Ohvarios

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Fumando no banheiro

23/09/2008 · 2 Comentários

Do convidado Mauro Moura

 

Naquela tarde de quarta-feira, não fazia tanto calor como em outros dias, o que tornava o clima agradável, o que é de se espantar, em se tratando de Belém do Pará; encontrava-me relaxado, exercendo o prazer de saborear o mais mortal vício existente em meio àquele ato involuntário que todo ser humano normal faz diariamente, ou seja, fumando no banheiro.

Percebo que, naquela exata hora, estava eu, absorto, naquele trono branco e solitário, sentido um sossego intenso, uma total ausência de preocupações e anseios, experimentava minha mente livre de todo e qualquer pensamento, que não fosse o prazer mortal de tragar aquele cigarro de qualidade duvidosa, o que me dava uma confortável sensação de clareza.

Em tal instante, busco tirar proveito dessa breve ausência de parcialidade e tento visualizar algo interessante sobre posturas tomadas e coisas ditas importantes, aquelas que consomem em grande parte nossos pensamentos.

Ausente de paixões e preocupaçoes, longe da agenda quase sempre lotada de compromissos e de clientes sempre exigentes; começo a divagar sobre questões existenciais, percebo que o ser humano é tão igual ao outro por mais que ele se esforce em provar o contrario, vejo que somos sós e um universo em nós mesmos, tamanha nossa complexidade; Deuses em potencial, pois ninguém há de duvidar que a divindade esta presente em cada um de nós, permitindo-nos criar e destruir com igual maestria.

É difícil enxergarmos isso no próximo, pois estamos tão concentrados nessa corrida maluca em busca de acumulo de posses, que esquecemos de ver a diversão naquilo que nos é dado de forma gratuita pelo universo; pois o pôr-do-sol ainda está ali aguardando a sua atenção naqueles minutos grandiosos, mas estamos muito ocupados para isso, vendados lamentando que o dia é curto para tantos compromissos…quanta bobagem.

A vida está aí, esperando para ser desfrutada, rápida como o inesperado sopro derradeiro, passa pelas nossas mãos entorpecidas, incapazes de sentir sua magnitude, pois estamos ocupados demais para vivê-la, temos q seguir a rotina diária de sacrifícios para alcançar o sucesso, pois o mundo é dos vencedores…que.

É necessário buscar momentos diários de lucidez, fugindo da repetição tediosa da rotina estressante, precisamos de tempo para reorganizar as idéias, arrumando a casa para novas visitas, novas idéias que entram como o sol revigorante da manhã silenciosa, abrindo os olhos para aquilo que sempre esteve à nossa frente, mas estávamos sem tempo em nossas agendas.

Percebo ainda, que momentos como aquele, em que nos encontramos totalmente nús, devem ser dotados de alguma significância, no sentido de aproximar o exercício da reflexão, buscando visualizar respostas para os nossos anseios, olhar no espelho e encarar as imperfeições do corpo e do caráter, tendo ainda que encontrar paz de espírito diante de todo esse conflito que nos ronda minuto a minuto: a busca de sucesso, uma família feliz, um par satisfeito e uma carreira sólida.

O problema, é que nos ensinaram que tudo tem um preço, pautamos o ideal de felicidade em conceitos pré-propostos de satisfação garantida, o que nos coloca dentro de uma corrida incessante na busca dos bens materiais, que terão a ingrata missão de preencher o vazio inominado; a frustração na permanência do vazio é quase sempre a rota certa. O bem almejado, não nos rendeu aquela sensação plena de felicidade, estampada de forma tão sincera no rosto da moça que aparece no comercial. Fomos enganados!

Insaciáveis, somos arrebatados por outra promoção de felicidade, essa mais completa e sofisticada que a anterior, tecnologia de ponta e tem o detalhe importante, compro um e levo dois…

 Coitados, eles pensam que os adornos de fora é que são importantes, esqueceram de olhar para dentro; quando o fazem, percebem que ainda não temos promoções de abraços, vitrines de amizades sinceras e respeito ao próximo, estoques lotados de amor que poderão ser adquiridos a preços módicos nas casas Bahia; acredite … isso não se compra. 

É certo meus caros, que devemos exercer a busca pela lucidez, não tema em ser a ovelha rebelde que abandona o rebanho, busque também os adornos da alma, adquira mais a ética e o respeito ao próximo, cultive o sorriso gratuito que abre portas inesperadas, faça o bem; conjugue o “ser”, fuja dos conceitos massificados, da ditadura da magreza, aja com prudência e permita-se, experimente.

O cigarro acaba, dou a descarga, vejo que estou atrasado, tenho de vestir meu terno e voltar ao mundo real; mais vou tranqüilo, com a sensação de dever cumprido.

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Bolsa Freud

13/06/2008 · 6 Comentários

Por Thiago Quintas

Inédito. Governo planeja ajudar – com recursos da saúde pública – desajustados sociais identificados como estorvos em qualquer sociedade ou ambiente de trabalho.O objetivo do auxílio oficial é minimizar o problema de pessoas que, sem nenhum talento para o oficio, se acreditam predestinadas à carreira política.

Gente que, pensando em acabar com seus dias de solidão e tédio, resolveu fazer do exercício da democracia um combate às carências afetivas permitindo a eclosão da revolta guardada “dentro deste peito”.

O patrono espiritual desta iniciativa é o teatrólogo (intelectual?!) Nelson Rodrigues, que dizia para os filhos, nos tumultuados anos 60:

“Vocês conseguem reunir 100 mil na Candelária e o líder (Wladimir Palmeira – n.a.), pendurado num poste de luz, pede a todos para sentarem-se. E nem cadeira havia, apenas o desconforto. Vocês perderam a melhor oportunidade para iniciar a revolução.”

Isso é coisa do passado.

A partir de agora, com a Bolsa Freud, qualquer brasileiro com sentimento de revolta contra progenitores, reitores, professores, enteadas, fazendeiros, arrozeiros, síndicos (no caso de reunião de condomínio), monumentos históricos (no caso de pichadores de parede) ou apenas vivendo dias e noites vazias, sonhando com uma Albânia colorida pode ganhar sessões de psicanálise (terapia) gratuitas.

