espirituais.

Que desplante aquele ser ínfimo, aliás, AQUELES seres ínfimos (no plural!) abusarem da minha cama. Não conseguia tirar da minha cabeça quantas inúmeras vezes aquilo possivelmente já deveria ter acontecido. Poxa, ela não estava satisfeita em tomar conta do meu espaço, do meu medo? Não estavam mais sendo suficientes as minhas migalhas a ela? Provavelmente, não.

Sem raciocinar, peguei o inseticida e vi a morte daqueles seres profanos chamados baratas voadoras. Até hoje, me dói pensar em quão sofrida foi a tortura, a morte lenta que Metamorfose teve. Ás vezes, me pego pensando se o que me aguarda é esse inferno dos seres não-evoluídos que ainda tiveram o desprazer – ou no meu caso, o impulso – de matar outros seres menos evoluídos ainda. Sabe Deus e talvez nem Ele saiba o que será de mim. Só sei que foi assim. Ponto final. Tchau, Metamorfose.

Read Full Post »

Que isso?
1) É o tio João pegando a julieta no flagra?
2)Bem, mas ele é um anão?
3)Então é um cafetão e essa aí é a querida Neve escondendo o serviço debaixo da cama.
4)Ou é um Cartaz do novo filme da Wall Disney, com Catherine Zeta Jones, estreando em “Branca de neve e o Cabaré Afrodisíaco dos 7 anões” ?

Não não não, é a Campanha publicitária da Melissa do Primavera/ Verão 2008, para a nova linha de sapatos baseado em quatro contos de fadas: Cinderela, Branca de Neve, Rapunzel e Chapeuzinho Vermelho.

Você agora está se perguntando, nossa…que sacanagem! O que é isso? A Branca de neve de lingerie e o príncipe encantado debaixo da cama? Que pouca vergonha! É, é isso mesmo que você está vendo e interpretando!

Que safadinhos! Eu sempre achei que a Branca de Neve era uma danadinha, por trás de toda aquela pele alva e aquela carinha de comportadinha.

“E a História é baseada na clássica e tradicional, Branca de Neve e os 7 anões, a hitória de uma jovem branca como a neve, puta e não mais virginal, que não gosta mais de brincar com seus amiguinhos, os 7 anões, e prefere viver um mundo encantado com o belo Príncipe formoso, gato, e super atraente”

E é isso que a campanha pretende passar para o seu público feminino moderno. Esse pastishe na publicidade é uma caracteristica bem atual, recriar o que já foi criado, mas de forma original e inusitada. A criação preserva alguns elementos cruciais como referência a esse conto de fadas, a tiara, a cor vermelha da vestimenta da protagonista, o sapatinho da cor azul, que é da Melissa e a capa azul da personagem. O anão e o quarto dos 7 anões, com as camas pequenas, as maçãs no cantinho esquerdo (que Branca de Neve não quer mais comer, hum hum..) e finalmente o príncipe encantado, devasso, viril!

Mas o bacana mesmo, além da ótima idéia, foi como formalizaram tal. A harmonia da ilustração com a foto, as cores, e o jogo do claro e do escuro formalizam perfeitamente todo esse novo olhar do conto da Branca de Neve e os 7 anões. Gostaram? Eu gostei. Palmas para a agência BorghiErh/Lowe!
Depois eu posto os outros três anúncios da Campanha.

Read Full Post »

Meu maior medo é te ver partir. Maior de idade e de malas prontas na porta de nossa casa, dizendo “tchau, velha” e eu consentindo tudo isso. Meu bebê largando a barra da minha saia e me chamando de velha. Meu maior medo logo depois será tornar-me velharia em tua vida.

