Feeds:
Posts
Comentários

Archive for maio \30\UTC 2008

Bárbara

Pela convidada Becky Braga
* Para ler ouvindo Bárbaro Soneto, de Patrícia Bastos.

Ela parou e procurou por uma mesa vazia. Sentou numa que ficava de costas para porta. Não queria ver quando ele chegasse.O garçom veio até ela e entregou-lhe o cardápio. Ela recusou e pediu uma vodca com gelo e tônica.

Acendeu um cigarro. Usava o isqueiro que ele havia dado a ela há alguns dias. Estava ansiosa e pensou que devia ter aceitado quando ele ofereceu carona. Estava detestando ter chegado primeiro e precisar esperar.

O garçom a serviu e ela deu um gole longo. Sentiu o estômago arder. Não era muito de beber.

Sentiu uma mão tocar-lhe o ombro. Fechou os olhos por uns segundos breves, arrepiava-se só de senti-lo por perto.

Ele sentou-se à sua frente e olhou-a com ternura. Tocou-lhe levemente o rosto e num gesto delicado tirou-lhe o cabelo do rosto.

Deram-se as mãos e ficaram a acariciar-se. Falaram sobre como tinha sido o dia, contas de banco, problemas com o computador e outras coisas sem muita importância.

Ele olhou pra ela por um longo tempo sem falar nada, quase violando sua curiosidade com os olhos ávidos, olhos que quase queriam falar.

“Eu senti a sua falta”, disse enfim baixando os olhos.

Foi a primeira vez que ela se sentiu calma desde o momento que chegou. Pediram mais bebida e alguma coisa pra comer. Mas sabiam que não estavam ali pra isso. Tudo fazia parte do ritual de tentar iniciar a derradeira conversa.

A conversa sobre aquela relação mal resolvida que não acabava, que não deixava que ela se permitisse viver outras coisas mesmo quando ele tinha uma relação sólida e ela era a outra.

-Eu não posso continuar te vendo. Eu não possso ser desonesto com ela, nem com você. Eu a amo e não vou deixá-la. Você é tudo que eu sempre quis mas é como se tivesse chegado na hora errada. Eu não posso mais, não posso te ver assim… Não posso. Eu não vou te procurar nem quero que me procures.

Ela contempla os olhos úmidos dele com alguma serenidade, sente as mãos frias, trêmulas. Enxuga sua única lágrima e levanta com calma. Ele até tenta impedir mas ela repele.

Chega perto dele, abaixa-se e beija-lhe ternamente o rosto. Ele cerra os olhos, sente o cheiro dela.

Dissimuladamente ela passa a mão no garfo em cima da mesa e crava-lhe na mão esquerda.

O grito dele é mudo e seco.

Sai andando com calma, as pessoas ao redor estão assustadas com a cena. A mão sangra muito. Ela carrega um ar de satisfação.

Ele levanta, agarra-a pelo braço, beija-lhe a boca, a mão que sangra no sexo dela. Um beijo sôfrego, ela agarrada aos cabelos escuros dele, respirando difícil, o choro na garganta.

Sai de lá com as marcas de sangue na saia e ele, aturdido, senta incrédulo. Chora de dor. Mas o que dói, ele sabe, não é a mão.

Anúncios

Read Full Post »

ilustra07

Ela andava afoita pelo futuro. O presente não oferecia novidades, não a estimulava, nem com todas as mudanças dos últimos tempos: mudou do Sul para o Norte, mudou de faculdade, mudou o número do celular e naquele ímpeto de quem quer dar grandes reviravoltas, disse a si mesma que mudaria mais um pouco. Começou uma dieta, deixou o namorado e se jogou na vida bandida, decidiu a felicidade.

Mas aquela vontade de saber mais sobre o futuro a corroia. Porque era presa de alma. Não conseguia dar um passo a frente sem perguntar a dez mil pessoas antes o que deveria fazer e era inexoravelmente maniqueísta. Traçava seu plano maior se baseando no que os outros pensavam e no que era “certo”. E pelo andar da carruagem – porque naquela cabecinha de merda ainda existiam contos de fada com princesas da Disney, carruagens que chegavam à meia noite e amor eterno – tudo daria certo enquanto ela focasse seu viver na pseudo-certeza dos padrões pré-fabricados por outras pessoas.