Pesquisas recentes revelam que, nos últimos 30 anos, quem era de direita, no Brasil, agora está militando na esquerda e vice-versa. Este movimento de vira-casaca trouxe instabilidade emocional para muitos cidadãos que não reconhecem mais o seu papel na história e nem na sociedade. Muitos puristas de outrora agora vivem na promiscuidade.

Se você ainda não entendeu o que aconteceu com a sua ideologia, Freud explica. As mesmas pesquisas garantem que 80% das pessoas envolvidas em associações de moradores de bairros são carentes emocionalmente. Quase sempre com vida pessoal insatisfatória, necessitam ocupar seu tempo vazio com discussões (aparentemente) úteis à coletividade, porém intermináveis enquanto procedimento burocrático.

A Bolsa Freud vai oferecer interlocutores treinados a permitir que o paciente vocifere sem culpa e danos contra a integridade alheia ou mesmo pontifique opiniões sobre o MST – seja contra ou a favor. Como na Bolsa Ditadura, o cidadão tem que provar que merece o benefício.

Alguns exemplos clássicos de pacientes que se reportam mais a Freud do que a Marx:

George W. Bush (a figura do pai, neste caso, é clássica);

Renan Calheiros (você lembra? com problemas pessoais até o pescoço, ainda queria tocar flauta);

Clodovil (dispensa comentários);

Lula (Freud explica as posturas contraditórias de esquerda e direita)

Rafael Grecca de Macedo (Poucas pessoas se punem com tal cerimônia)

Ronaldo Fenômeno (Ainda em fase oral. É sério candidato ao troféu Divã de Ouro)

100 mil da passeata da Candelária (A revolução fica pra quando?)

Juiz Nicolau, Paulo Maluf, Pita, Severino, Jerominho, Paulinho do Sindicato e outros incógnitos(o objetivo deles é um só: fazer sexo anal com o País)

Rá! :)

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Vero (…). Verídico.

12/06/2008 · 1 Comentário

da convidada Becky Braga

Sempre tinha tentado imaginar como eram aquelas salas. Costumava vê-las compartimentadas com estruturas típicas de escritórios, quase sempre na cor cinza, divisórias superiores em vidro. Mesas com computadores. Várias mesas, vários computadores.

A única coisa de que realmente tinha certeza é de que havia mais mulheres do que homens. Não agradava a cabeça ciumenta dela, e nem a pervertida dele. Mas os sonhos sempre são meio malucos e sem sentido, ela via vários homens, inclusive homens bonitos.

Caminhou despercebida por entre as mesas, ninguém notou sua presença. Ela achou estranho, mas continuou procurando a mesa dele. No canto mais iluminado ele estava com os olhos fixos na tela do computador, parecia concentrado em algo realmente importante. Pensou em voltar. Não queria ser inconveniente.

Pensou que já estava ali, tinha vindo de tão longe e não havia porque voltar do ponto mais próximo que pudera chegar dele. Recuou um pouco, mas prosseguiu até a mesa dele.

-Oi…

Ele levantou a cabeça, olhou pros lados, pra trás, olhou por cima da divisória de vidro e viu que a mesa da frente estava vazia. Balançou a cabeça e voltou a fazer o que estava fazendo.

Ela ficou desconcertada e disse de novo pigarreando.

-Oi.

Ele parou dessa vez um tanto assustado, percorreu todo o espaço com os olhos e não viu nada. Foi até a copa e serviu-se de café. Há tempos não ouvia, mas podia reconhecer aquela voz em qualquer lugar. Sabia que era a voz dela.

Ela não entendia porque ele não podia vê-la. Chegou perto dele e falou-lhe ao ouvido:

-Sou eu. Você pode me ver?

Ele deixou a xícara de café cair. Saiu da sala, procurou um lugar onde pudesse respirar e onde o barulho dos carros fosse alto o suficiente pra tirar-lhe da cabeça a idéia completamente descabida de que ela estava ali.

“-Eu só posso estar ficando louco! Acorda… caia na real…”

Ficou um tempo ainda ali, sentiu uma sensação de alívio. Quando voltou ela estava sentada na sua mesa, serena, esperando. Sentou-se no computador. Ela soprou de leve nos ouvidos. Ele sentiu um arrepio. Colocou os fones de ouvido e foi escutar a faixa seis.

Era menos assustador do que achar que estava realmente ouvindo a voz dela.

***

Ela acordou com alguém chamando na porta.

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Bárbara

30/05/2008 · 2 Comentários

Pela convidada Becky Braga
* Para ler ouvindo Bárbaro Soneto, de Patrícia Bastos.

Ela parou e procurou por uma mesa vazia. Sentou numa que ficava de costas para porta. Não queria ver quando ele chegasse.O garçom veio até ela e entregou-lhe o cardápio. Ela recusou e pediu uma vodca com gelo e tônica.

Acendeu um cigarro. Usava o isqueiro que ele havia dado a ela há alguns dias. Estava ansiosa e pensou que devia ter aceitado quando ele ofereceu carona. Estava detestando ter chegado primeiro e precisar esperar.

O garçom a serviu e ela deu um gole longo. Sentiu o estômago arder. Não era muito de beber.

Sentiu uma mão tocar-lhe o ombro. Fechou os olhos por uns segundos breves, arrepiava-se só de senti-lo por perto.

Ele sentou-se à sua frente e olhou-a com ternura. Tocou-lhe levemente o rosto e num gesto delicado tirou-lhe o cabelo do rosto.

Deram-se as mãos e ficaram a acariciar-se. Falaram sobre como tinha sido o dia, contas de banco, problemas com o computador e outras coisas sem muita importância.

Ele olhou pra ela por um longo tempo sem falar nada, quase violando sua curiosidade com os olhos ávidos, olhos que quase queriam falar.

“Eu senti a sua falta”, disse enfim baixando os olhos.

Foi a primeira vez que ela se sentiu calma desde o momento que chegou. Pediram mais bebida e alguma coisa pra comer. Mas sabiam que não estavam ali pra isso. Tudo fazia parte do ritual de tentar iniciar a derradeira conversa.

A conversa sobre aquela relação mal resolvida que não acabava, que não deixava que ela se permitisse viver outras coisas mesmo quando ele tinha uma relação sólida e ela era a outra.