Mas sei que vou superar esse medo e substituí-lo por outro, o medo de que não estejas tongspbcomendo bem, limpando as orelhas direitinho, separando a roupa colorida da roupa branca na hora de lavar e me preocuparei se usas camisinha. De nada vai adiantar os gastos que tivemos com Johnson & Johnson, o truque que eu tinha para limpar tuas orelhas sem te fazer chorar e as roupinhas tão fofas e bem lavadas se entrares nessa brincadeira de roleta-russa que é transar sem camisinha hoje em dia. Não dá. Vou perder noites e noites de sono pensando se compras preservativo e de que marca.

Não tenho medo que engravides uma moça – eu disse “moça”? Tô ficando velha, meu Deus… – ainda novo. Vieste a minha vida como uma bênção e assim, tão de surpresa quanto um dia de sol com chuva. Foste presente planejado não por mim, mas por um plano maior, algo mais superior que esse sentimento que nutro por ti. Vieste mais para que eu aprenda do que para que eu ensine. Portanto, não temo pela gravidez na juventude.

Temo sim por milhões de coisas que quero que faças: as viagens de mochilão, de carona, à praia, com garotas, com amigos, com dinheiro, sem dinheiro, para fora do país, para o interior do Brasil. Receio por não viajares em si próprio por meio da leitura, das músicas, dos romances complicados, das terapias, das fotografias, das imagens belas e sujas que a vida, a vivência em si, nos fornece. Quero-te como uma esponja, absorvendo tudo que o mundo pode te oferecer.

Aí me vem o medo de que sejas tão cidadão do mundo que não voltes para o Natal, para o Círio, para a Páscoa, para o aniversário dos teus avós, para o meu aniversário. Tenho medo do que o mundo venha a te oferecer possa te afastar do que é teu por completo, que é o amor que todos nós dedicamos a ti desde que soubemos de tua vinda.

Se aquela revista para gestantes estava certa, ouviste direitinho quando li para ti O Pequeno Príncipe. Eu estava grávida de cinco meses e mexias e remexias na minha barriga. E quero que lembres da parte que diz que somos responsáveis por aquilo que cativamos. Sim, somos mesmo. Portanto, cative o bem. E só. O resto será automático, será conseqüência.

Um dia eu vou te ver grande e isso vai me doer, eu sei. Eu vou reclamar por nada e de tudo, porque me faltará assunto e também me faltará jeito para dizer o quanto te amo. Vou fazer piadinhas sem graça na frente das tuas namoradas e dos teus amigos porque vai me incomodar te ver me afastando do que é legal para ti. Disso eu também sei.

Mas me guarde sempre contigo, mantenha-me como um porto seguro. Desfaço todos os planos, tudo que puder eu faço, só para te ver feliz. Teu sorriso é luz branca, violeta e azul. Os meus olhos conseguem enxergar um arco-íris todo ao te ver e sentem da mesma forma. És o mais singelo significado de vida e força.

Read Full Post »

Por Aimée

* Para ler ouvindo “Another girl” …

Pensando aqui comigo no que pode ter dado errado, eu vejo que nada deu certo. Começou ruim e terminou pior. O problema é que ficou aqui no meu peito as músicas que dizias ser a minha cara… e eram. E eu sempre te dava um sorrisinho de canto de boca para dizer que enfim, eu amava cada uma delas. Sabias que eram minhas canções, só minhas, mesmo que eu não te dissesse uma só palavra. Tu sabias.

Um dia vou te proibir de existir, já que quero muito te odiar. Onde já se viu estragar Beatles? Não consigo mais ouvi-los sem lembrar das voltas e voltas rumando a lugar nenhum no teu carro – até mesmo porque este foi o único local para o qual me levaste – conversando sobre qualquer coisa bem idiota que me causava risos e gozo, para depois terminar em choro e sono.

Provavelmente essa ferida aberta cure um dia, em algumas sessões de terapia ou remédios controlados. Mas no momento, me dedico a te odiar porque meu mundo contigo foi imundo. Mas e daí? Eu não gosto mesmo de coisas perfeitas, de histórias com fadas e borboletas. Eu nem acredito nesse blá blá blá e essa coisa de seres um idiota, é real. É uma merda, mas é isso: é realidade.