Foi aí que decidiu cair no conto do vigário. Para saber algo (leia-se mentira ou sinônimos) sobre o futuro, pagava qualquer coisa. Foi num cara que jogava búzios e pagou R$50. E claro, de nada adiantou. Ela logo percebeu que uma criança de quatro anos de idade faria aquela leitura: quando os búzios caiam com a cavidade para cima, era “sim”. Quando era o inverso, a resposta era “não”. Ou seja, porra nenhuma sobre nada da merda de futuro que a aguardava. Depois de uma espera de horas a fio, saber que tudo que o cara mais fodasso no ramo da vidência em búzios conseguia ler sobre a sua vida era aquilo, deu mais raiva ainda.

Aí num impulso de extrema “inteligência”, daquelas inteligências de macaco amestrado para freak show, foi que chegou a Tia Maroca. Ah, que mal faria ir a ela? É apenas uma vidente-benzedeira. Nada demais por apenas R$25 a mais. Agora ia dar tudo certo.

Pensou várias vezes em ir embora, mas como esperar que alguém extremamente desesperado por saber se seu futuro será composto por uma grande paixão, um emprego multimilionário juntamente com um príncipe encantado que chegue num cavalo branco, seja sensato? Não há como.

Por isso, continuou remoendo seus sonhos impossíveis de hight society e esperou. Meia hora, uma hora inteira, uma hora e meia, duas horas … e finalmente, o fim da espera chegou depois de duas horas e meia de espera. Não tendo aproveitado nada de sua experiência anterior com o cara dos búzios, acreditou que aquela espera toda era um sinal de que a tal da Maroca era fogo na roupa, acertava tudo sobre tudo. Sentiu-se aliviada e pensou: “ – Agora vai.”

E foi. Só não sabia exatamente o que tinha sido. Ficou em dúvida se aquilo era piada ou pegadinha. Ela lavou a cara na pinga assim como a senhora carinhosamente ordenava – enquanto a chamava de “fia”. É tão mais aconchegante quando numa situação difícil, as mulheres deixam aflorar seu espírito maternal, não é mesmo?! – e ficou parada, tensa, enquanto a Tia Maroca baforava com vontade na sua cara e ao seu redor uma fétida fumaça de charuto de septuagésima categoria. A garota só pensava que logo, logo acabaria e brevemente aquela humilhação toda se pagaria. Ela saberia até quantos milhões teria na sua conta bancária conjunta com seu marido velho e multimilionário. Foi quando ouviu:

– Pronto, “fia”. Pode ir.
– Ir para onde?
– Ir… pode ir. Você já tá benzida e protegida, “fia”. São “vinte e cinco real” pra benzer, certo?
– Certo…

E para quem gostava sempre do certo, teve o que merecia. Pagou a grana e saiu de lá atrasada para a faculdade. No caminho, duas motos a perseguem e depois desse sarro que os orixás e oxalás tiraram com ela – ou ela mesma tirou consigo indo atrás do que vem a nós por seus próprios meios -, pensou que só podia ser assalto. Pisou fundo no acelerador e foi embora, furando o sinal que estava tão ou menos vermelho que sua cara de ódio da vidência e de si mesma.

Ela só não contava com que as motos fossem dois guardinhas de trânsito que a pediam para parar o carro. Foi nesse momento de “grande percepção” que resolveu fazer o que os ditos cujos pediam e pensou em rezar para alguém que inspirasse maior confiança do que búzios ou cachaça , mas não teve coragem.

Seria demais pedir a Nossa Senhora ou para alguma santa que a protegesse enquanto ainda estava impregnada com aquele odor de terreiro de macumba. Mesmo assim rezou: pediu com bastante veemência e resignação que, de alguma forma, os guardas de trânsito tivessem problemas de olfato e não sentissem a extravagante essência de caninha barata. Funcionou e bem melhor que seus neurônios, pelo jeito.