-Eu não posso continuar te vendo. Eu não possso ser desonesto com ela, nem com você. Eu a amo e não vou deixá-la. Você é tudo que eu sempre quis mas é como se tivesse chegado na hora errada. Eu não posso mais, não posso te ver assim… Não posso. Eu não vou te procurar nem quero que me procures.

Ela contempla os olhos úmidos dele com alguma serenidade, sente as mãos frias, trêmulas. Enxuga sua única lágrima e levanta com calma. Ele até tenta impedir mas ela repele.

Chega perto dele, abaixa-se e beija-lhe ternamente o rosto. Ele cerra os olhos, sente o cheiro dela.

Dissimuladamente ela passa a mão no garfo em cima da mesa e crava-lhe na mão esquerda.

O grito dele é mudo e seco.

Sai andando com calma, as pessoas ao redor estão assustadas com a cena. A mão sangra muito. Ela carrega um ar de satisfação.

Ele levanta, agarra-a pelo braço, beija-lhe a boca, a mão que sangra no sexo dela. Um beijo sôfrego, ela agarrada aos cabelos escuros dele, respirando difícil, o choro na garganta.

Sai de lá com as marcas de sangue na saia e ele, aturdido, senta incrédulo. Chora de dor. Mas o que dói, ele sabe, não é a mão.

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Vidas paralelas

21/05/2008 · 1 Comentário


Por Antonio Carlos Monteiro

Nos idos de outros tempos, tive que assistir a um filme, para fazer um trabalho de uma matéria que não suportava… Fala de inconsciente… Assuntos tratados pelo velho Freud… E fiz por fazer, como alguém que cumpre uma obrigação e só…
Hoje relembrei desse dia, do tanto que praguejei da raiva que senti em ter que locar aquele filme disparatado… Pareciam um monte de malucos que dormiam e acordavam numa história histérica e sem sentido, avançando e retroagindo cada vez fazendo menos sentido…
Buscando uma analogia com o que vivo hoje, começo a observar que vivo em duas vidas paralelas… Não que eu esteja ficando louco, apenas alguns pensamentos e momentos preponderam sobre outros…
É como se a minha vida normal fosse cortada, em vários momentos, por outra até então desconhecida, mas que viajo tentando decifrar cada espaço ainda escuro…
E assim tem funcionado meus dias, me pego várias vezes com a cabeça longe, esqueço algumas coisas que fiz, outras faço de maneira automática sem pensar ou por instinto…
Alguns pensamentos fixos, um em especial… E esse me remete ainda mais a uma história apenas explicável se eu de fato considerar a existência de um mundo paralelo…
Refiro-me a saudade de alguém a quem apenas tenho acesso ao sorriso e umas poucas dúzias de palavras… Como pode?
Por isso hoje defendo essa vida paralela, acredito nela, tenho certeza que nos meus constantes momentos de branco viajo pra lá… Talvez lá possa conversar e rir exaustivamente de tudo que se passa, possa ser inteiro sem ser censurado, amar e ser amado a mesma e fiel medida…
Talvez lá e por enquanto apenas lá encontre o descanso, a paixão, a tormenta, a tempestade, o temporal, o sol, dunas, mar, sal, rio, doce, amor… Tantas coisas ambíguas, que se completam e se significam… Da mesma forma que faço com minha vida paralela até o momento de ser una.

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Hoje eu decidi ser Clichê!

14/05/2008 · 2 Comentários

Por Antonio Monteiro

Depois de tanto tempo vendo aqueles filmes água com açúcar, escutando músicas românticas, poesias soltas em tantos lugares, cheguei hoje a alguns pensamentos, talvez ingênuos, longe da realidade dos outros.
O primeiro deles é que não estamos tão longe da realidade dos filmes. Nossas vidas são como que caprichosamente controladas por um diretor ou escritor, nós meros coadjuvantes ou mesmo figurantes a espera de um roteiro surpreendente e uma trilha sonora não menos ilógica.
Achamos que temos perfeito domínio de tudo. E eis que de fundo ouvimos a chegada da trilha sonora. Algo que por instantes foi imperceptível, mas em uma tradução rápida a canção dizia: “Ela pode ser o rosto que não consigo esquecer… Um traço de prazer ou arrependimento… Pode ser o tesouro ou o preço que tenho que pagar…”
E realmente via na minha frente um sorriso e um olhar que jamais passariam despercebidos onde quer que seja. Ao andar apenas deixava um rastro dos cabelos ficando pra trás e um brilho natural que rodeava tudo em volta.
Engraçado como realmente isso acontece. Algumas pessoas têm um brilho interno, um imã que te puxa pra perto delas e que vai muito além da beleza que todo mundo vê. E fascina de imediato. Seduz de uma maneira a deixar confuso, um dilema, amarro-me aos mastros, tapo meus ouvidos, e escapo do canto da sereia!? Ou apenas admiro mais e mais e quem sabe me aproximo mais!?
E aí talvez esteja o pensamento mais importante do dia. Por que não me aproximar!?
Por isso hoje decidi ser clichê, ao menos hoje.
Quero encarar como num filme: “-Surreal mais encantador!”
Sem complicar muito, apenas deliciando-me com o canto, sorrindo com a lembrança do brilho nos seus olhos, sofrendo com a insegurança, esperando atentamente o minuto em que a parte da música tocará de novo e ela chegará.
Como é bom ser ingênuo, sonhar docemente e sem grandes pretensões, comer um saquinho de pipoca ao assistir o filme em que um cara normal conhece a melhor coisa que podia acontecer na faculdade…
E aí acabei dormindo, assisti apenas ao inicio, mas já foi suficiente… Dormi feliz, porque sonhei que eu estava lá, disposto a fazer mais que o necessário para fazer o melhor filme… Seja qual for o roteiro!

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Amor de armário

13/05/2008 · 2 Comentários

Por J.R. Gonzalez

Fazia frio e aquelas portas de madeira prensada não deixavam o clima dentro do armário aconchegante. Ainda mais por se tratar de uma cozinha, onde tudo é azulejado e frio. E cá pra nós, aquelas dobradiças já deveriam ter sido trocadas há um bom tempo, a porta mal fechava. Isso só agravava em muito o que os produtos guardados sentiam naquelas longas noites de outono, que estavam mais para as noites de inverno.