Eu remo contra a maré para te esquecer e queria muito poder acreditar que a correnteza vai me ajudar, mas vira e mexe me vejo a deriva do meu objetivo. Um dia te esqueço e também vou esquecer do iê-iê do Fab Four, do cheiro amadeirado do teu perfume, da tua mão vadia subindo pelo meu pescoço e puxando meu cabelo pela nuca. Um belo dia vou te odiar.

Read Full Post »

A Menina PB

Por Moa

A Menina PB contou algumas moedas do seu bolso, e comprou uma cerveja. Ela não queria mais tomar cerveja, a cevada não funcionava bem no seu organismo, nunca funcionou, e ela insistia sempre nos goles e bebedeiras. Ela olhou para aquele pub apertado e feio, e acompanhada de umas vinte pessoas, se sentia tão só que quase a solidão a engole como um monstro de filme de terror. E mesmo com os olhos fechados, naquele lugar que já foi um dia elegante, e com uma energia boa, tentou sentir a música e acreditar que existe um mundo novo em que não se aprende em nenhum livro, é só ter coragem, se libertar, viver e amar, como aquela letra legal, que ela nunca mais ouviu.

Mas a menina de repente se toca, que ainda não é aquilo. Lembra da casa que não é dela, é alugada e a mãe dela que paga. Lembra que mais uma vez está gastando o seu dinheiro, o dinheiro que ela não tem, em diversões momentâneas. É o remédio dela, que faz esquecer a sua condição de ser muitas vezes covarde. Ela sente uma vontade de chorar de raiva, de arrepender-se de algumas coisas. De tantas besteiras que já fez, e podia não ter pensado em começar. Ela se pergunta “e seu eu não tivesse feito aquilo?”. Pouco interessa, ela nunca iria saber, de repente, as coisas poderiam ter ficado melhores, ou de repente, poderiam estar piores.

A Menina do vestido PB olha ao seu redor, vê um casal lindo e feliz. São tão lindos de dar inveja, pois além de beleza física existe a beleza humana, que eles têm de sobra. Em seguida, ela olha para os rapazes, aqueles mesmos de uns anos atrás, todos estão se tornando homens, sem saber disso, eles procuram se esquecer, cantando, dançando. Mesmo que a barba insista em aparecer. Vê aqueles moços que andavam de skate com ela há uns 10 anos, lá em Icoaraci, e percebe que eles mudaram pouca coisa, mas continuam firme nos seus ideais, nunca desistiram. Ela tenta achar alguém que prenda a sua vontade de apenas admirar, paquerar. E até enxerga um rapaz de rosto fino, de óculos, quem será aquele moço? Não interessa, não vai acontecer nada mesmo…

Ela lembra o quanto deixou de fazer muitas coisas na vida, desde abandonar o orgulho que sempre teve, desde dizer “desculpa” para quem merecia ouvir, ou lutar por tudo o que ela sempre quis – aquela paixão que ela desistiu no meio do caminho – e de não enxergar os próprios erros, manias e vícios. Ela não era assim, a menina de preto e branco sempre foi atenciosa, determinada, disciplinada, sonhadora…

E o que a Menina PB se tornara? Uma garota que está no limiar da loucura, de desistir de seus próprios sonhos. Mas Deus quis que as coisas fossem assim, difíceis de alcançar. E disse que ela ia sofrer se em algum momento a cabeça dela pensasse em desistir de tudo e recomeçar de novo do zero, que ia doer como engolir cacos de vidro. Que é para ela aprender que na vida se perde muitas coisas, para depois beijar tudo que se ganha. E a menina tenta todos os dias, na casa, no quarto ou naquele pub qualquer, conviver com isso, mesmo que dias melhores ainda estejam bem distantes.