A partir daí, ela nunca mais procurou saber o que vai ter para o jantar ainda na hora do almoço. Decidiu pintar seu cabelo de outra cor e o cortou, temendo algum dia na vida ser reconhecida por qualquer pessoa que a tivesse encontrado no dia das tais missões adivinhatórias. Jogou fora as roupas que usou no fatídico dia e comprou um banho de ervas o qual disseram que é ótimo para tirar urucubaca de olho gordo. Como se pode ver, a menina operou grandessíssimas mudanças em sua vida.

Só não muda uma coisa: todo final de tarde, a bela garotinha de mais de vinte anos de idade se senta à janela na esperança de que apareça uma fada madrinha e a leve para fazer compras no shopping center mais “bombado” da cidade. Assim ela poderá jogar suas tranças e esperar seu príncipe encantado de idade avançada e um dote bem dotado resgata-la do caritó.

Ela senta à janela e espera… e continua esperando… pelo futuro.

Read Full Post »

Cinzas (1894), Edvard Munch. (Expressionismo)
Cinzas (1894). Edvard Munch (Expressionismo)

Por Moara Brasil

“Ai, que saudade, simplesmente saudade, de amores puros. Eu não quero e nunca quis amores bandidos para sempre”, e quem quer? Nem mesmo aquele puto que te liga todas as noites, só para querer esse teu corpo, nem ele quer esse amor bandido, mesmo que seja contraditório em suas atitudes, mas no fundo, bem ali no fundo, sonha por um amor que não seja imundo. Podem até dizer que o Mal do século é a solidão, que isso? Podem até dizer que é uma fase de curtição, que isso? Cansa! Ei, tem alguém aí? Tu realmente gostas disso?

Atire a primeira pedra quem nunca sonhou com aquele amor conquistado só no olhar, nos arrepios só de tocar na pele. Pêlos atiçados com beijos leves em todo o corpo.

Ah! Nem mesmo aquele bando, que parece ser tão livre, tão “nem aí” para tudo, tão cheios de parceiros, tão amor moderninho. Mas é aí que eles se perdem e se encontram, nessa vontade louca de ter um amor puro, quando a solidão bate na porta aos domingos. Nem vem! Bate sim! Ainda mais quando chove e a rua fica sossegada, batendo um silêncio aterrorizante. De doer nos tímpanos. E o que tu fazes? Pega o celular, ou liga aquele tal de MSN, para conversar ou sair com os amigos. Solidão, baby.

Ah! Que isso? Beija-te numa noite e no dia seguinte beija outra. E na maior cara lavada, volta para a primeira sem pedir licença. É legal, é divertido, é bom para curar paixões abandonadas por aí. Mas são boas essas curtições eternas enquanto “duro”, afinal, cansa. E deixam as pessoas loucas e frustradas, com olheiras e ainda pisoteadas, abandonando potenciais amores numa gaveta cheia de teias e dores.

Quem numa noite nunca beijou uma boca e quis outra e mais outra? Normal, é natural, é legal, é demasiado humano. Mas é legal parando por ali. Depois tu te escondes no banheiro, e grita “Quero uma merda de amor para mim!”. Com a maior cara de choro.

Tu vais querer os corpos mais lindos, para colecionar naquele álbum, e contar para todas as tuas amigas e amigos as tuas rápidas conquistas. Vais te apaixonar e vais querer justamente aquele que não quer nada contigo, é certeiro, é isso. Vais chorar aqui no meu ombro, e suspirar “eu só quero alguém que me entenda”. É isso, amor puro, baby.

Ah, quem nunca desejou uma companheira querendo a amiga dela e transar com aquela gostosa ali? Normal. Natural. É demasiado humano, mas tu te cansas por ali. Porque é necessidade, é sexo, é suprir desejos do momento, é que nem comprar uma mercadoria que tu usas, abusas e depois fica velho, joga fora. Porque só serviu para isso. Apenas use e abuse, baby. Faz bem para a pele, mas a pele envelhece um dia, baby.

Amor é um livro, já dizia Rita Lee. Mas não esse amor bandido… é o amor, puro, amor. Aquele que a gente compra, não pela capa, mas pelo conteúdo. E se entrega para ele numa fantasia em realidades. Esperando as novidades do próximo capítulo.