Tudo começou após uma ida ao supermercado. Compras do mês. Ele sabia muito bem como era aquilo. De repente, a prateleira que estava quase vazia, privativa para aqueles produtos que não foram consumidos, se enchia de novidades. E ele sempre sobrava. Para falar a verdade, ele não sabia nem porque havia sido comprado. Ninguém naquela casa gostava de cereal de aveia e disso, tinha certeza.

Biscoitos diversos, fermento em pó, alguns produtos de compota, torradas, adoçante líquido, palitos. O Nescau ficava na prateleira abaixo. Em meio àquele redemoinho de novos colegas, algo em especial havia lhe chamado a atenção: aquela pequenina caixinha vermelha de uvas passas. Como era graciosa aquela rapariga da embalagem! Cabelos morenos curtos, pele alva, bem vestida. Muito nova, ele pensou, e provavelmente deveria ser de consumo rápido. Se ficassem uma semana juntos naquela prateleira, seria muito.

Em poucos minutos, todos os produtos foram guardados em seus devidos lugares para serem esquecidos ali até a hora que alguém sentisse fome ou a empregada resolvesse fazer um bolo.

Naquela mesma noite, algo inusitado ou nem tanto, sucedeu. Uma barata das grandes entrou junto com o frio pela porta mal fechada. A rapariga, como toda rapariga, assustou-se. Ao perceber o nervosismo da donzela, ele, velho de armário, se pôs a acalmá-la:

- Acalme-se. Isso acontece de vez em quando. Não tem com o que se preocupar. Você esta bem fechada?
- Estou… Quer dizer, acho que estou – respondeu aflita.
- Estou certo de que deve estar. Produtos recém-chegados raramente vêm abertos – disse, tentando abrandar o nervosismo da moça.
- Mas… Mas… Ela está em cima de mim…
- Isso é porque você provavelmente deve ser docinha. Deve ter ficado junto de alguma amiga aberta no supermercado e pegou o cheiro. Acontece. Não há com que se preocupar; logo ela vai embora.

Eles ficaram juntos durante toda a noite. Uma hora a barata se foi, mas eles continuaram um com o outro até adormecer.

No dia seguinte, acordaram bem cedo, devido á claridade que entrava pela abertura da porta.

- É claro aqui – disse a moça com voz de quem acaba de acordar.
- Claridade pela manhã e frieza à noite! Esta porta já devia ter sido trocada há muito tempo, mas aqui eles não dão muita atenção a esses detalhes.
Depois de algum tempo, ela continuou:
- Obrigada por ontem á noite. Você foi… muito gentil.
- Que isso! Não fiz mais do que obrigação. Eu sei como são essas coisas. Já estive numa prateleira de supermercado uma vez, mas isso faz muito tempo. Sei como é difícil esse período de adaptação. Estamos acostumados a vida inteira a ver e interagir com produtos que são milimetricamente idênticos a nós. Mas aí, de repente, alguém nos tira de nossa prateleira, nos joga num carrinho. Daí pra frente é esteira, leitura ótica no nosso código de barra (constrangedor!), saco plástico, mala do carro sacudindo e, sem mais nem menos, caímos aqui, nesta prateleira fria, repleta de produtos que nunca imaginamos existir…
- Repletas de baratas também!
- Elas não costumam vir muito aqui – disse, sorrindo – mas, de qualquer forma, uma hora nos acostumamos com elas.
- Tudo é tão traumático. Se não fosse você ontem á noite, eu não sei como teria agüentado. E eu não sei nem o seu nome.
- Pode me chamar de Quaker. E você? Como se chama?
- Bem, quando fui retirada de minha prateleira, falaram “Há quanto tempo não via essas passas!”. Acho que meu nome é Passas.
- Não, “passas” é o que você é. Do mesmo jeito que eu sou um cereal de aveia. O que tem escrito na sua embalagem? –A forma como Quaker falava era culta e explicativa, como se fosse portador de grandes conhecimentos. E como isso encantava a insegura rapariga.
- Deixe-me ver… Sunrise Raisains Sécs, não sei se é assim que se pronuncia.
- Um nome em Francês! Encantador!

Quaker e Sunrise continuaram conversando por muito tempo. Falavam sobre tudo: experiências pessoais, memórias do supermercado, a vida naquela prateleira. Quaker contava para ela os hábitos da família e juntos ficavam imaginando o que haveria nas outras prateleiras.

Uma hora, já de noitinha, o esperado aconteceu. Eles estavam juntos, da mesma forma como tinha sido guardados. Pela porta mal fechada, avistavam a janela da cozinha e, através dela, um magnífico céu estrelado. O frio também contribuía para uma atmosfera bem romântica.
- Posso te perguntar uma coisa? – titubeou Sunrise, com sua voz graciosa.
- Claro.
- Você acredita em reciclagem?
- Não sei. Não costumo pensar muito nessas coisas.
- Me acha boba? – perguntou, insegura.
- De modo algum. Acho que o bobo devo ser eu, por ser tão objetivo e divagar pouco sobre a vida. Você acredita?
- Acredito, sim. Eu acho que não pode tudo acabar assim, simplesmente indo pro lixo. Imagino que deve ter algo mais, algo além de tudo isso que conhecemos.
- É capaz. Não costumo pensar muito sobre isso… – Do mesmo jeito que ela se encantava com toda sabedoria de Quaker, ele era fisgado pelo ar misterioso que ela exalava em suas palavras.
- Sabe, ontem à noite, você me chamou de docinha… – disse em tom apaixonado.
- Chamei? Desculpe a indeli…
- Não precisa se desculpar. (pequena pausa) – Eu gostei.

E daí em diante, eles se amaram como um casal em lua de mel. Ficaram se amando, olhando para as estrelas e, enquanto todos os produtos daquele armário sentiam um frio danado, eles reclamavam do calor. Ela pouco se importava com a idade avançada dele, até gostava dos seus cabelos brancos. E ele nunca havia imaginado que conseguiria moça tão bela em toda a sua vida.