Read Full Post »

Escrevo essa carta, pra te contar que hoje nós vamos fazer uma festa surpresa pra ti, esquecemos o bolo mesmo, então pronto, a gente encomenda uns salgadinhos de pedra, que achas? De lá nós vamos dar uma passadinha no solamar e vai ser perfeito. Não! Acho que talvez seja melhor a gente juntar todo mundo na tua casa, inclusive a “maninha” vai estar lá, a Moara vai estar de rasta, e depois, como são teus 18 anos, vamos tirar fotos fingindo que você está consumindo substancias ilícitas na sua identidade e fumando cigarros, vou até pintar meu cabelo de pink para a ocasião. Como é teu aniversário, tu podes até contar para seres semelhantes ao boneco de Marituba que eles, sim…são semelhantes, aí nós enfiamos nossa cara no buraco e pronto, tudo certo! Mas, se você preferir, podemos ir beber tequila na frente da Unama, chorar e cantar músicas sertanejas, mas peço logo que leves uma grana extra, pois o táxi vai custar uns 60, 70 reais…Se achares que o “campus 3” tá muito ralé, podemos ir no strike beber tequila também, mas por favor, dessa vez não vai arrancar a unha do pé com aquele incrível passo na cadeira, ir ao hospital e voltar com tequila escrito na receita, pode ser?
E se tu preferir viver tudo isso, mas não der, fecha o olho e deixa rolar esse filme que já dura tantos anos, pra sempre.
Ainda bem que existe computador, ou a carta estaria toda molhada de lágrimas.
Te amo, feliz aniversário, metade.

Dedicada à pessoa que me fez verdadeiramente entender o que significa: ”to aqui pra tudo, sempre”. Só não digo que é a ohvariana mais linda de todas, porque a disputa é ferrada.

Read Full Post »

Dois anos e dois meses

Por Lunna

Eles conversavam e riam na volta para a casa. O tempo tinha passado e apagado qualquer vestígio do que foi um dia aquecido pelo fogo e pela loucura que tinham quando se juntavam. Fazia dois meses. Dois meses que ela se fechou pro mundo, se guardou pra ela e esqueceu até como era um simples aperto de mão. Andava de saco cheio. Da vida, das pessoas ao redor, dos acontecimentos que não aconteciam nunca.

Mas eles se encontraram, era ele, aquele cara que há dois anos lhe provocara tantos arrepios e noites mal dormidas. Hoje? Eram amigos, bons e velhos amigos, daqueles pra vida toda. E eles riam no carro, bêbados e leves como uma pipa.

Na despedida, o beijo. Um beijo esperado e desesperado, não de quem ama, mas de quem passou dois meses trancafiada no próprio mundinho, aprisionada pela própria vida sem graça e sem o menor sentido. Ela precisava sair e voar, nem que fosse para quebrar as asas novamente.

E voaram, como nos velhos tempos, dois meses e dois anos depois. Confundiram pernas, braços e roçaram os pés um no outro, costume antigo. Puderam ver novamente os seus corpos e as mudanças que neles tinham. Chegaram juntos ao céu e padeceram do mesmo pecado. “Existem coisas que nem o tempo consegue apagar”, ele sussurrou ao pé do ouvido dela.

Mentira. Ela não concordava. O tempo conseguiu mitigar. Os meses passados sopraram todo aquele frio na barriga gostoso, aquela coisa de pele que na verdade não era bem coisa de pele, era paixão. Pura e pesada. E gostosa. Tudo ali tinha se transformado, ela tinha entrado em mutação e já não se importava coisíssima nenhuma com aquela cama fria, que antes lhe parecia tão quente. Ela não conseguia mais sentir. Nada. Absolutamente nada.

Vestiu-se e foi embora. Sorriu com a ironia de quem gostou de terminar um livro, mas sentiu saudade de continuar lendo a história. Tinha acabado. Ela talvez já soubesse, mas precisava confirmar. Antes de fechar a porta, deu nele um último e demorado beijo. Andou até o carro.

Era hora de voar em outra direção.

Read Full Post »

Older Posts »