Atire a primeira pedra quem não quer um amor assim? Não precisa casar, não precisa ainda ter filhos, precisa apenas sonhar, compartilhar pizza e refrigerante no sofá da sala, ou passear naquele lugar tão desejado pelos companheiros. Ah! Chega de amor bandido, baby! Até a puta um dia cansa, e sempre tem o cliente preferido.

Inspirada numa conversa com a querida Vivi.

Read Full Post »

Depois dos vinte

Por Anna Carla Ribeiro

* Texto inspirado na crônica “Vinte e poucas coisas sobre os vinte e poucos anos”, de Sofia Brunetta.

É, pela Constituição Federal, você já é adulto. Mais isso não significa que deixe de gostar dos desenhos da Disney, de bolas de gude, de pular em cima da cama quando está animado (mesmo que isso te traga um certo prejuízo, afinal de contas, são 34kgs a mais), de querer brincar de cuspe à distância depois de um esporro do chefe, e muito menos deixe de ter atitudes mesquinhas, mimadas, descontroladas e irracionais.

Depois dos vinte, você já pode percorrer mais precisamente os seus sonhos, mesmo que eles se modifiquem a cada dois meses, pois já entende que saindo de algum lugar sempre se chega a alguma parte.

Depois dos vinte, você já se apaixonou inúmeras vezes, e sabe que não interessa quantos anos você possa vir a ter, sempre que estiver nesse estado, voltará a ser mais burro do que quando estava no maternal. Também ainda não entende direito o amor, mas acaba percebendo que mesmo aos cento e dez, será complicado defini-lo.

Depois dos vinte as suas nádegas já sentiram o asfalto quente e todo o seu sangue resolveu visitar as bochechas, quando por ventura a lei da gravidade resolveu entrar em ação conjunta com a casca de banana. Já engoliu criações de búfalos ao invés de sapos, já sentiu o coração querer ficar anão numa despedida, já virou melhor amiga de Murphy, já entrou em mais encrencas do que a Maria do Bairro, já colecionou mais “nãos” do que a sua lista de namorados. Também já provou a amargura de uma desilusão amorosa, da falência de um projeto que te custou inúmeras caixas de Tylenol e de um feijão azedado.

Depois dos vinte, você sabe que existem pessoas que deveriam ser indicadas ao Oscar pela brilhante atuação que fazem na vida real, sabe que seus pais são tão humanos quanto você. Sabe que o governo, os Estados Unidos, os outdoors, as suas amigas, as andorinhas, as mensagens subliminares e a mídia te manipulam e te influenciam (e, talvez, você só tenha começado a fumar porque viu a Mel Lisboa acabar trinta e sete carteiras de Carlton na ultima minissérie).

Depois dos vinte, você descobre que afogar os problemas na cachaça não valerá a pena, mas sabe que tomar uns porres de vez em quando ajuda a relaxar. Também descobre que chorar pela pinga derramada não resolverá nada, mas tem horas que é necessário. Descobre que amigos valem mais do que todas as cifras dos Bancos Suíços, mas que viver sem um boró no bolso é uma verdadeira porcaria.

Depois dos vinte, você já visitou paisagens incríveis, arquiteturas surreais, o Rio de Janeiro, raves, pagodes, pubs, botecos e bilhares cheirando a Ypioca. Mas ainda é pouco, pois você já aprendeu que desvendar o novo é, no mínimo, interessante.

Depois dos vinte, você já fez teatro, ballet, sapateado, flauta, fotografia, tae kwon do, musculação, yoga, kumon e dança do ventre. E mês que vem quer se matricular no pilates. Também já é uma boa enciclopédia: sabe falar de Chico Buarque, da Guerra da Bósnia, da era do rádio, de psicologia infantil e já é pós-doutourada em acne, metabolismo, dietas e hormônios.

Depois dos vinte, você entende que existem pessoas que a beleza supre o espírito, e que tem outras que o espírito supre a beleza. Também entende que não importa se a sua melhor amiga for sem pescoço e possuir meio metro de nariz: você sempre a achará incrivelmente bela.