O tempo foi passando e os dois consolidavam a relação, mesmo aparentemente sem ter muito em comum, descobriram juntos que ambos eram ricos em fibras. Mas não era só isso que os unia. Os gostos musicais e artísticos também. Apesar de que o sonho da vida de Sunrise era se tornar uma latinha de sopa Campbell de Andy Warhol, o maior motivador das brigas do casal:
- Você acha que eu não percebo como você olha para a Gina dos palitos??? – ela revelou um dia, em tom irritado.
- Como? Ah, pelo amor de Deus! Deixe de ser ciumenta dessa maneira! Você enxerga situações que não existem!
- Não existem?!? Quaker, eu te conheço. É só passar uma loirinha que você se assanha todo.
- E você? Já reparou como aqueles “monges” do chocolate em pó te comem com os olhos? De monges não tem é nada. São uns safados, isso sim!
- Ei, fale baixo. Não queremos criar um clima ruim na prateleira.

Mas essas discussões eram passageiras e, na verdade, só adicionavam aquele ciúme normal, que apimenta e estimula os relacionamentos. E por falar em apimentado…
- E aí, garotão? Não tem caloria pra noite toda não? – disse com um sorrisinho na boca.
- Vou te mostrar quantas gramas tem aqui nessa embalagem!
- Levadinho!

A idade avançada de Quaker não atrapalhava em nada a vida sexual do casal. Ele era uma máquina, e ela, insaciável.

De vez em quando, alguém abria o armário e pegava um biscoito ou o adoçante. E foi numa dessas vezes que passou pela primeira vez na cabeça de Quaker o que ele sempre soube: aquele amor, a vida a dois, não iria durar pra sempre. Ele sempre soube, desde a primeira vez que viu Sunrise, que uma hora ela seria consumida e ele ficaria ali, esquecido no armário, como sempre. Isso já havia ocorrido diversas vezes. Nenhum dos produto adquiridos juntamente com ele, ainda estava ali, sem que ninguém o notasse.

Como seria difícil suportar a solidão no armário sem ela! E depois que ela se fosse, também iriam todos os que conviveram com eles naquele armário. Chegariam novos produtos, que não fariam a menor idéia de quem Sunrise e do que o amor deles tinha representado. Chegaria o dia em que só ele saberia que esse amor tinha existido, e – quem sabe – ele não tivesse existido só na sua cabeça, já que ninguém mais partilharia com ele essas memórias. Ficaria velho e perturbado.

Chegará o dia – porque um dia todos os dias chegarão, até este – em que consertarão a dobradiça da porta ou quem sabe comprarão armários novos? E ele se lembrará dela, do frio que sentiam, das estrelas que viam através da janela. E sentirá um aperto forte no fundo do peito, uma vontade apenas de contar pra ela essa novidade. Chorará por horas, dias sem fim. Chegará até mesmo – veja só que besteira – a desejar nunca tê-la conhecido, para não ficar condenado a uma vida posterior de saudades e sofrimentos. Mas, no fundo, sabia que só conhecera o que é a vida naquele dias de compras, quando avistou pela primeira vez aquela menina ainda sem nome. Aquela menina apavorada com a barata em cima dela.

Só de imaginar isso tudo Quaker emudecia.
-O que houve, amor? Por que você está com essa cara?
-Nada não, querida, Pensando… Será que existe aquela história de reciclagem? Será que no passado a gente não fomos um produto só?
- Ás vezes, eu penso nisso. Quem sabe, no futuro, nós não nos tornaremos os dois uma só embalagem, guardando o mesmo produto?

Pensar no futuro era fatal para Quaker. Todos os fantasmas da separação voltavam à sua cabeça e, ao seu rosto, voltava aquela expressão que tanto incomodava Sunrise.

Quando ela ia perguntar novamente sobre o que ele estava pensando dentro daquele chapéu, foi interrompida. A porta se abriu e a empregada enfiou o rosto na frente da prateleira. A primeira a ir embora foi Sunrise, quando ainda estava pensando no que afligia o companheiro. Depois, foi a vez do pote de açúcar – mas este sabia que iria retornar. E, por fim, nosso querido Quaker, que também faria parte da receita!

É! Por essa ele não esperava. Nunca imaginou que chegaria o dia em que seria consumido e sem que fosse preciso se separar de Sunrise. Seriam consumidos juntos, tendo o seu amor eternizado.

Ingredientes:
200g de flocos de aveia.
200 ml de água.
Uma casca de laranja ou de limão.
Duas maçãs descascadas e picadas.
Uma colher de chá de açúcar.
Uma colher de chá de erva-doce.
50g de passas de uvas.

Modo de preparo:
1. Cozinhe os flocos de aveia em água fervendo com uma casca de limão.
2. Junte as maçãs picadas, as passas de uva e a erva-doce.
3. Misture, adicione açúcar e introduza numa forma untada.
4. Asse em forno moderado durante 20 minutos.

Esta é a história do amor entre Quaker e Sunrise, que tiveram o seu conteúdo unido numa deliciosa receita de bolo de aveia com passas. Suas embalagens foram jogadas juntas na lata de lixo. Se foram reciclados ou não, ninguém sabe. E, mesmo se alguém soubesse, não viria ao caso estragar os mistérios da vida.

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Epitáfio de um morto-vivo

24/04/2008 · 3 Comentários

por Raoní Beltrão (Nosso querido amigo convidado e conhecido pelo famoso “Açoite sem fimmmm” )

Homens e homem, a diferença está no número. Principalmente quando novos, homens comportam-se de maneira bem peculiar em grupo, uma espécie de treino. Sim, pois um jovem sozinho é inseguro, porém em grupo é destemido. Tudo bem, alguns parecem que jamais envelhecem mentalmente e continuam a comporta-se de tal maneira, mas o fato é que durante os treinos de machismo, homofobia, arrogância e truculência são definidos padrões de comportamento específicos, a maioria referentes a relações com outros homens, principalmente os que se julgue “não tão homens assim”. Sobra um pouco também para o tratamento referente às mulheres, com exceção de algumas familiares, o treinamento padrão nesse caso advém da metodologia de casos imaginários de conquistas e desempenhos sem fim.

Em tais rodinhas, não há homem virgem, o mais inexperiente no mínimo já transou com inúmeras mulheres, simultaneamente inclusive. Pois, a inexperiência revelaria a falta de “macheza”. Nesse sentido, há o treino sobre casos imaginários referentes as performances sexuais, relegando as mulheres a meros aspectos anatômicos, resumidos basicamente em bunda e peitos, além da submissão é claro. Quanto a seleção, basta ser “comível”. E a chance de falha na hora “H” é praticamente irremediável para a moral machista. Pois, se a mulher for “comível”, não há argumento que justifique tal “fraqueza”.