Depois dos vinte você já se achou, se perdeu, se achou novamente e descobriu que ainda se perderá outras mil vezes, porque a cada ano que passa, mais em mutação estará o seu espírito. Ainda não entende muito bem esse tal de destino, mas até que acha ele boa gente. Desconfia das cartomantes, mas já foi em uma que acertou tudinho.

Mas talvez, a maior descoberta de todas, é quanto à felicidade. Depois dos vinte, já sabemos que não precisamos procurá-la, se a mantivermos em nós mesmos. E mesmo sabendo disso, ainda assim passaremos por situações em que perderemos o chão e todas as paredes. A vida é assim mesmo, passamos anos construindo, tijolo por tijolo, a nossa construção. Aí vem uma ventaria e destrói tudo. Então pegamos novos tijolos e voltamos a levantar nosso terreno, dessa vez com mais proteção.

Read Full Post »

Por Moara Brasil
Dedicado ao querido David C.

Charpentier acordou belo ao meu lado, com toda a beleza francesa que uma mulher deseja de um homem. Aquele cabelo tipo moicano, porém, meio diferente desses moicanos que enxergamos por aí, um moicano francês, num rapaz branquelo, de 28 anos. Charpentier acordou e me fez sorrir, mesmo com aquela cueca boxer verde e amarela, que eu até achei bonitinha, coisa de gringo, sabe.

Não sei, acho que era a bunda, uma graça. Ou era o cabelo mesmo? Ou por ele ser formado pela Escola de Belas Artes de Paris? Um artista completo e bom de cama, eles sempre têm uma coisa a mais. Gringo, cérebro e charme. Nossa! Eu admirava cada parte do corpo dele, como uma adolescente apaixonada. E eu tinha acabado de sair de uma relação desgastante, Charpentier apareceu em boa hora, como um anjo, que por ser piegas, caiu do céu. E não deixou eu sofrer mais que uma semana pelo outro, até consegui esquecer aquele meus outros dias tristes.

Pensei, ao acordar do lado daquele homem, que seria o último dia em que nos veríamos, o ultimo dia do nosso mês extremamente intenso e apimentado. Nessa hora, contive minha vontade demente de chorar, guardei de baixo da almofada… Eu não precisaria chorar por causa disso. Sou forte, ora. Tive a idéia de seqüestrá-lo eternamente para a minha vida, pois nunca tinha vivido algo tão recíproco e verdadeiro. E nem falávamos a mesma língua, ele se esforçava num portunhol, e eu num portuglês. Juntando tudo em gestos e mímicas. Charpentier amava até o meu jeito desastrado, de colocar a calcinha do avesso. “Você, menina boba, você”.

Planejei. E se eu prendesse-o na cama com as cordas da minha rede? Ele perderia aquele vôo para Macapá- Cayena, e de Cayena-Paris. Bem, eu sei que isso o faria ficar um pouco puto comigo. Mas pelo menos teria mais uns dias ao lado do francês, porém, eu já havia adiado bastante a viagem dele anteriormente, e não havia como adiar mais. Ele já tinha adiado, só para ficar comigo, mais uns dias para quem ia ficar só um mês.

Conheci o Charpentier numa festa, num trapiche da cidade. Naquele dia não queria sair do meu quarto, mas minhas amigas insistiram. Falaram que eu não deveria me entregar àquela paixão fracassada. Mas logo show de reggae? Vocês sabem que eu já não gosto muito de reggae, e ainda mais quando estou assim, triste. Parecia que eu ia morrer de tanta desilusão amorosa. Mordi a língua, e hoje até sou devota do reggae.

Só que eu fui, e conheci o francês. Naquele mesmo dia ele foi para a minha casa e lá se hospedou um mês e mais uns dias. Minha família o amou, meus irmãos mais ainda. Meus amigos, também. Ele era o verdadeiro homem que faltava para a minha vida, um relacionamento definitivamente saudável, mas Charpentier já ia embora, em breve, eu sabia. E procurava não lembrar muito disso.

Acordamos um do lado do outro, nos olhamos, sorrimos. Aquele último sorriso, um sorriso feliz demais por um encontro de almas gêmeas, nesse fim de mundo maravilhoso, que é Belém. Levantei, como uma mulher forte, e cantei: “Você me faz ter medo da minha condição, você me trás segredos, e eu não te entendo mais”, Mombojó foi trilha sonora. Tomei meu banho, e voltei ao quarto, ele estava colocando as milhões de redes que havia comprado na feira do Ver-o-peso, numa mochila enorme. Ri um pouco do momento, isso era engraçado, para que tantas redes? Poderia não significar nada para mim, mas era só o que ele estava levando de lembranças daqui. E ainda comprou uma rede que faltava, uma azul e branca ( bem Papão) que ele tanto queria, arrumamos as trouxas, e fomos com o meu irmão no ver-o-peso. Achamos a tal rede, e seguimos ao aeroporto.

Eu estava no banco de trás, e ele na frente, pediu desculpas ao meu irmão e pulou para o meu lado. Os últimos momentos de abraços, de brincadeiras, de milhões de beijos em todo o rosto. E eu trancando a dor daquele dia especial de agosto.

Aeroporto, aquela fila, ele já estava um pouco atrasado, pegou a câmera dele, de filmar e repetiu “estou mutcho triste que la máquina fotográfica minha foi roubada, nossas fotos, suas fotos, lembranças de você, estou triste”. E fez a ultima filmagem de nós dois, sorrindo no aeroporto, brincando um com a cara do outro. Só restaram algumas cenas. E foi rápido, me deu um beijo, nada muito romântico. A comissária de bordo apressava. No entanto, ele me acenou lá do corredor, que vai para o avião, e mandou aquele beijo, que eu já sabia ser o último… Mas não o último beijo de amor. Depois, não me contive, e chorei no carro, e o choro foi pior que qualquer outra dor por alguma relação que eu já tive. O choro por algo que poderia ter dado certo, mas o destino nos abandonou naquela dia especial de agosto, e eu, fiquei com uma pequena esperança que o amor pode existir outras vezes.

Vídeo gravado no Pará e no Maranhão, feito por Charpentier.

Read Full Post »

Melhor ir dormir

Por Anna Carla Ribeiro

Ah, a sexta-feira. O dia em que nós, seguidores do tribalhismo e procedentes do malandro equilibrista brindamos a origem da vida, divulgamos o novo corte de cabelo e, de queda, gargalhamos pelas cifras perdidas entre grades e latas de cerveja quente. Ultimamente tenho acordado deslumbrada nas sextas-feiras. É o dia em que eu bato no peito e brindo à minha liberdade e às piadas dos meus amigos. Afinal de contas, perdi muitos “dias sagrados” da minha vida encolhida em um sofá de meio metro comendo pizza de caixa.

Para a minha sorte, as circunstâncias me tiraram deste sofrimento e nunca mais me fizeram ficar sem graça ao ouvir os comentários sobre a noite anterior – sempre a melhor de todo o espaço sideral – em sábados de almoços com as amigas. Já parou pra perceber que justamente na época em que finalmente você consegue virar um ser caseiro (leia-se na coleira), todas as suas amigas estão desbravando o mundo, conquistando nações e se divertindo trinta vezes ao cubo por segundo? É o Murphy, meu bem. Mas depois eu falo nele.

Sextas-feiras são assim. Sempre cercadas das melhores maquilagens, roupas, olhares, lugares pra sair. É o dia em que finalmente conseguimos mandar dar cu o chefe, o cheque e aquela vizinha clone do Franquito Lopes, que sempre consegue te tirar do sério no infinito caminho da porta da sua casa até o carro. É aquela sensação maravilhosa de se estar aproveitando tudo ao máximo, é sentir a jovialidade em cada sopro de brisa. É o meu dia. E do Zeca, do Zé e do seu Oswaldo trabalhar, coitado. Deve ser foda ser garçom.

Tudo é alegoria. Alegria, alegria. Com direito a mentiras sinceras e Chiquinho gritando “Eu vivo bem sem amar a ninguém”. E viva o ôba-ôba! Sandálias eletrizantes, hormônios à flor da pele e tímpanos poluídos.