Após a graduação em machismo, alguns homens passam a viver por si só e por em prática finalmente suas teses de dominação masculina. E aí, que alguns menos obstinados em buscar uma pós-graduação em machismo começam a experimentar contradições do conhecimento acumulado por toda a adolescência. Por exemplo, quanto ao apetite sexual, descobrimos que os atributos anatômicos não são suficientes para nos apetecer, inclusive sexualmente, praticamente uma blasfêmia! O descalabro é tamanho que chegamos até a nos envolver emocionalmente (um absurdo!) com mulheres que, digamos assim, não se encaixam aos padrões anatômicos pré-estabelecidos… Daí, vem a crise existencial, estaríamos perdendo a virilidade, o instinto predatório sexual?!

Algo tem que ser feito, para tanto voltamos à caça até abatermos uma presa digna de nota ao “grupinho” (leia-se a todos que consigamos contar). É então que vem a prova dos nove, imediatamente para cama, iniciamos o “teste de virilidade”. Porém, não mais que de repente, aquele afã todo se esvai nas lembranças das asneiras proferidas, naquele bate-papo digital que revelou aquela “falcidade” (com “c”!!!), naquele convite ao show do Bruno & Marrone, naquela sonoplastia fantasiosa, enfim… e na passagem “da primeira pra segunda” surgem certas dificuldades, onde estão as preliminares?, o afeto?, a cumplicidade? Começamos a sentir falta daquele jeitinho especial de amar, que só aquela pessoa especial conhece. E agora o que fazer? Para onde correr? É então que consolida-se o crime sem suspeito, temos um morto-vivo estirado entre as pernas! Logo ele, que acabara de desempenhar seu papel, começa a fa… fafa… falharrr! Oh, não! Seria o nosso fim?! A culpa só pode ser dessa maldita camisinha que nos prende! Alguém tem que pagar…

Talvez aí então, alguns de nós compreendamos que relações afetivas vão além do aspecto físico, e até esse aspecto começa a ser influenciado pela afinidade, pelo am.. am… amor (argh!) e o crime está consumado, o morto-vivo é encontrado, morre mais um machista-vivo e nasce um ser humano sensível a natureza e à humanidade. Encarar o sexo oposto como igual, pensar como um só, amar como todos e todas, libertar-se enfim da ânsia opressiva e alcançar a verdadeira felicidade, que é aquela que se compartilha. Ali então jaz um morto-vivo.

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Hoje correndo atrás do amanhã e depois.

04/04/2008 · 3 Comentários

*refrão de música escrita por Jorge Du Peixe.
Por Lucas Paolelli (nosso querido convidado e grande amigo das ohvarias)

5:54 da manhã de quarta-feira. Pouco mais de duas horas atrás, eu tinha acordado todo descangotado no sofá e não consegui dormir mais. Tentei de tudo. Vi o final de um filme na Sessão de Gala. Depois tentei deitar, mas nada de o sono voltar. Rolava de um lado para o outro da cama, sem relaxar. Eu estava agoniado, tenso, cabreiro, aceso. Aliás, é como eu tenho me sentido nos últimos tempos. Amanheci em frente ao computador, ajustando o AC Nicotime (meu time virtual) e ouvindo Tomorrow Never Knows, clássica canção de um certo quarteto de Liverpool (cujo título, por ironia do destino, veio muito bem a calhar).

Meu momento atual é difícil. Para um cara que sempre procurou levar a vida baseando-se em certezas, estou todo baratinado ao ter que me acostumar com as interrogações que a vida tem esfregado nos meus olhos. Em qualquer assunto que eu me recordo, pensamentos e conceitos do passado entraram ou estão entrando em choque com o que penso do que será do futuro, seja em comportamento, na carreira profissional que escolhi e pretendo construir, e até mesmo nas relações de amor ou de amizade.

Antes que surja um comentário ou trocadilho imbecil se reportando ao final do parágrafo anterior, ou mesmo atribuindo, a mim, um estado de crise existencial, faço questão de dizer que, apesar do meu ponto de vista (digamos) quadrado, acho que crise existencial é coisa de baitola, e portanto, nada tem a ver com a essência áspera feito lixa deste ícone da virilidade que vos escreve (ou ao menos tenta).

De uma personalidade radical, tudo aquilo que nela eu agreguei, ao longo dos meus 25 verões, foi fincado, em grande parte, no que eu sempre acreditei ser certo e no que eu achava melhor pra mim. Entretanto, mais do que as rugas e os fios de cabelos brancos que aparecem (e crescem de uma forma totalmente diferente do resto do cabelo), o passar dos anos tem me proporcionado, até mais importantes do que os momentos de felicidade, as frustrações. As porradas que a vida me deu fez com que grande parte das minhas certezas, de repente e sem dó nem piedade, ruíssem.

Eu era um cara aiatolá, extremo. Somente prestava ser como eu era. Somente era legal o que ou quem tinha a ver com isso. Eu repudiava os tipos cagão/playboy ou rastafaráaai-malandrinha, as babaquices desses tipos estrupícios me deixavam irado. Jamais ia à boate mais badalada do momento, dessas que viram notícia dominical de jornal impresso. Sentia ânsia de vômito diante do pop gritante, e golfava diante do alternativo rasgado. Escutava somente rock, e tudo o que não fosse rock simplesmente era “zuada”. Alguns desses exemplos demonstram os meus gostos estranhos e minha postura rígida. Eu era o normal (e era normal quem compactuasse com isso). Os estranhos eram os que faziam parte da maioria, por serem complacentes com tava imbecilidade. Ainda bem que esses tempos de percepção limitada já ficaram lá atrás …

De uns tempos pra cá, foi natural e bombástico compreender essa visão curta fez com que eu me privasse de viver muitas coisas bacanas, de me relacionar com um monte de pessoas, de me fechar perante a diversidade e abrangência que o mundo tem para me oferecer. O meu ode ao incomum, ao esdrúxulo e às minorias tenderia a restringir os meus caminhos (para não usar uma expressão mais incisiva usando o verbo alijar). O prejudicado fui eu, pela inflexibilidade, pois no final das contas, EU seria o estranho, e A MAIORIA seria normal. Custava ser um pouco mais normal, e viver um pouco mais em acordo com a “normalidade da maioria”? Ao menos eu teria vivenciado experiências mais diversas, e me privado menos da mesmice.

Mas esse semancol que brevemente tentei relatar, até que não foi dos mais traumáticos.

O curso de nível superior que eu escolhi estudar e exercer profissionalmente exige retidão e formalidade. Tais atributos colidiram de frente com o jeito que, lá atrás, eu tinha. Eu, como todo bom rebelde que se preze, por teimosia e imaturidade, planejei remar contra a maré. Ledo engano.

Foi aí que a própria carreira me deu várias “mijadas”, pra apontar o dedo na minha cara e dar o seu recado: ser reacionário contra a imagem do profissional do Direito, aquela de moldes rígidos e quase intocados, traçados desde os primórdios desse segmento profissional, poderia resultar numa dificuldade a mais para mim, na carreira que eu pretendi seguir dentre as tantas que a formação jurídica oferece. Passei a reconhecer que não dá usar com o cabelo desgrenhado, roupa mulambenta, barba por fazer, ou tênis “excêntricos” toda a vez que der na telha, ou mesmo abusar de palavrões ou gírias durante uma conversa. Por mais que eu não concorde, infelizmente é assim que as coisas funcionam.

Pode parecer, pros outros, mediocridade, conformismo, ou até mesmo falsa humildade, sei lá. Frise-se, eu nunca fiz questão de ser o melhor, ou objeto da reverência alheia. Sempre quis ser bom e útil para quem eu esteja representando, independentemente de ser o ladrão de galinhas ou a União.

Entretanto, nessa carreira, infelizmente, prevalece muito mais aquilo que os colegas enxergam na(ou da) gente, a despeito daquilo que somos de verdade: ou eu danço conforme a música para ser reconhecido como bom, ou então, sou alijado do sistema e tachado de bizarro (mesmo que eu seja um dos mais brilhantes). Não posso ser escroto o bastante para ser do jeito que quero, mas se eu entrar na coreografia, corro o risco de ser apenas mais um dentre os milhares. Em determinados momentos, por questão de política profissional, serei obrigado a fazer uso da famosa “capa”, apesar de ser convicto de que tal artifício é algo repugnante. Eis um dos dilemas cuja dosagem ideal eu ainda vou perder muitos cabelos até encontrar. Afirmo com toda a certeza que, no campo profissional, as minhas constatações foram das mais chocantes e brochantes que eu tive nessas épocas.

Finalmente, o amor. Ah, o amor… o “quesito” que é, sempre foi, e sempre vai ser o mais embaraçoso de se entender, principalmente pra mim. O sentimento mais carregado de emoção, que sempre aparece para desmontar a fortaleza de certeza e razão que eu tento erguer como meu escudo. Prescindível é, a essa altura, ficar detalhando meu histórico amoroso com as mulheres (que não foram tantas) que fizeram parte da minha vida, muito menos esmiuçando cada relacionamento. A cagada é quando a gente lida com pessoas diferentes, e se apercebe de como as pessoas são complicadas, os relacionamentos são enrolados, tudo por causa da emoção e do sentimento. Essa dupla é pós-graduada em desmoronamento de razão.

Sempre na fossa, geralmente após ter tomado uns gorós e ter falado merda até não querer mais, o encostar da cabeça no travesseiro traz a tristeza. Como já foi dito lá atrás, das frustrações e dos reveses é que brotam os aprendizados. A pessoa que parece muito com a gente quase sempre não é a certa. E aquela de características opostas? Os opostos se atraem? Pura conversa fiada ! Aí é que não dá mesmo ! E por quê então é que tentamos? Simples: porque somos imbecis, e achamos que pode dar certo pensando com o coração. Olha aí a emoção novamente causando destruição.

Deu pra perceber que o amor, por mais forte e puro que seja declarado, é um sentimento podado por vários outros fatores, como amor próprio, egoísmo, diferenças. Portanto, nem sempre o fato de duas pessoas que se gostam demais vão resultar na melhor e mais inesquecível das relações. Ou por outro lado, até mesmo aquele relacionamento que começa despretensioso, sem aquele amor latente e derretido, mas que começa pautado no respeito às diferenças, a individualidade e ao amor próprio de cada um, esse sim, tem muito mais chances de se prolongar em harmonia. Mas, nessa hipótese, falamos mesmo do amor ? Ou seria uma espécie de relacionamento-de-conveniência-com_espasmos-de-carinho? Puta que o pariu, melhor nem pensar ! Enfim, algumas dessas “premissas” ainda não verdades absolutas pra mim, até porquê eu não consigo explicar como é possível que, e certos casos, é melhor que duas pessoas que, embora se amem muito, não fiquem juntas. Ou então, que a garota bonita, bem-humorada, inteligente, de bons gostos e bem resolvida profissionalmente possa chegar a amar um merda de um cara que não quer porra nenhuma com a vida, que não acrescenta nada pra ninguém, tem bafo e ainda é odiado por todos que gostam daquela. Ah, o amor … cheio dessas ciladas !

São tantas perguntas sem resposta, tantas hipóteses, tantos caminhos a serem seguidos, cada um podendo ocasionar as mais diversas consequências. Os exemplos dados aqui podem parecer besteira – embora a música fale que besteira é coisa séria, é preciso com ela filosofar –, mas servem para dar um esboço de tudo que vivemos (nos) interrogando, ou de tantas certezas que fingimos que temos.

Mesmo assim, sinto que cresci. Hoje, ainda não o suficiente para ter a maioria das respostas que quero. Mas cresci ao menos a ponto de perceber o quanto o que eu perdi, o quanto de merda eu pensei, o quanto de coisas que eu vou ter que refazer e ainda o tanto de coisas que ainda tenho pra aprender, mesmo que seja na marra. Cresci, pelo menos, ao ponto de questionar minhas certezas de outrora, e de colocá-las em xeque.