Maravilha.

Hoje é sexta-feira. Atípico dos últimos meses. As coisas mudaram, eu mudei. Fui do céu ao inferno em milésimos de segundos e agora pareço estar nos dois lugares ao mesmo tempo. Na esquina da fossa com a mocidade. Cansada e sozinha em casa. Pensei em ligar pra alguma amiga me fazer companhia. Seria uma distração. Penso, penso, penso. Desisto da idéia egoísta de estragar a sexta-feira de algum ser amável e solidário. Já basta a minha. Tento ler e acabo assistindo Homem Pássaro comendo palmito. E assim, como que de relance, me aparecem as Spice Girls sussurrando ao pé do meu ouvido: “Easy lovers, I need a friend…”.

De repente, me deu uma saudade de me retorcer novamente naquela cama de anão. Leve vontade de ter alguém disposto a dividir um saco de pão de queijo de supermercado e conversar sobre astros, geografia, ginástica e a guerra da Bósnia. Me lembrei de como é legal ter um colo e uma companhia para dividir os sonhos, alguns perdidos, outros realizados.

O ruim da boemia é a superficialidade. É estranho ter enjoado tão cedo dela. Claro que amanhã mudarei de idéia. Ah, melhor eu ir dormir.

Read Full Post »

Amor ao amor

Por Lora Cirino

Ainda lembro como era, lembro mais ou menos, mas lembro. A gente se olhava bem forte e dava vontade de sorrir, tocar era a melhor coisa do mundo, segurar na mão. Andar de mãos dadas me trazia força e segurança. As festas tinham mais graça, elas terminavam em amor. A gente se divertia junto até tudo acabar e voltava para casa. Se eu acordasse de repente assustada, tinha certeza de te ter ali. Aqueles telefonemas, só para saber como cada um estava, eram gostosos demais, como já disse, eram certeza.

Hoje ouvi de uma amiga que ela está apaixonada e sendo correspondida, como me deu alegria por ela, que já não mais sabia o que era isso e saudade de ter isso também. Logo eu, que nunca soube viver sem você. Realmente era tudo mais cafona, só que mais gostoso. Tenho medo de ter desaprendido a te ter, medo de verdade, já confidenciei isso para algumas pessoas. As dores que passamos juntos, as brigas, as reconciliações. Que saudade do teu cheirinho, do teu gosto e de fazer amor contigo.

Morro de medo confesso, medo de nunca mais te sentir. Acreditas que eu já fiz força pra te sentir e não consegui? Obriguei-me a te ver em algumas pessoas, mas não era verdade, logo descobri. Caramba! Será que para sempre vai ser assim? Sem ti, sem aquela graça que a vida só tem contigo? Será que a parte mais delicinha da vida agora vai ser sempre monótona, chata, sem graça? Cadê o encanto de passear, de se bastar?
Volta pra mim, meu bem, eu morro de saudades de ti. De ter as palavras certas, de achar lindo teus defeitos, de conhecer cada poro, cada sinalzinho no braço, de dormir nos teus braços e sentir o cheiro da tua respiração. Eu quero me confundir contigo, com a tua família, invadir a tua casa, dividir a tua mãe. Sempre adorei sogras, não é agora que isso vai mudar.

E tu sabes que eu sou bacana, tu já me conheces e me experimentastes mil vezes. Eu não atrapalho teus estudos, entendo teu trabalho, teus horários, sou fina quando tenho que ser, sei me portar, me vestir e quando tem que cair na vala e beber até de manhã, eu também faço isso contigo.

Eu faço amor na rua, no estádio de futebol, em cima da árvore e dentro do mar, basta que queiras e me chame, já estou lá. Sabes que eu amo te ter, que eu amo te amar, amor.
Então, volta pra mim o mais breve possível, tu não vais te arrepender. E me ama, com a mesma intensidade, compreensão e tolerância que eu vou te amar.
Sei que sofrer de amor dói, adoece, sei bem, mas pior é não ter nem pelo que sofrer. É oco!

Carta ao amor, sobre o medo de nunca mais amar.

Read Full Post »

Older Posts »