Na vida, poderemos ser nós mesmos sempre, mas sempre lembrando que há os outros que nos rodeiam. Compreendi que não temos direito de impor nada a ninguém, nem sucumbir às imposições de outrem, bastando encará-las como opiniões, por mais diferentes que elas sejam. Comecei a entender aquilo o que a minha mãe sempre quis me dizer com o indefectível “temos que respeitar as diferenças”, e comecei a levantar essa bandeira não mais da boca pra fora. Não podemos virar de costas para o mundo com um ar de “foda-se”, pois dependemos de tudo e de todos, por mais ínfima que essa relação de dependência possa ser. Que muito daquilo que somos não se liga exclusivamente ao que queremos ser, mas também, de como moldamos nossa imagem, partindo de como pretendemos que os outros nos vejam.

Como diz o bordão, viver é um constante aprendizado. O que eu fui ontem, o que sou hoje e o que eu serei amanhã? Esse a partir desse conflito que brotam todos os outros questionamentos que surgem pra mim. Justamente por não saber as respostas, todas essas incertezas é que me causam tanta tensão, e às vezes, não me deixam dormir. O que serei amanhã vai depender das respostas que eu ache, de como vou equacionar o que eu QUERO ser e o que eu DEVO ser.

Ao menos, as primeiras conclusões eu já tenho. Sentar num bar e enfiar trocentos copos de cerveja goela abaixo para “esquecer de tudo”, além de não aliviar a agonia, ainda corrói o fígado. Em vez de encher a lataria, é até melhor chorar. Deixar escorrer umas lágrimas, não só por tristeza ou raiva, não é vergonha pra ninguém (sim, os viris também choram!). Chorar de felicidade, chorar por comoção, ou por qualquer motivo que seja faz (e muito) bem! Às vezes, uma lágrima e uma expressão facial traduz uma carga emotiva muito mais sincera do que mil palavras. O choro decorrente de um filme de drama pode fazer tão bem, ser tão descongestionante quando aquele que acontece pela simples constatação de que não estou preparado suficientemente para o turbilhão que anda pesando sobre as minhas costas. É… as lágrimas da incerteza e da fragilidade também fazem bem que só, aliviam, e isso eu só tive o prazer de constatar de pouco tempo pra cá

Mas isso ainda é pouco. Torço para conseguir achar as respostas rápido. Sob pena de ter outra iniciativa tosca de gerar um documento de Word relatando as minhas viagens pessoais para encher o saco alheio. Ou sob pena de ficar com olheiras estilo Ray Ban por continuar acordando às três e pouco da manhã, e no final, ainda enjoar de Tomorrow never knows …

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Pescar

04/03/2008 · 2 Comentários

Por Mayra Castro

Pescar é um esporte que exige paciência, coisa que eu nunca tive muito.Ficar horas esperando algum peixe fisgar uma isca, não me parece nada atrativo.Acho que em toda minha vida só pesquei um mísero peixinho.Mas pode ser história de pescador,não tenho foto como registro.

Mas uma vez eu realmente saí pra pescar e me perdi nas “ruas” do rio negro.Até que um ribeirinho,montado na sua embarcação cheia de mercadoria, me conduziu até a “esquina” do hotel onde eu estava.Eu não levei nenhum peixinho pro hotel,mas também não cheguei de mão vazia, ganhei um milho do ribeirinho.

Dessa última vez foi melhor,e lá fui eu pescar com um amigo. Eu não tinha nada,nem anzol e nem linha.Pelo menos não precisava de isca.E achar a linha foi mais fácil,mas o anzol foi fabricado com resto de metal achado na rua.E lá fomos nós pro rio.
Meu alvo estava lá paradinho,como se a me esperar.Na primeira tentativa minha linha arrebentou e lá fiquei sem anzol.E como deu trabalho pra achar outro na rua!Novo anzol, nova tentativa.E dessa vez foi a linha que desamarrou…e o que eu queria nem se mexia!Mais uma tentativa e quando eu pensei que ia dar certo,falhou de novo. Eu já estava impaciente de tanto ter que arrumar anzol na rua.Mas finalmente ela se mexeu um pouco a meu favor “agora vem, tenho certeza!”.Veio só pra mais perto.Eu já não aguentava mais inventar anzol pra essa minha pescaria, já tava pra jogar alguém no rio!Mas depois de umas 5 tentativas,metros de linha quebrada e vários anzóis improvisados,minha esperança aumentou “agora tu não me escapas”.

Ufa,quase escapa!Até que com muito esforço e ajuda incondicional do meu amigo,conseguimos puxá-la pra fora.Limpamos, enxugamos,batemos foto pra não dizerem que era história de pescador e comemoramos,claro.

Depois de uma manhã inteira de trabalho árduo de pescaria, sem nenhum peixinho,mas com quilômetros de estrada pra ganhar,voltei pra casa alegre e satisfeita com o fruto da minha pescaria: uma bicicleta azul novinha.E mais essa história pra contar…

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CARÊNCIA DE DEPOIMENTO

01/03/2008 · 3 Comentários

Por Jaime Brasil ( advogado, músico, escritor e aquele tio legal da família que todo mundo gosta)

Meu pobre orkut:
só fake de fuck
nenhum scrap, ninguém me add,
e duas visitas em toda a semana:
da mana e da Ana.

Até já sou outro no “quem sou eu”:
estilo alternativo, menti que não bebo,
leio Paulo Coelho e que não sou feio,
gosto do Potter, que até assisto o Jô.

Namoro mulheres, estilo alternativo,
Ainda assim, ninguém se interessa se escuto Jobim,
que será de mim, que amo viagens mas nunca parti,
com este perfil,que nada aprendeu,
com relacionamentos anteriores….
com todos aqueles amores….
com todas aquelas dores….

Não penso em suicídio talvez genocídio,
se ninguém acessa, um cara acessível,
casual, contemporâneo, aberto pra relacionamento….
e sem nenhum depoimento.

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Tirinhas do John, clique em cima.

12/02/2008 · 2 Comentários

johntirinha26.jpg

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Publicidade´N´ROLL

30/01/2008 · Deixe um comentário

john11.jpg
21.jpg

Convidado da Moara:
John Bogéa, publicitário e integrante da banda de hardcore de Belém “Rennegados”. Quer ver o vídeo dos Rennegados?É só ir clicar no vodpod do lado esquerdo.

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